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Quem vê caras não vê corações
Opinião Sociedade 5 min. 27.10.2021
Dicas/Educação

Quem vê caras não vê corações

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Quem vê caras não vê corações

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Sociedade 5 min. 27.10.2021
Dicas/Educação

Quem vê caras não vê corações

Desde cedo ensinaram-nos que deveríamos esconder e "controlar" algumas emoções específicas, normalmente aquelas que associamos a coisas negativas como a tristeza, a raiva ou o medo.

Alexandra Brito (professora) e Ana Barbosa (psicóloga)

As emoções estão todos os dias presentes nas nossas vidas. Entre adultos partilhamos uns com os outros frequentemente o quão é ou foi difícil, seja para nós ou para outros, "controlar" ou não mostrar uma dada emoção num determinado momento - "não aguentei, desatei a chorar", "foi mais forte que eu, disse-lhe poucas e boas!", "não sabia onde me havia de meter, fiquei vermelho como um tomate".

Desde cedo ensinaram-nos que deveríamos esconder e "controlar" algumas emoções específicas, normalmente aquelas que associamos a coisas negativas como a tristeza, a raiva ou o medo. Parece que, por algum motivo, se espera que as pessoas estejam sempre bem-dispostas, sorridentes e funcionais, que não o estar é sinal de fraqueza até. Um dos exemplos extremos disto mesmo é o recurso e a prescrição de antidepressivos a pessoas que estão a viver uma situação de luto, que por vezes nem uma semana tem, como se não fizesse sentido ou houvesse direito a estar profundamente triste com a morte de alguém que amamos. 

Ora esta tentativa de negação de uma parte significativa da nossa paleta emocional é claramente no mínimo tapar o sol com uma peneira, mas no máximo terá o potencial de uma barragem que rebenta pelas costuras. Todos nós sabemos que podemos ser confrontados por emoções que nos "tomam de assalto", que muitas vezes gostaríamos de as conseguir contrariar, mas sem sucesso… e mesmo assim exigimos isto mesmo das crianças. Quantas vezes as nossas emoções e a dificuldade de as gerir nos metem em trabalhos connosco próprios ou com pessoas das nossas relações, mesmo após experiências semelhantes com desfechos idênticos? Mas condenamos à boca cheia as crianças por incidirem ou reincidirem nos mesmos tipos de dificuldades...

Fizeram connosco e acabamos a repetir a ladainha - "não chores", "não há razão para estares zangada", "não há motivo para medos". Desde muito pequenas dizemos às crianças para pararem de sentir, porque sim, porque nos incomoda, porque não temos paciência porque achamos que não há razão para aquela emoção. Quantas vezes ouvimos desde o berço "isso é manha" ou depois "criança não tem vontades", "isso é fita" - e quantas vezes o repetimos nós depois… Isto reflete-se nas expectativas e nas práticas educativas, na qualidade das relações e no desenvolvimento emocional futuro - como podemos bem observar nos adultos à nossa volta, uns mais e outros menos capazes de gerir as suas emoções. 


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As neurociências têm contribuído imenso para acabar com muitos dos mitos que existiam. Há muitíssima informação a este respeito que nos deve seriamente fazer repensar as nossas posturas frente a esta questão. As emoções são algo do mais instintivo que temos e todas elas têm uma importantíssima função na nossa sobrevivência e na nossa vida. As cinco mais básicas, desde logo, o medo, a alegria, a raiva, a tristeza e o nojo são percetíveis desde muito cedo e têm um grande impacto no quotidiano, sendo todas essenciais. A este propósito, o filme de animação "Divertida-Mente", da Disney Pixar, teve o mérito de explicar isso mesmo de uma forma acessível até para crianças.

Quando um bebé chora ou uma criança faz uma birra, não estão premeditadamente a tentar manipular os adultos (nem sequer terão essa capacidade até bem mais tarde), estão a sentir genuinamente… a sentir algo que lhes é incontrolável e para o qual muitas vezes nem palavras têm. O facto de conseguirmos que rapidamente passem a outros estados emocionais, distraindo-os ou chamando-os a atenção de forma mais vincada, não significa que o que estavam a sentir antes não fosse real ou válido. Significa apenas que conseguimos fazê-los saltar para outras emoções (surpresa, medo, etc.) porque estas ainda não se enraízam pensamento adentro, como nos adolescentes ou adultos! 

Com as emoções instintivas vêm os impulsos comportamentais, as reações que transbordam corpo a fora. Hoje sabe-se que a zona do cérebro responsável pela gestão do comportamento em relação com as emoções está em desenvolvimento até aos 21 anos e a experiência de vida durante esse período também vai ter influência na qualidade desse desenvolvimento. Ou seja, tomadas de decisão ponderadas, que têm em conta não apenas o imediato, mas também o futuro, não apenas as nossas perspetivas, mas também as dos outros, etc, são "work in progress" quando se trata de crianças e até mesmo adolescentes (já para não dizer adultos cuja experiência não lhes permitiu sair do estado emocional "em bruto"). 

Na próxima semana abordaremos o que se pode fazer para educar intencionalmente a gerir as emoções. Até lá propomo-vos uma viagem ao interior das vossas emoções e um olhar atento e observador às das vossas crianças. O que sentimos, o que sentem, como exteriorizamos, como exteriorizam… Isso e um bom filme para vos pôr à conversa sobre tudo isto.

 

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