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Projeto luso-luxemburguês permite “hospital em casa” para doentes cognitivos
Sociedade 6 min. 18.11.2020

Projeto luso-luxemburguês permite “hospital em casa” para doentes cognitivos

David Benhsain, psicologo e cientista luxemburgues de visita a Lisboa.

Projeto luso-luxemburguês permite “hospital em casa” para doentes cognitivos

David Benhsain, psicologo e cientista luxemburgues de visita a Lisboa.
Foto: Diana Tinoco
Sociedade 6 min. 18.11.2020

Projeto luso-luxemburguês permite “hospital em casa” para doentes cognitivos

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Em janeiro, um grupo de 35 doentes portugueses residentes no Luxemburgo irá testar um projeto inédito desse “hospital em casa”, chamado CogniVITra, que está a ser desenvolvido em conjunto por investigadores do Luxemburgo e em Portugal.

Investigadores estão a desenvolver uma ferramenta online de treinos cognitivos personalizados para os pacientes. David Benhsain, do Luxemburgo e João Quintas, de Portugal explicam como funciona este projeto inovador.  

A pandemia trouxe medo aos doentes de se deslocarem aos centros médicos para realizarem os seus tratamentos, ou a atrasos nos tratamentos pelos próprios centros, devido à crise e à concentração de esforços e recursos humanos para as unidades de doentes covid-19. Este é um cenário que está a acontecer em Portugal e muitas partes do mundo, e que já aconteceu no Luxemburgo durante a primeira vaga.

A possibilidade dos doentes com problemas cognitivos ou demências terem um “hospital em casa”, e aí realizarem os seus treinos de estimulação cognitiva e física personalizados, sem terem de se deslocar aos centros de reabilitação, e ao mesmo tempo, manterem o contacto com o seu psicoterapeuta, nunca fez tanto sentido e urgência como agora na crise da covid-19.

Em janeiro, um grupo de 35 doentes portugueses residentes no Luxemburgo irá testar um projeto inédito desse “hospital em casa”, chamado CogniVITra, que está a ser desenvolvido em conjunto por investigadores do Luxemburgo e em Portugal, a par com Espanha.

O CogniVITra é uma plataforma interativa online com um assistente virtual destinada precisamente a doentes com sequelas cognitivas, podem realizar as suas sessões de estimulação, através de um vasto conjunto de exercícios existentes não só de treino mental, mas também de estimulação física. Os médicos e terapeutas vão acompanhando o desenrolar dos treinos à distância e mantendo o contacto com os pacientes, explica ao Contacto David Benhsain, o neuropsicólogo clínico lusodescendente, do Rehazenter, no Luxemburgo.

Numa viagem recente a Portugal, em que veio visitar os familiares, David Benhsain descreve ao Contacto a importância deste projeto “original” e onde a sua função é ser “os olhos do terapeuta” na criação do software da plataforma, nomeadamente no conteúdo dos exercícios dos treinos.

Quando o projeto foi iniciado, em fevereiro de 2019, ninguém ainda previa que uma pandemia iria afetar o mundo, mas o CogniVITra cuja conclusão está prevista para fevereiro de 2022, poderá ajudar já “na fase de testagem” de cerca de 35 doentes portugueses do Luxemburgo, pacientes que já são seguidos por David Benhsain.

O investigador português João Quintas que participa no projeto.
O investigador português João Quintas que participa no projeto.
Foto: DR

Doentes portugueses testam projeto

Ao seu consultório chegam maioritariamente doentes da comunidade portuguesa que “por terem sofrido um acidente grave, um problema de saúde sério, como AVC, enfarte do miocárdio, ou cancro, ficaram com problemas cognitivos, ou ainda pessoas que padecem de doenças neurodegenerativas como a esclerose múltipla que vão perdendo capacidades cognitivas. Todos estes doentes necessitam de psicoterapia e/ou programas de estimulação ou treino cognitivo”, refere David Benhsain. Este neuropsicólogo clínico não tem dúvidas que o projeto luso-luxemburguês e espanhol “irá poder ajudar já” nesta crise pandémica, pelo menos, em janeiro, trinta dos seus doentes.

Também o coordenador e líder técnico do CogniVITra, o investigador João Quintas, do Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, realça ao Contacto a importância desta plataforma em situações como a que se vive atualmente, embora sublinhe que o projeto “ainda está em fase experimental”: “O CogniViTra pretende ser uma ferramenta que dá uma resposta efetiva e eficaz para manter o contacto entre o profissional de saúde e o paciente à distância”. “Este projeto, entre outros aspetos, assenta no conceito de hospital em casa. Pretende-se que venha a ser uma ferramenta que possa estreitar a distância entre os profissionais de saúde e os pacientes, quando estes terminam uma sessão de reabilitação ou tratamento em ambiente clínico e regressam para sua casa. Ou, como em muitos casos da atualidade, quando os pacientes ficam impedidos de continuar os seus programas de tratamento ou reabilitação devido à saturação dos serviços de saúde. O projeto pretende tornar-se numa ferramenta que permita ter cuidados de saúde mais acessíveis, mais próximos e em maior permanência”, justifica o investigador de Coimbra.

A equipa de João Quintas está responsável pelo desenvolvimento das componentes técnicas associadas ao assistente virtual e interação homem-máquina. Essa parte do trabalho, como explica requer “conhecimentos técnico-científicos específicos e experiência na validação de tecnologia com utilizadores finais, que são ambas competências que a nossa equipa possuí. Juntamente com a Neuroinova, cobrimos todos os aspetos técnicos do projeto”. A Neuroinova é o centro português responsável pela ideia original deste projeto e um dos parceiros portugueses envolvidos.

Colaboração muito positiva

A rapidez e a continuidade dos treinos são muito importantes para estes doentes, precisa David Benhsain. “Quanto mais tempo o doente demorar a começar a estimulação cognitiva, o impacto destes treinos será menor. Por exemplo, no caso de uma pessoa que sofre um AVC, e ficou com sequelas cognitivas, é importante reeducar o mais depressa possível a sua concentração, atenção, reação, por isso este projeto é tão importante pois após a reabilitação clínica o paciente pode realizar as sessões em casa, devidamente personalizadas a cada caso e sob supervisão médica”.

Para este lusodescendente poder participar na criação de uma ferramenta tão especial como o CogniVITra traz-lhe uma dupla “felicidade”, “a de poder beneficiar os doentes que necessitam destes treinos cognitivos e estimulação física, melhorar a sua qualidade de vida, podendo fazê-lo em casa, e mantendo o contacto com os médicos, e por outro lado, estar a criar esta ferramenta em colaboração com Portugal”. “Cada vez que venho ao país onde a minha mãe nasceu, sobressai a minha costela portuguesa, e sinto-me muito bem aqui”, confessa.

Do lado português, a colaboração com o Luxemburgo é muito positiva. “O desenvolvimento de projetos com o Luxemburgo é de elevada importância. Por um lado, devido à presença de uma grande comunidade de investigadores e cidadãos portugueses permite-nos recolher impressões de pessoas que partilham origens culturais comuns, mas que por viverem numa área geográfica da Europa Central os coloca num contexto sociocultural e económico muito diferente da realidade em Portugal. Esse fator é muito importante no desenvolvimento de ferramentas tecnológicas que se querem capazes de se adaptarem a diferentes realidades”, destaca João Quintas. Por outro lado, projetos como este, são “desafiantes a nível europeu, uma vez que a multiculturalidade e assimetrias sociais requerem abordagens inovadoras para resolver problemas comuns, como neste caso, a abordagem a um problema de saúde que está fortemente associado às alterações demográficas”.

Para o cientista de Coimbra nesta pandemia, “a par com tragédia também tem havido grande capacidade de inovação”, e este “é um aspeto positivo, esta capacidade de criar ferramentas que nos permitem continuar em contacto, a descoberta e adoção de novas práticas que nos permitem continuar a realizar tarefas familiares de uma nova forma”.

Por seu turno, David Benhsain destaca “la beauté de l’humanité, é que a capacidade do ser humano se adaptar a todas as situações, mesmo as mais adversas, e isso é maravilhoso”. “Veja-se no confinamento, em que fechados em casa, mantivemos o contacto usando as ferramentas disponíveis, como as redes sociais”. Este psicoterapeuta está atualmente a realizar mais consultas por zoom, tal como os colegas do seu serviço, no Rehazenter.

“O importante é que as pessoas desabafem os seus receios e preocupações. Basta haver uma pessoa com quem falar, um bom ouvinte, se desabafarem vão sentir-se melhor”, aconselhou o neuropsicólogo. Se a ansiedade aumentar o melhor é procurar ajuda profissional, vinca David Benhsain.

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