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Queijo, vinho e festas de confinamento
Opinião Sociedade 3 min. 14.12.2021
Escândalo no Reino Unido

Queijo, vinho e festas de confinamento

Escândalo no Reino Unido

Queijo, vinho e festas de confinamento

Foto: Kirsty O'Connor/AFP
Opinião Sociedade 3 min. 14.12.2021
Escândalo no Reino Unido

Queijo, vinho e festas de confinamento

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Há episódios marcantes na História, momentos delineados de forma tão afiada que acabam por cristalizar e caracterizar os tempos em que ocorrem, os costumes da sua época, ou as relações de poder que se entrecruzam em determinada sociedade.

Na semana passada descobrimos um desses momentos, o escândalo das festas de Natal ilegais do governo conservador britânico durante Dezembro do ano passado – o mesmo mês em que se puniam com multas exorbitantes os cidadãos que não cumprissem com as pesadas regras de confinamento em vigor. Impostas, obviamente, pelo mesmo governo.

No vídeo que demonstrou a existência dessas festas aparecem dois assessores de Boris Johnson a fazer uma espécie de treino para uma possível conferência de imprensa. Um dos assessores, imitando um jornalista, pergunta com um sorriso: "Há rumores em como na sexta-feira houve uma festa de Natal ilegal na residência do primeiro-ministro em Downing Street, pode confirmar?". A assessora que responde, fazendo de porta-voz do governo, também está divertida: "Pode-se falar em queijo e vinho? [hehe] Esta festa foi uma reunião de trabalho [risada geral] e definitivamente não teve distanciamento social... [mais risos]".

Há um mundo de queijo e bom vinho para uma casta de escolhidos, e há outro mundo, feito de sobras e problemas, para os restantes 99,9%.

Nos edifícios governamentais do centro de Londres ocorreram pelo menos mais cinco festas ilegais durante aqueles dias, e no entanto, antes e depois da divulgação do vídeo, Boris Johnson continua a negar que isso tenha acontecido. Pensamos sempre que os políticos mentem com todos os dentes, e essa reputação – justa ou injusta – não está a caminho de ser limpa, mas o ultraje de ver e ouvir os membros da elite a rirem-se do facto de não cumprirem as regras que eles próprios impõem a todos os outros é algo de diferente. Descobrir que isto acontece nos corredores da Côrte enquanto lá fora, no mundo real, pessoas morrem ou são internadas devido à covid (respectivamente 514 e 2167 no dia da festa, isto só no RU), muitas delas não podendo sequer receber o carinho dos seus nas horas mais difíceis; com a educação dos mais novos em estilhaços; perante uma iminente crise de saúde mental; e sabendo que os cidadãos fazem sacrifícios pessoais numa base diária... só revela a realidade suja que todos pressentimos mas nos esforçamos para ignorar: há um mundo de queijo e bom vinho para uma casta de escolhidos, e há outro mundo, feito de sobras e problemas, para os restantes 99,9%.

Não foi sempre assim. Ou pelo menos não era TÃO assim, mas os nossos tempos são de desigualdade desenfreada, desavergonhada e completamente insustentável. Que também não parece estar a caminho de mudar – e por isso crescem as franjas de desencantados, dos que desistem de querer melhorar o sistema ou que nem sequer nele chegam a entrar.

Porque desengane-se quem pensa que este escândalo é um fenómeno tipicamente britânico: ali foi descoberta a ponta do icebergue, mas os ricos e poderosos são igualmente escarnecedores – e igualmente impunes – nas outras latitudes europeias e mundiais.

Eu disse impunes? Aqui está o grande desalento final de toda esta história. Não só Boris Johnson não se demite como também se hoje, no meio de todas as suas mentiras, ele convocasse eleições gerais, provavelmente seria reeleito. Não importa a competência, não interessa o escândalo, o único que conta é... na verdade, já nem sei bem o que conta. Acho que o melhor mesmo é esquecer, vou é comer queijo e beber vinho. Confinado e isolado (que eu não pertenço à casta e tenho de cumprir as regras).

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).


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