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Quando chegares a casa, manda mensagem
Opinião Sociedade 5 min. 17.03.2021

Quando chegares a casa, manda mensagem

Quando chegares a casa, manda mensagem

Foto: AFP
Opinião Sociedade 5 min. 17.03.2021

Quando chegares a casa, manda mensagem

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Quando regressam a casa sozinhas à noite, muitas mulheres sabem que é normal enviarem uma mensagem a avisar que chegaram. Mas há quem queira impedir as mulheres de viver no espaço público, perpetuando a cultura do medo.

A semana passada foi especialmente exemplar em misoginia. As mulheres sabem, como quando andam sozinhas à noite na rua, o que é enfrentar diariamente uma série de preconceitos, de riscos e de medos. Sobretudo contra uma cultura que as quer "proteger" e que acha que elas devem, obedientemente, "ficar em casa".

Segunda-feira: viva o 8 de Março, Dia Internacional da Mulher! Flores, maquilhagem, gestos grandiosos, como deixar a senhora passar à frente no supermercado ou no cruzamento; organizar um colóquio sobre o papel da mulher nas empresas, com painel só de homens mas com muita consciência de género. No Diário de Notícias, a directora só quis homenagear mulheres com M grande, mulheres que "lutam por fazer melhor, inovar, liderar, gerir com ética e transparência – e não as que preferem destruir ou simplesmente invejar", porque "das fracas não rezará a história, das fortes a história relatará os seus feitos" (disse no Twitter). Amamos mulheres fortes – mães, filhas, avós!

Terça-feira: mas não amamos todas as mulheres. Porque odiamos a Meghan Markle! Tantas mulheres são vítimas e há tanto estigma contra elas – gravidez, pós-parto, assédio sexual, discriminação laboral ou racial. Mas a Meghan é uma oportunista, acusando a casa real de racismo, e ainda por cima fingindo vulnerabilidade com doença mental. Como se atreve a dizer que uma das famílias com maior acumulação de riqueza (literalmente) imperial é racista?

Quarta-feira: em Inglaterra, a jovem Sarah Everard, 33 anos, que estava desaparecida há dias, é encontrada morta num bosque, a 80 km de casa. Sarah tinha ido visitar uma amiga e, ao regressar a casa, a pé e à noite, em Clapham, Londres, foi raptada. Nas imagens das câmaras de vigilância (que não a "protegeram"), aparecia a falar ao telefone com o namorado. A amiga ou o namorado talvez lhe terão dito: quando chegares a casa, manda mensagem. Não chegou. A história nunca relatará os seus feitos.

Quinta-feira: revela-se que o assassino é polícia. Quem a devia "proteger" foi afinal o predador. A misoginia continua: se calhar ela não devia andar sozinha na rua àquela hora. Se calhar a culpa é da vítima. Ainda por cima Londres está em lockdown. Três regras elementares que Sarah quebrou: ser mulher, andar sozinha à noite, violar o confinamento. Triplamente culpada.

Sexta-feira: o polícia admite o crime. As notícias continuam na voz passiva: "Mulher assassinada por polícia." E não: "Polícia assassina mulher." Redes sociais incendeiam-se porque “ela não devia estar na rua àquela hora”. E não: como é que tornamos as ruas seguras para que as mulheres possam ocupar o espaço público e exercer os seus direitos em liberdade? Como educamos os homens a respeitarem as mulheres? Inúmeras mulheres contam as suas experiências-limite, sobretudo na rua, à noite. Como se defendem. Porque sentem medo. Como educam as filhas para serem livres? Como educam os filhos para respeitar a liberdade? Continua-se a dizer que Sarah devia ter "ficado em casa". Continuamos a culpar a vítima.

Sábado: a vigília pacífica de mulheres em solidariedade com Sarah Everard é proibida porque o "estado de emergência" britânico não permite ajuntamentos, devido ao covid-19. Isto é, a lei do "estado de emergência" suspende direitos políticos, como o direito ao protesto. A vigília, primeiramente programada, é cancelada. Os organizadores recomendam que as pessoas passem no local a deixar velas e flores. Só que foram muitas, demasiadas, centenas de mulheres que se juntaram (ilegalmente) em Clapham. Mulheres triplamente culpadas que deviam ter "ficado em casa", violaram o estado de emergência, desafiaram a pandemia e as autoridades para dizer basta.

As imagens das mulheres arrastadas e presas por polícias na noite de sábado são a ponta do iceberg da mesma cultura misógina que grassa na sociedade. Afinal, os polícias que as arrastaram são os mesmos que as "deviam proteger". Afinal, a Ministra da Administração Interna e a Chefe da Polícia Metropolitana, ambas mulheres, estavam apenas a cumprir as ordens que elas mesmas escreveram, "protegendo" as mulheres do covid-19. Afinal, o homem que matou Sarah era um predador que, por coincidência, era o polícia que a "devia proteger". Nada nem ninguém "protegeu" Sarah: ela foi morta por todos estes agentes, actores principais de uma cultura de violência de género.

Sarah devia ter ficado em casa. As mulheres, depois de certa hora, nem deviam sair. Afinal, quem as "devia proteger" não o pode fazer na rua. Mas também não o faz em casa, porque grande parte da violência contra as mulheres se dá entre familiares, namorados, conhecidos: em 2020, 118 mulheres morreram vítimas de violência doméstica no Reino Unido. Em Portugal foram 32. Estas são apenas as mortas.

Um polícia não faz a corporação. Os polícias que arrastaram mulheres à força de uma vigília pacífica contra a misoginia estavam apenas a "cumprir ordens". As ordens fazem-nas os Estados. Mas os Estados não têm de "proteger" as mulheres porque elas não precisam de ser "protegidas". Têm é de fazer leis que permitam que as mulheres possam exercer os seus direitos em liberdade e garantir que esses direitos são cumpridos – como sair à rua à hora que quiserem, em segurança, sem medo. Quando as mulheres na vigília gritavam "arrest your own" (prendam os vossos) não gritavam para potenciais polícias-criminosos: mas contra a banalização da violência contra as mulheres. 

A cultura que tem pavor à "educação de género", à igualdade, e que continua a educar tanto homens como mulheres para o medo e para a ideia de que as mulheres devem ser "protegidas". A mesma cultura misógina que acha que há mulheres fortes e mulheres fracas, e que a história só inscreverá o nome das líderes e das que vingaram. Sarah Everard não vingou. E domingo foi dia da mãe.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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