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Portugueses são os mais mal pagos da capital
Sociedade 6 min. 14.11.2022
Novo estudo

Portugueses são os mais mal pagos da capital

A Gare é um dos bairros onde residem mais portugueses.
Novo estudo

Portugueses são os mais mal pagos da capital

A Gare é um dos bairros onde residem mais portugueses.
Foto: AGAP
Sociedade 6 min. 14.11.2022
Novo estudo

Portugueses são os mais mal pagos da capital

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Os residentes portugueses da capital estão entre os mais desfavorecidos em matéria de salários, com a média a não chegar aos 2 mil euros. Os alemães, os mais bem pagos ganham acima de 8 mil euros por mês. Retrato da comunidade lusa na capital.

A seguir aos 21.199 residentes franceses, os portugueses são a maior nacionalidade estrangeira que reside na capital do Luxemburgo. Ao todo, são 12 700, segundo as estatísticas oficiais de dezembro de 2021, publicadas pelo município. O mesmo é dizer que o idioma de Camões é a língua estrangeira mais falada na capital do país. Nesta cidade, onde residem 126.790 habitantes, mais de 70% da população (90.715 pessoas) é de nacionalidade estrangeira.

O Luxemburgo é uma cidade rica e cosmopolita, multicultural, que oferece salários mais elevados do que a média europeia e atrai gente de todo o mundo. No entanto, esconde grandes desigualdades sociais com a comunidade portuguesa a pertencer aos mais desfavorecidos, como revela o primeiro relatório social da cidade do Luxemburgo, realizado pelo instituto luxemburguês de investigação sócio-económica (Liser) a pedido do Observatório Social do município.

Embora a praça financeira seja o setor que emprega mais portugueses, no geral  os residentes portugueses da capital auferem os salários mais baixos, residindo sobretudo nos bairros da Gare e em Bonnevoie-Sud, onde o arrendamento é mais barato, mas que são os locais mais mal-amados, especialmente a zona à estação central, por serem os mais violentos e onde acontecem mais roubos. 

No entanto, estes continuam a ser os bairros eleitos da capital pelos recém-chegados de Portugal, mas também de onde saem mais portugueses, sobretudo para outras comunas do país. Este é o retrato da comunidade portuguesa na capital.

Salários mais baixos

A nível salarial, os portugueses são os que possuem os salários mais baixos na capital. O ordenado médio da cidade é de 5617 euros mensais (dados de 2021) e, enquanto os alemães auferem salários acima dos 8 mil euros, os mais elevados, os portugueses recebem, em média, 1871 euros, os mais baixos entre todos os trabalhadores. Nos setores dos transportes e armazenagem e nas limpezas, que lideram os setores onde trabalhaa maioria da comunidade portuguesa, os portugueses chegam a receber 889 euros e 501 euros, por mês, respetivamente, como revela o relatório.

Há exceções. Os trabalhadores portugueses que recebem os salários mais elevados são os do setor do ensino, com ordenados de 4455 euros, mesmo assim abaixo do salário médio do setor estipulado em 5165 euros. Seguem-se os portugueses com emprego no setor da produção e distribuição de gás, eletricidade e ar condicionado, que auferem 4401 euros, mas também aqui o salário médio é mais elevado, 6566 euros por mês.


Existem disparidades significativas de rendimentos entre os diferentes distritos da capital.
Mais de 11 mil pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza na Cidade do Luxemburgo
Quer se trate de habitação, salários ou educação, os habitantes da capital do Luxemburgo enfrentam muitas disparidades, de acordo com o primeiro relatório social sobre o município.

Ainda assim, o ordenado dos portugueses nestes setores mais bem pagos é metade dos salários dos alemães. Os belgas e franceses são os residentes com salários médios mais elevados, a seguir aos alemães, encontrando-se os luxemburgueses na quarta posição.

A praça financeira e o setor dos seguros absorve grande parte dos trabalhadores das mais destacadas nacionalidades, entre elas a portuguesa, com 3600 trabalhadores lusos no total dos 5659 empregados na capital. Os serviços administrativos e de apoio (853 trabalhadores) e os do setor do transporte e armazenamento (363) são os que empregam mais trabalhadores portugueses, enquanto os franceses e não europeus ocupam lugares ligados a atividades especializadas e científicas e técnicas.

Se 90% dos trabalhadores da capital possuem contratos de trabalho permanentes, os portugueses são a nacionalidade com mais contratos temporários e frágeis, indica o relatório social do Liser.

A viver na pobreza

De salientar que 22% dos residentes trabalhadores da capital, 11 243 pessoas, vivem abaixo do limiar da pobreza, ou seja, com 1942 euros por mês, ou um valor inferior. A Gare e Bonnevoie-Sud são os bairros onde se concentram estes trabalhadores mais pobres e são igualmente os bairros onde residem mais portugueses.

“O salário médio destas 11 243 pessoas que vivem abaixo do limiar da pobreza é de apenas de 705 euros mensais (independentemente do tipo de contrato), enquanto o das pessoas que vivem acima do limiar da pobreza é 10 vezes mais elevado, equivalente a 7 029 euros por mês”, lê-se no relatório social da capital.

A média dos salários dos portugueses é de 1870 euros. Os alemães ganham acima de 8 mil euros por mês.
A média dos salários dos portugueses é de 1870 euros. Os alemães ganham acima de 8 mil euros por mês.
Foto: AGAP

Com mais apoios sociais

Entre os trabalhadores que beneficiam do Revis, os luxemburgueses surgem em primeiro lugar, seguidos dos não europeus e dos portugueses, estes últimos representam 7% do total da população ativa da comunidade lusa na capital. O relatório frisa que são raros os belgas e alemães que procuram esta ajuda.

 Também em relação ao subsídio de vida cara, a ordem das nacionalidades dos beneficiários é a mesma, 30% são luxemburgueses, 25% são pessoas com nacionalidades extra-europeias e 25% são portugueses.

“Estes números em relação à população ativa total do grupo de nacionalidade indicam que 15,3% dos portugueses em idade ativa residentes na cidade do Luxemburgo beneficiam deste subsídio o que constitui uma percentagem bastante elevada”, destaca o relatório.

Os portugueses encontram-se também entre as três nacionalidades que mais procuraram as ajudas do Office Social, depois dos luxemburgueses e antes dos franceses. De acordo com o relatório, o principal rendimento destes beneficiários é o salário, sendo as alocações familiares e o Revis, as fontes secundárias do montante que dispõem mensalmente.


Bonnevoie, Gare, Mühlenbach e Neudorf são bairros de trabalhadores pobres
Um em cada cinco trabalhadores residentes na capital vive abaixo do limiar de pobreza.

Onde vivem os portugueses?

A comunidade lusa da capital concentra-se nos bairros da Gare, Bonnevoie-Sud, Gasperich e Hollerich. Já os alemães vivem principalmente em Limpertsberg e em Belair. Os franceses e residentes não europeus dividem-se pelos bairros dos portugueses, na Gare e Bonnevoie-Sud e dos alemães.

Em 2020, a capital acolheu 16 031 novos residentes, continuando a ser uma cidade muito atrativa sobretudo devido à praça financeira. A grande maioria das pessoas (11706) chegou do estrangeiro, sendo a maior parte de nacionalidades europeias. Uma pessoa em cada seis chegou da União Europeia, com destque para França. Os 1.841 recém-chegados luxemburgueses (que migraram de outras localidades do país) e os 1.804 portugueses surgem em terceiro lugar nos novos habitantes. 

Uma em cada dez pessoas recém-chegadas à capital é luxemburguesa ou portuguesa. A Gare e Bonnevoie-Sud foram os bairros eleitos pelos novos imigrantes portugueses para se fixarem.

Anualmente, também há quem deixe a capital para ir morar para outra comuna do Luxemburgo ou regressar ao país natal. Os portugueses foram a quinta nacionalidade que trocou a capital por outro local de residência e destes, 60% mudaram-se para outras comunas do país, sobretudo por razões ligadas à habitação: ou porque compraram casa, ou porque se mudaram para um apartamento maior, ou decidiram ir residir para o campo, ou para ficarem mais próximos do local de trabalho, como refere o relatório sublinhando que o bairro Bonnevoie-Sud foi o que viu mais portugueses partir para outras localidades.

Quem mais deixou a capital foram os residentes de fora da Europa, seguidos de pessoas de vários países da União Europeia.

Insegurança cresce

Por ser considerada uma cidade rica e de classe média, a capital é também um lugar cada vez mais inseguro, onde os assaltos têm aumentado nos últimos anos. Em média, são reportados três assaltos por dia, entre os realizados ou tentados, de acordo com os dados de 2020. 

Um em cada três roubos são realizados com sucesso. Olhando para a população total, decorrem 7,9 assaltos (consumados ou tentados) por cada 1000 habitantes, indica o relatório que faz a comparação com os roubos da grande Paris, onde decorrem 9,3 assaltos por mil habitantes, uma comparação que preocupa.

A Gare e Bonnevoie-Sud onde reside a maior parte dos portugueses, são os bairros com mais queixas de roubos sendo que a Gare é igualmente o lugar mais violento. De salientar que Bonnevoie-Sud é o local mais populoso seguido de Belair, da Gare e de Limpertsberg.  

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Afinal o número de portugueses que vivem no Luxemburgo é superior ao indicador revelado publicamente pelo Instituto Nacional de Estatística (STATEC). Tudo porque há 16 mil portugueses que têm também a nacionalidade luxemburguesa e não são contabilizados no número de cidadãos portugueses.
Publicados no âmbito do 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, os dados do gabinete luxemburguês de estatísticas (Statec) revelam que sete em cada 10 portugueses residentes no Grão-Ducado nasceram em Portugal (69,4%).