Escolha as suas informações

Quanto tempo o tempo tem?
Opinião Sociedade 4 min. 23.09.2021
Educação

Quanto tempo o tempo tem?

Educação

Quanto tempo o tempo tem?

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Sociedade 4 min. 23.09.2021
Educação

Quanto tempo o tempo tem?

Esta gula de atividades extracurriculares da sociedade moderna é algo a que nós, mães e pais, devemos começar a resistir sem culpas! A opinião semanal de uma psicóloga e de uma professora.

 (Alexandra Brito (professora) e Ana Barbosa (psicóloga))  

Começadas as aulas e conscientes dos novos horários das e dos pequenos, confrontamo-nos com o desfasamento entre os tempos escolares e os nossos tempos laborais. Nada de novo, portanto, mas voltamos ao quebra-cabeças de tentar garantir as diversas deslocações e transbordos, bem como a “ocupação supervisionada” sobretudo dos menores de 12 anos. 

Quem tem avós com saúde e disponíveis por perto tem uma espécie de euromilhões do mundo moderno – soluções para alguns transportes, babysitting gratuito e, mais que tudo isso, a garantia do legado entre gerações com o melhor dos amores incondicionais. Podemo-nos queixar de diferenças nas formas de atuar, dos mimos desmesurados ou das permissões inesperadas (às quais os nossos pais, na nossa altura, arregalariam os olhos… o que é que lhes aconteceu?!). Contudo, sejamos conscientes que este é um privilégio inestimável e não há melhor “estraga” do que o dos avós, porque para a parte chata de educar estamos cá nós. O tempo entre avós e netos é tempo de ouro para ambos!  

Mesmo havendo retaguarda de avós ou outros, atualmente, para pais e mães a questão não se prende apenas com o ter as crianças “guardadas”. Se assim fosse o quebra-cabeças seria, talvez, mais fácil. A questão é que queremos também proporcionar-lhes tudo o que pudermos e que possivelmente não tivemos ou gostaríamos de ter tido. Nisto inclui-se a experiência de atividades que possam ajudar a desenvolvê-los nas mais diferentes áreas - por um lado para que não se perca um potencial talento e por outro para alargar e otimizar as competências para a vida. Com toda a informação que temos disponível hoje, sabemos o quão importante é desenvolver as múltiplas dimensões e inteligências. 

A escola, de uma maneira geral, apesar das evoluções e esforços no sentido de se atualizar, ainda não responde totalmente a esta necessidade. Portanto, a tentação é grande para complementar a estimulação que imaginamos em falta. E neste sentido já todos ouvimos “influencers parentais” com sugestões do tipo panaceia para todos os males: “devias pôr a tua criança no piano porque desenvolve a concentração”; “olha, inscreve-a no Mandarim para a preparar para o mundo global”; “anda muito agitada, se calhar o melhor é ir para a yoga, para aprender a relaxar”;  “um desporto coletivo é que era bom para melhorar o espírito de equipa”, “ já pensaste no teatro, para ver se perde a timidez?”; “nos escuteiros ia aprender a ser mais solidário”... 

Realmente a oferta é enorme! Poderíamos ficar aqui a enumerar listas de atividades e as suas eventuais vantagens e encheríamos páginas com o que há atualmente disponível. Tudo aparenta ser tão importante e a pressão da performance é tão grande que parece que se não tivermos as crianças inscritas no xadrez, na música, na natação etc, etc, etc não estamos a dar-lhes o suficiente e, ou não estamos a ser bons progenitores. 

Porém, esta gula de atividades extra-curriculares da sociedade moderna é algo a que nós, mães e pais, devemos começar a resistir sem culpas! Quem tudo quer, nada desenvolve! O tempo não é elástico e dar-lhes tempo é urgente! Todas estas atividades, por mais importantes ou lúdicas que sejam, impõem sobrecarga ao horário já tão carregado dos pequenos, que, se contarmos bem, muitas vezes têm mais de 40h semanais ocupadas e dirigidas… Isto tem depois um natural impacto no cansaço e consequentemente na irritabilidade dos mais novos, para não falar na perda em termos de tempos de qualidade em casa, em família,  sem a pressão do contrarrelógio. 


Dúvidas sobre educação? Uma psicóloga e professora respondem aos leitores
Crianças com medo de ir para a escola? Como incentivá-las a fazer os trabalhos de casa? A ter rotinas? Envie-nos as suas questões, e estas serão respondidas todas as semanas por uma psicóloga e uma professora no Contacto.

Quantos pequenos hoje em dia não sabem o que fazer quando finalmente têm tempo realmente livre (e sem ecrãs) para usufruir e gerir por si próprios?! O ócio, dolce far niente, é condição imprescindível para que  a imaginação seja o limite e  brincar ainda é a melhor forma de desenvolver integralmente as crianças e garantir a sua saúde mental. Portanto, não se podendo nem devendo ter as crianças a fazer tudo, há que  fazer escolhas numa lógica de que menos, neste caso, é mais! Mas a escolha deve ser sempre deles e delas… Ensiná-los a aprender a decidir em consciência, gerindo impulsos consumistas e  angústias,  é uma competência essencial para o futuro. Antes de escolher atividades extracurriculares é importante experimentar várias, sem compromisso - normalmente isto é possível. 

Depois é importante ajudar a ter critérios para decidir - fazer lista de vantagens e desvantagens de cada atividade pode ajudar. O acompanhamento parental deste processo de decisão é essencial para ajudar à reflexão não precipitada e a que se possam conseguir equilíbrios razoáveis entre tempos de trabalho, tempos de atividade e tempos realmente livres! Equilíbrios também numa lógica de que não somos só cérebro nem somos só corpo: mente sã, corpo são! 

“O tempo perguntou ao tempo”… aprendemos esta lenga lenga sem nos demorarmos no muito que significa … o tempo só tem o tempo que tem! A nós adultos o tempo é- nos roubado por deveres e obrigações. A infância e juventude são os momentos de viver o tempo ao sabor do tempo!

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas