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Privatize-se tudo
Opinião Sociedade 5 min. 24.02.2021

Privatize-se tudo

Privatize-se tudo

Foto: Ralph Lauer/ZUMA Wire/dpa
Opinião Sociedade 5 min. 24.02.2021

Privatize-se tudo

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Enquanto o Texas congelava, a companhia de electricidade facturou ao minuto devido à tempestade. Quem não pôde pagar, morreu (muitos, literalmente) de frio.

Há um famoso texto de José Saramago, publicado num dos seus Cadernos de Lanzarote, de meados dos anos 90, em que o Prémio Nobel da Literatura conta que, no regresso de uma viagem à Argentina e Bolívia, leu no jornal Clarín a notícia de que ia "ser apresentada no Parlamento peruano uma nova lei de turismo que contempla a possibilidade de entregar a exploração de zonas arqueológicas importantes, como Machu Picchu e a cidadela pré-incaica de Chan Chan, a empresas privadas, mediante concurso internacional. Clarín chama a isto ‘la loca carrera privatista de Fujimori’ [a louca carreira privatista de Fujimori]." E aí começava a indignação: "a mim parece-me bem", dizia Saramago, depois elencando uma série de privatizações conjugadas no modo imperativo: "Privatize-se Machu Picchu, privatize-se Chan Chan, privatize-se a Capela Sistina, privatize-se o Pártenon."

Se nesse momento parecia "cómica" a lista de privatizações por sugestão de Saramago – o pintor Nuno Gonçalves, a catedral de Chartres, o Descimento da Cruz, o Pórtico da Glória de Santiago de Compostela, ou até a Cordilheira dos Andes – hoje esse texto pode ser lido como de um visionário. Sobretudo porque grande parte dessa lista já foi privatizada, concessionada ou de acesso limitado a quem puder pagar.

Há uns meses falava aqui sobre a cotização da água como commodity (bem transacionável) na bolsa de Wall Street. A par da escassez de água em vários pontos do planeta, dizem os investidores, vem também oportunidade de investir em água, seja em empresas de distribuição ou tratamento. Não surpreende, por isso, a informação recente da DECO de que, em Portugal, os municípios que têm gestão privada da água continuam a ter os tarifários mais caros do país: Santo Tirso, Trofa e Vila do Conde. Em Agosto, a Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (Ersar) revelava ao Jornal de Notícias que o custo da água fornecida pelas empresas privadas chega a ser seis vezes maior do que a água sob gestão municipal.

Já dizia Saramago: "Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa." E a nuvem que passou pelo Texas foi uma das maiores tempestades de neve de que há memória, num estado normalmente associado às suas altíssimas temperaturas desérticas no Verão. Como fez muito frio, milhões de texanos ligaram o aquecimento central. Isso exigiu que as centrais de produção eléctrica aumentassem a sua capacidade.

O jornal Texas Tribune explicava que há três grandes redes de electricidade nos EUA continental: a ligação do Leste, a ligação do Oeste, e o Texas. A rede eléctrica do Estado do Texas nunca se quis ligar ao resto do país porque ao fazê-lo ficaria sob regulação do Sistema de Reserva Federal. Em 1935, o Presidente Roosevelt assinou a Lei da Electricidade Federal que incumbia a Comissão Federal de supervisionar os valores da electricidade. E o Texas tornou-se uma ilha dentro dos EUA.

Dois fenómenos aparentemente contraditórios, mas absolutamente decorrentes da lógica do capitalismo selvagem aconteceram no Texas: com a falta de supervisão e de investimento na infraestrutura, as centrais nunca se prepararam para temperaturas extremas e não conseguiram responder à procura. Seleccionaram então que texanos ficariam sem aquecimento e os que poderiam ainda beneficiar. Só desligando parte do sistema poderiam salvar a rede de colapsar na totalidade. 

Bairros pobres e de trabalhadores negros e latinos ficaram a gelar. Bairros ricos continuaram ligados. Uns morreram (muitos, literalmente) de frio. Outros, com aquecimento, receberam contas astronómicas, porque os preços estão "regulados" segundo a lei da oferta e da procura: quando a procura aumenta e a oferta diminui, congelamos perante a conta da luz. Um veterano de guerra residente em Dallas contou ao New York Times que recebeu 16,000 dólares em contas, o equivalente a todas as suas poupanças. Em contrapartida, o Senador Ted Cruz não aguentou de frio e fez melhor: voou para Cancún onde podia tomar tequila sunrise sob confortáveis 30 graus. No Texas discute-se agora se o Estado deverá pagar as elevadas contas de aquecimento.

Ironicamente, o Texas é um território rico e autónomo em recursos naturais – carvão, gás e petróleo – que fornecem as suas próprias centrais eléctricas. No início de 2021, foi considerada a 9ª economia do mundo (com um PIB de 1,9 biliões), ligeiramente abaixo da Itália e acima do Brasil. Mas, como escrevia Robert Reich no Guardian, antigo Secretário de Estado do Trabalho nas presidências Ford e Carter, há muito tempo que o Texas representa o "individualismo wild west que põe a liberdade pessoal – e esta semana, a liberdade para congelar – acima de tudo", acusando o Estado, os seus responsáveis e a empresa de electricidade de "Darwinismo social".

Dizia Saramago, então, em jeito de remate: "Privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional." Em alguns casos, como no Texas, já é assim. Sem concurso. Noutros, estamos muito perto. Só não digo como acaba o texto de Saramago, porque é com um palavrão. Recomendo aos leitores que, se não o conhecem, o procurem no Google e o leiam bem alto.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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