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"Quando bebo não penso na fome"
Opinião Sociedade 4 min. 05.10.2022
Andamos todos ao mesmo

"Quando bebo não penso na fome"

Andamos todos ao mesmo

"Quando bebo não penso na fome"

Image d'illustration: Shutterstock
Opinião Sociedade 4 min. 05.10.2022
Andamos todos ao mesmo

"Quando bebo não penso na fome"

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Podemos olhar para o lado mas as pessoas que vivem na rua vão continuar a dormir na rua. Podemos fingir que não as vemos, mas elas continuam lá. Continuam elas e continua o nosso preconceito.

 “Você não me ignora. Não finge que eu sou invisível. E não me critica.”

Eu sorri e fui embora. Fiquei a pensar no que me disse o João enquanto me dirigia para casa, abria a porta do prédio e subia as escadas. O meu prédio cómodo, as minhas escadas cómodas, a minha casa cómoda. É fácil ficar a pensar em palavras daquelas, como se as ostentássemos em jeito de medalha por alguma coisa que fizemos ou dissemos. E é mais fácil ainda quando o nosso lado é mais cómodo do que o do outro.

Eu fiz o que tinha a fazer, disse o que tinha a dizer  Perguntei-lhe se já tinha comido mais alguma coisa naquele dia, falei do tempo, dei dois dedos de conversa. E regressei ao meu conforto. Mas o João ficou lá. Na rua. Encostado a uma parede enquanto sorvia uns goles de sopa quente servida numa malga de plástico que alguém lhe tinha oferecido. Eu fui para a minha casa – cómoda –, ele ficou na rua, a fazer tempo antes de regressar ao quarto que garante dividir com mais dois homens e uma série de baratas. “É ali ao fundo, quase a chegar ao mercado”, apontou com o queixo.

Não sei se é mesmo assim. Não acredito em tudo o que o João diz. Se calhar porque sou desconfiado ou cínico. Há coisas que ele conta que não fazem muito sentido, mas acho que é mais a vergonha pela situação em que está do que propriamente para tirar disso proveito.

O João gostava de não ter de morar naquele quarto. O João gostava de não ter vivido num centro de alojamento temporário para pessoas sem-abrigo gerido pelo Exército de Salvação. O João gostava que não lhe tivessem roubado o telemóvel no centro, gostava que não lhe tivessem roubado cigarros enquanto tomava banho, gostava de ter conseguido dormir no meio dos gemidos de outros homens pela noite dentro. O João gostava que a vida não tivesse dado as voltas que deu, gostava de não se ter agarrado ao álcool quando perdeu o emprego, gostava de ter estado mais presente para o filho ter continuado a estudar, gostava que lhe comprassem mais desenhos – é nas tintas que lhe oferecem às vezes que desagua agora o jeito que tinha para o restauro e para os trabalhos manuais que lhe deram sustento noutra vida.

O João gostava de ter tido mais sorte. Ou de ter conseguido manejar melhor a sorte que teve. “Há tanta gente pior do que eu”, contava-me uns meses antes, quando dormia em cima de umas caixas de cartão ao fundo da minha rua, depois de sair do abrigo, antes de ir para o quarto das baratas.

O João acha que eu sou boa gente porque converso com ele. Porque lhe levei comida algumas vezes. Porque sinalizei a situação com as assistentes sociais da Junta de Freguesia. Porque pergunto se está melhor da dor da perna. Porque quero saber se já comeu, se já tomou banho, se tem tomado a medicação. Mas não sou nada boa gente. Sou só um tipo banal, mais uma pessoa que regressa a um sítio cómodo onde não há baratas e consegue assim aplacar a consciência, convencido que fez alguma coisa de jeito porque não olhou para o lado.

Há umas semanas o João veio ter comigo quando me viu a estacionar o carro – o carro cómodo, estacionado na rua cómoda do bairro cómodo. Esperou que concluísse a manobra e atirou, sem aviso prévio ou anestesia, assim que fechei a porta: “Sabe porque é que eu bebo?” Eh, João, o que é lá isso? Que maneira de cumprimentar uma pessoa é essa? Ele riu-se – está com os dentes piores – e disse devagar: “Bebo porque é mais barato beber do que comer. E quando bebo não penso na fome. E eu queria que soubesse isso para não ficar a pensar mal de mim.”

Nessa noite não entrei no prédio cómodo a usar aquelas palavras como medalha. Vergonha. O que eu levava era vergonha pelos julgamentos precipitados que às vezes não consigo deixar de fazer quando vejo o João e tantos como ele, que continuamos a tratar como invisíveis. Sem lhes perguntarmos pela vida, se já comeram, se têm dores, se precisam de alguma coisa. Sem preconceito quando pedem umas moedas. Sem julgamento paternalista por acharmos que “é tudo para o vinho”. Naquela noite eu só levava vergonha.

Já não vejo o João há uns dias. Espero que esteja bem. Se calhar devia ir procurar a tal casa e o tal quarto. Para carregar um pouco menos de vergonha.

 

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