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"Quem chega de Portugal não deve ser escravo do trabalho"
Dom Jorge Ortiga escuta uma fiel durante uma confissão, na igreja de Niederwiltz.

"Quem chega de Portugal não deve ser escravo do trabalho"

Foto: Matic Zorman
Dom Jorge Ortiga escuta uma fiel durante uma confissão, na igreja de Niederwiltz.
Sociedade 3 min. 16.05.2018

"Quem chega de Portugal não deve ser escravo do trabalho"

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
À conversa com o Contacto, o arcebispo de Braga reconhece as dificuldades dos imigrantes que chegam ao Luxemburgo e apela a uma maior participação cívica. Dom Jorge Ortiga participou, na quinta-feira, na sua segunda peregrinação ao santuário de Fátima, em Wiltz.

“Já conheço um bocadinho do ambiente. Quando cá estive há cerca de 15 anos, chamou-me a atenção o sentido de família que os portugueses procuravam criar também nesta peregrinação. Preparavam as grelhadas em família, o que mostrava união, e depois seguiam juntos para rezar e estar com a Nossa Senhora”, lembra o arcebispo primaz de Braga, que esteve pela primeira vez no Luxemburgo em 2002, para participar na 33a peregrinação.

Na altura, Dom Jorge Ortiga foi acompanhado pelo padre Belmiro Narino (falecido no ano passado), da então Missão Católica Portuguesa, e pelo anterior arcebispo do Luxemburgo, Fernand Franck.

Foto: Matic Zorman

“O imigrante tem muitíssimas dificuldades”

Nesta sua segunda visita ao Luxemburgo, e quando questionado sobre o acolhimento dos imigrantes, o arcebispo reconheceu que há problemas.

“O imigrante, quando chega a um país tem sempre muitíssimas dificuldades. Por mais que se fale em política de imigração, é sempre muito complicado acolher as pessoas, de modo que sintam que o mundo é a sua terra. As pessoas têm as suas raízes, mas o seu corpo pode estar em qualquer parte do mundo. E é por isso que faz falta que as pessoas se encontrem e, a partir da língua, da cultura portuguesa, possam lutar por uma vida digna, honesta, com valores e feliz”, desafia Dom Jorge Ortiga.

“O trabalho é imprescindível, mas quem deixa Portugal para vir para aqui não deve ser escravo do trabalho, mas pensar noutras coisas”, acrescenta.

Apesar de o estrangeiros não poderem votar nas próximas eleições legislativas, o clérigo aproveitou também para apelar à participação cívica dos portugueses. “Temos uma responsabilidade muito grande na construção de uma sociedade um pouco melhor. Não podemos estar à espera que sejam só os políticos ou as associações a fazer isso. Teremos que dar as mãos e trabalhar por uma participação cívica, imprescindível para bem dos próprios e da sociedade”.

Foto: Matic Zorman

Arcebispo dos Bracarenses

Sobre a sua receção, o arcebispo de Braga não poderia ter sido melhor acolhido do que na sede da associação “os Bracarenses”, no Grund, na cidade do Luxemburgo. À sua chegada, o primaz da cidade dos arcebispos foi benzer na quarta-feira a sede dos representantes do Sporting Clube de Braga no Luxemburgo, por ocasião dos seus 40 anos.

“Quando me convidaram, respondi imediatamente que tinha todo o gosto. O facto de ser de Braga dá-me um grande prazer, como também daria outra associação de qualquer parte do país. Sou de Famalicão, onde tenho família, mas a minha vida foi passada quase toda em Braga, onde fui seminarista, padre, depois bispo e agora arcebispo”, disse Dom Jorge Ortiga.

Foto: Anouk Antony

Mensagem de paz

Este ano, a 51a peregrinação teve como tema “Rezai pela paz”, uma mensagem muito próxima do tema escolhido em 2002, “Com Maria sejamos construtores de Paz”, na primeira visita de Dom Jorge Ortiga.

“Por vezes confundimos paz com ausência da guerra, e também confundimos guerra com questões bélicas. Há muitos tipos de guerra e de paz. Mas a paz é também algo interior, um dom que se constrói com os outros, na relação fraterna. Estamos numa sociedade fragmentada, com muitas divisões. Dou o exemplo dos partidos, falando de Portugal, que às vezes afastam as pessoas umas das outras”, criticou.

Fazendo uso de uma frase que o Papa Francisco fez no ano passado em Fátima, “Temos uma mãe”, o arcebispo de Braga reforçou a sua mensagem em torno da paz, amor e concórdia.

“A mãe é a Nossa Senhora. Se temos uma mãe, temos de procurar viver como filhos. Ao viver como filhos, estamos a viver como irmãos, no amor, na concórdia e na paz”, concluiu.