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O que fazer para evitar os problemas no 'último andar'
Opinião Sociedade 6 min. 13.10.2021
Dicas/Educação

O que fazer para evitar os problemas no 'último andar'

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O que fazer para evitar os problemas no 'último andar'

Ilustração: Alexandra Brito
Opinião Sociedade 6 min. 13.10.2021
Dicas/Educação

O que fazer para evitar os problemas no 'último andar'

Redação
Redação
Esta é uma questão realmente assustadora: todos sabemos que se adoece do corpo, mas adoecer da mente é algo mais difícil de aceitar, porque não se vê, não se mede, é menos "controlável"…

Alexandra Brito (professora) e Ana Barbosa (psicóloga)      

No dia 10 de outubro comemorou-se o dia da Saúde Mental, o que na verdade é estranho de comemorar porque é algo que pode dar-nos muitas dores de cabeça (e para mais não é das físicas, porque senão resolvia-se bem com uma pastilha e pronto). É verdade, o último andar, o sótão, a mioleira, o que lhe queiramos chamar, são suscetíveis de ver os fusíveis fundir, de ter o tico e o teco a deixar de funcionar, de deixar de bater bem da bola e ninguém está livre de que isso lhe aconteça.

Brincadeiras linguísticas à parte, esta é uma questão realmente assustadora: todos sabemos que se adoece do corpo, mas adoecer da mente é algo mais difícil de aceitar, porque não se vê, não se mede, é menos "controlável"… e nem sempre é fácil ou rápido de diagnosticar e tratar. E claro está, como com tudo o que nos amedronta e não conseguimos compreender inteiramente, durante muito tempo fomos fugindo do assunto como o diabo da cruz, virando costas ao problema e às pessoas que com ele sofriam. 

Felizmente, atualmente é um tema que começa a ser muito falado e há uma tentativa de se lhe dar maior visibilidade e humanidade através de filmes e séries, que retratam estas realidades, mas principalmente através do testemunho generoso de pessoas, inclusivamente famosas, que têm partilhado as suas experiências com problemas mentais. Hoje, de cabeça, podemos todos e todas nomear alguém conhecido que deu a cara, reconhecendo sofrer com Depressão, Ansiedade, Anorexia, Perturbação Bipolar, Dependência de substâncias, etc, alguns deles com desfechos trágicos como o músico Kurt Cobain ou o ator Robin Williams, que nos fazem confrontar com o inexplicável - "como é possível, são realizados profissionalmente, têm famílias, têm dinheiro, têm tudo?!". 

Pois lá está, os problemas mentais não estão relacionados com o que se tem ou não de material, com ser forte ou fraco, com ter mais ou menos informação, ser-se mais ou menos inteligente, com querer ou não querer estar doente. Não é algo que se escolha, como também não se escolhe ter uma pneumonia. Acontece ficar-se doente! Às vezes há razões reconhecíveis, mas muitas vezes simplesmente não há. E neste domínio definitivamente quem vê caras não vê corações, porque o sofrimento psicológico é frequentemente bem escondido por trás de belos sorrisos e um escudo de aparências para os outros.


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Agora começa-se a falar, agora começa-se a aceitar, mas na verdade ainda só da porta para fora… está tudo muito bem e compreendemos tudo (quase tudo) quando é com os outros. Dentro de casa persiste a dificuldade em reconhecer, aceitar, compreender e lidar com problemas do foro mental, quer seja connosco próprios ou com os que nos são mais próximos: "o que é isto, de onde vem, de quem é a culpa, o que é que fizemos de mal?". Mas porque será que esta é uma área com tanto estigma, com tantas dúvidas e dificuldades?

Ora vejamos, aprendemos desde pequenos que temos que lavar os dentes e ir ao dentista, aprendemos mesmo na escola o que é saudável de comer e o que não é, quais são os comportamentos de risco para a saúde do corpo; existem planos preventivos de saúde física, com exames regulares... diríamos que mesmo que haja coisas a melhorar nestas matérias, hoje em dia o nível de informação e as redes de prevenção, diagnóstico e referenciação estão relativamente bem montadas. Já a Saúde Mental parece ser claramente ainda um dos parentes pobres das respostas de Saúde, o que não deixa de ser irónico quando sabemos que mente sã ajuda a um corpo são e vice versa, não se podendo separar um do outro. Esta é obviamente uma área em que nos temos que bater por mais e melhor investimento.

Mas enquanto isto não acontece para a sociedade em geral, pensemos naquilo que talvez possamos fazer em família para ir mantendo o sótão coletivo sem tanto pó nem teias de aranha: 

  • Antes de mais ensinar crianças a aceitar, comunicar e gerir todas as emoções, de forma socialmente adequada, mas sem as negar ou contrariar nem ensinar a "varrer para debaixo do tapete" - se uma criança está triste ou zangada ou assustada, em vez de dizer que não tem razão de ser a sua emoção (porque terá com certeza a sua razão, pessoal e intransmissível), podemos acompanhá-la na expressão dessa emoção e depois tentar ajudar a encontrar estratégias para lidar com o que está na sua origem. Mas para isso temos de primeiro dar o exemplo nós os adultos, partilhando também as nossas emoções, não apenas as boas, com conta e medida, claro está.
  • No mesmo sentido, devemos praticar e ensinar a empatia, para que aprendam a não julgar os outros e a tentar aceitar o que sentem, como sentem; isto poderá facilitar futuramente a comunicação de emoções, estados de espírito, etc.  sem receio de julgamentos à priori.
  • É importantíssimo integrar a Arte na nossa vida, sob todas as formas, encontrando a(s) que mais nos preenche(m). Quer como forma de expressão e catarse, quer como alimento para a alma, a música, a pintura, o teatro, o cinema, a dança, a literatura e tudo resto, são reconhecidas formas de darmos mais cor, entendimento e sentido à vida.
  • Devemos ter pequenos momentos diários, semanais e/ou mensais de higiene mental intencional; isto é encontrar estratégias pessoais para descomprimir - passear na natureza, aprender a fazer meditação e outras estratégias de relaxamento, fazer um desporto que nos dê prazer, começar kickboxing, sair com os amigos, o que seja, porque o descanso mental acontece melhor com descanso ativo do que apenas a dormir.
  • Dormir, ser fisicamente ativo, comer saudavelmente, cultivar o espírito e a vida afetiva.
  • No meio de todas estas estratégias nada como um pouco de humor à mistura, aprender a rir de nós próprios, brincar com ironia positiva, com os outros e connosco.

Mesmo fazendo tudo isto, infelizmente há patologias que não podemos prevenir ou evitar, pelo que é essencial estarmos gentil e empaticamente atentos aos sinais de sofrimento, nossos e dos que nos rodeiam. Mudanças nos padrões de sono, alimentação e comportamento são dos primeiros sinais a estar atentos. Em todo caso, quando perante uma situação e em dúvida é importante recorrer a profissionais especializados, que estarão lá para ajudar não apenas quem apresenta o problema, mas também a família a saber como com ele lidar.


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