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Portugueses no Luxemburgo são os mais indecisos em regressar
Sociedade 6 min. 30.11.2022
Emigração

Portugueses no Luxemburgo são os mais indecisos em regressar

Liliana Azevedo, investigadora do CIES/ISCTE-IUL.
Emigração

Portugueses no Luxemburgo são os mais indecisos em regressar

Liliana Azevedo, investigadora do CIES/ISCTE-IUL.
Foto: Rodrigo Cabrita
Sociedade 6 min. 30.11.2022
Emigração

Portugueses no Luxemburgo são os mais indecisos em regressar

Madalena QUEIRÓS
Madalena QUEIRÓS
Estudo sobre nova vaga de migrantes que deixou Portugal depois de 2000 revela que são os que vivem na Suíça os que mais querem regressar à terra natal. O Luxemburgo surge em segundo lugar no 'top' dos que mais desejam voltar.

Saudades e vontade de estar com a família, por um lado, clima e o ambiente social e cultural do país de acolhimento, por outro, são estes os fatores que motivam os emigrantes portugueses a querer voltar a Portugal.

Quase um em cada dois (45,5%) migrantes portugueses inquiridos que vive no Grão-Ducado quer voltar à sua terra natal. Os dados são revelados no estudo Intenções de Regressos da Nova Migração Portuguesa. Mas se olharmos para as comunidades de novos migrantes que vivem na Suíça, França e Reino Unido, são os suíços que mais manifestam vontade de regressar ao país de origem.

“O inquérito online realizado a portugueses/as emigrados/as após o ano de 2000 mostra que ao comparar com o Luxemburgo, a França, e o Reino Unido, é na Suíça que se encontram as intenções de regressar mais elevadas, acima dos 50% dos respondentes aos inquérito”, revela ao Contacto Liliana Azevedo, uma das investigadoras da equipa que realizou este estudo. 

O Luxemburgo surge no segundo lugar da lista dos que mais querem regressar com uma percentagem de 45,5%, seguido de França com 45,4%. É no Reino Unido que os migrantes têm menos vontade de voltar, com apenas 39% a manifestarem a intenção de o fazer.

E quando regressar? É no Luxemburgo que se encontram os portugueses que querem ficar mais tempo no país de acolhimento. “Um dos aspetos a realçar na comparação entre os países é o facto do Luxemburgo ser o país em que as intenções de regresso são mais dilatadas no tempo”, sublinha a investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Iscte-IUL. 

Um em cada três migrantes portugueses no Grão-Ducado manifesta a intenção de regressar só depois de 2025.

Mas os dados do Luxemburgo "são bastante semelhantes aos da Suíça em termos de tendências”, acrescenta. Neste dois países “ as pessoas dizem estar globalmente satisfeitas em termos de emprego, benefícios sociais, sistema de saúde e vida em geral”, diz Liliana Azevedo. 

Já os fatores que causam mais insatisfação são “o clima e a vida cultural e social do país onde residem”. Também as razões apontadas para motivar o regresso “são semelhantes, no caso da Suíça e dos restantes países, e prendem-se com questões essencialmente de ordem afetiva (família, estilo de vida e clima)", descreve uma das autoras deste estudo.

Os mais indecisos vivem no Luxemburgo

Outro dado relevante deste estudo “é a percentagem elevada de pessoas indecisas relativamente a ficar no país da residência ou regressar a Portugal, quase um terço dos inquiridos em todos os países”, sublinha a investigadora do CIES/Iscte. Os mais indecisos são os que vivem no Luxemburgo (29%), seguindo-se a comunidade do Reino Unido (28,8%), a da Suíça (27,5%). No fim da lista estão os portugueses que vivem em França (26,6%).

Outra diferença em relação aos migrantes na Suíça, é que são os únicos que "manifestam vontade de iniciar um negócio em Portugal após regressarem”, sublinha a investigadora.

O retrato dos migrantes que vão viver para a Suíça nos últimos anos revela uma comunidade mais qualificada, apesar de uma ampla maioria da comunidade a viver naquele país ter apenas o ensino obrigatório. Os estudos mostram que a população mais qualificada tende a manifestar uma intenção de “prolongar mais a sua estadia pela forma como se integram no mercado de trabalho”, revela Liliana Azevedo. 

Mas a elevada percentagem que, neste inquérito, declarou que pretende regressar, pode estar relacionada com o facto de estarem no país há pouco tempo. “Sabemos que a possibilidade de regressar é maior nos primeiros cinco a dez anos, porque as pessoas não estão ainda muito integradas, não conhecem bem língua local nem o sistema político do país de acolhimento e ainda têm redes sociais fracas localmente”, refere. 

Os indicadores estatísticos revelam que houve uma duplicação do número de portugueses que abandonaram a Suíça: passando de menos de cinco mil, em 2013, para mais de 10 mil por ano, em 2018. Um fenómeno que é explicado por uma “conjugação de fatores: por um lado as pessoas que fazem parte da comunidade de emigrantes mais antiga, que chegaram à Suíça nos finais dos anos 1970 e na década de 1980, estão a atingir a idade da reforma, fase em que optam por regressar a Portugal; estes regressos representam uma proporção crescente dos fluxos da Suíça para Portugal; por outro lado também regressam muitas pessoas que chegaram ao país, na última década e que não desenvolveram ainda laços muito fortes com o país, mas também pessoas que se situam numa situação profissional e legal precária”, diz. 

O facto de a Suíça estar a “dar sinais, em termos políticos e sociais de querer restringir a emigração” é outro dos fatores que explicam esta tendência. Exemplos disso mesmo são o referendo em que a população se manifestou contra a imigração massiva, em 2014, e o fato da legislação sobre a naturalização se ter tornado mais exigente no país nos últimos anos.

Por outro lado, o fato de Portugal ter estado a dar sinais positivos em termos de crescimento económico também contribui para que mais queiram regressar ao país de origem, sobretudo os que não sentem ainda plenamente integrados nos respetivos países de acolhimento.

Emprego e progressão na carreira são fatores para ficar

O fator económico continua a ser a principal motivação para a emigração. “Muitas das pessoas que saíram de Portugal nos últimos anos fizeram-no porque estavam desempregadas, tinham baixos salários, ou não viam oportunidades de progredir na carreira”, sublinha Liliana Azevedo. Há também quem emigre para se juntar a familiares que vivem noutros países.

Depois de migrarem o fator económico também determina a permanência no país de acolhimento. Enquanto “o emprego e a progressão na carreira estejam assegurados, acabam por ir ficando”, sublinha Liliana Azevedo.

Os indicadores relativos à comunidade residente na Suíça foram apresentados na Conferência “Intenções de Regresso da Nova Migração Portuguesa para a Suíça; Desafios e oportunidades que se enquadra no projeto de investigação “Expectations of return of new portuguese emigrants living in Switzerland”, que se realizou no âmbito de um financiamento Seed Money for joint swiss-portuguese academic projects, uma iniciativa conjunta do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos e da University of Aplied Sciencies Western Switzerland. 

O projeto teve a dupla coordenação da Haute Ecole de Travail Social de Genève e do Instituto Politécnico de Leiria e foi realizada em parceria com o Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Iscte-IUL e o pólo de investigação nccr - on the move da Universidade de Neuchâtel. Toda a investigação surgiu no quadro de uma pesquisa mais ampla sobre as expetativas e experiências de regresso de migrantes portugueses no Reino Unido, Suíça, França e Luxemburgo, coordenada por José Carlos Marques do Instituto Politécnico de Leiria e que foi financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.

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