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Quem é que vai à consulta com o pai? Vou eu ou vais tu?
Opinião Sociedade 4 min. 09.03.2022 Do nosso arquivo online
Andamos todos ao mesmo

Quem é que vai à consulta com o pai? Vou eu ou vais tu?

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Quem é que vai à consulta com o pai? Vou eu ou vais tu?

Foto: Shutterstock
Opinião Sociedade 4 min. 09.03.2022 Do nosso arquivo online
Andamos todos ao mesmo

Quem é que vai à consulta com o pai? Vou eu ou vais tu?

Ver os filhos a crescer é simultaneamente enternecedor e assustador. Ver os pais a envelhecer e sentirmos que cuidamos naturalmente como os vimos a fazer com os pais deles – é só assustador.

(Paulo Farinha)

Já vi a minha mãe a chorar algumas vezes. Por tristeza e por alegria. A partir de uma certa idade, quando passei a ter maturidade emocional para isso (que é coisa que também se trabalha e não são favas contadas), deixei de ter vergonha de a consolar nos momentos tristes. De abrir os braços para ela e a puxar a mim. Não foi tão difícil como abraçar o meu pai e dizer-lhe "gosto de ti". Isso custou ainda mais, demorou ainda mais anos e está gravado mais fundo na minha memória. Sei o dia em que foi, a ocasião, o que disse depois... e o peso que me saiu de cima na altura. Não é que a coisa estivesse entalada e fosse necessário sanar o que quer que fosse, era apenas um gesto e uma tríade de palavras que eu não estava habituado a usar com ele.

Talvez seja por isso que passo a vida a dizê-lo às minhas filhas. Sou um verdadeiro chato sentimental nessa coisas de as educar para a partilha de emoções. Quando eu digo "gosto muito de ti e tenho orgulho em ti" enquanto as olho fixamente, uma dá-me palmadinhas no ombro e pergunta: "está bem, está bem, posso continuar a brincar?". A outra fita-me muito séria e atira, devagarinho: "eu-tam-bém-gooooosto-muuuuito-de-ti..." E remata: "Mas porque é que estás a dizer-me isso com voz de rádio e essa cara séria?"

Filha primogénita, já vi a minha mãe a chorar várias vezes, mas há três que não me saem da memória: no funeral dos irmãos mais novos, enquanto as urnas desciam à terra, e, uns bons anos antes, no dia em que decidiu – depois de muita ponderação e discussão interna, muitas conversas com os meus tios e o meu pai e muita fadiga física e emocional – que a minha avó teria melhores cuidados se estivesse num lar.

Cresci numa família em que cuidamos dos nossos enquanto conseguimos (a genética é tramada) e, por isso, quando hoje em dia eu e as minhas irmãs falamos com os nossos pais sobre o medo que temos que chegue essa data, fazêmo-lo com um orgulho logístico e emocional misturado com um sentido prático de defesa que leva a adiar a conversa.

Reparem, a minha mãe é enfermeira e não há nada que esteja mais gravado no ADN desses profissionais de saúde do que a palavra "cuidar". E quando se trata de cuidar dos seus, então, a coisa ganha contornos maiores que não cabem no coração ou na razão. E então, ali estava ela, a enfermeira, que cuidou dos pais enquanto teve condições logísticas e de saúde para isso, a tomar a mais difícil de todas as decisões, que sempre garantira que só faria em última hipótese.

Cresci numa família em que cuidamos dos nossos enquanto conseguimos (a genética é tramada) e, por isso, quando hoje em dia eu e as minhas irmãs falamos com os nossos pais sobre o medo que temos que chegue essa data, fazêmo-lo com um orgulho logístico e emocional misturado com um sentido prático de defesa que leva a adiar a conversa. "Depois logo se pensa nisso" é uma muleta que dá um jeito tremendo para empurrar com a barriga mas facilmente tropeçamos nela em caso de urgência.

Ver os filhos a crescer é simultaneamente enternecedor e assustador. Ver os pais a envelhecer e sentirmos que cuidamos naturalmente como os vimos a fazer com os pais deles – é só assustador. Na maior parte dos dias, porém, quando temos de fazer perguntas práticas como a do título ou quando temos de dar a volta à vida para acomodar tudo, limitamo-nos a considerar uma bênção termos de pensar nisto.

Mas ajuda muito ter alguma bagagem emocional para os abraços e para as conversas difíceis.


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Paulo Farinha
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