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Português Suave
Opinião Sociedade 5 min. 22.04.2021

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Foto: Pixabay
Opinião Sociedade 5 min. 22.04.2021

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Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
Ele nunca tocou nas filhas, nem num fio de cabelo, senhor guarda. Houve aquela vez da cadeira. Mobiliário pesado em ferro. Um acidente. Ficou com um travessão no pé esquerdo, talvez precisasse de levar pontos, cicatriz de tom rosado ao sol, já mal se vê.

Ele nunca tocou nas filhas, nem num fio de cabelo, senhor guarda. Houve aquela vez da cadeira. Mobiliário pesado em ferro. Um acidente. Ficou com um travessão no pé esquerdo, talvez precisasse de levar pontos, cicatriz de tom rosado ao sol, já mal se vê. E ela tão boa nos diálogos: um travessão à superfície da pele faz falta para lhe apontar a impertinência da argumentação. A pele a indicar o sentido das palavras ao coração, senhor guarda. Uma gramática de afetos. E a mão, a manápula dele, numa aproximação à pista, que nunca aterrava, essa é a verdade, nunca aterrava, abria - no máximo - um túnel de vento, sacudia-lhe os cabelos para a frente dos olhos, mechas humedecidas num orvalho de lágrimas. E é isto. Ele nunca tocou num fio de cabelo das filhas. Ninguém pode ser acusado por trabalhar bem o suspense da agressão. Há tipos que ganham prémios em Hollywood por menos. Quantos esgotam o efeito dramático num gesto irrefletido? Quantos conseguem manter o equilíbrio do fio de prumo do terror anos corridos?

E diga-me você, senhor guarda, o que faria se lhe crescessem duas rosas num canteiro de enxovia? Olhe em volta. Linha de Sintra, anos 90: marquises fechadas sem autorização camarária, gordas em roupa interior a fumar à janela com filhos do descuido ao colo, cheiro a doença, a sífilis apanhada no Ultramar, suor de transportes públicos, comida embalada trazida para casa em sacos de papel, frango assado em frente à televisão a ver o Carlos Cruz, a Bota Botilde, a conferir os números da Casa Cheia e aquele concurso em que eles se enfiavam todos num twingo. Quatro canais e uma hipoteca, o carro que só dá problemas. Mas temos carro, senhor guarda.

O que um pai pode dizer a duas filhas bonitas que crescem num ambiente destes? Se te apanho a fumar, mato-te. Pois, está claro. O que é que um homem no seu juízo perfeito, que já viu muita coisa, que já matou pretos na Guiné com a coronha de metralhadoras pode dizer a duas flores que desabrocham de formas e de púbis e de ancas e de mamas num matagal de gandulos e de drogados e de violadores e de funcionários públicos a arrastarem os pés? Se te apanho com um preto, mato-te. Pois, está claro. E a ele esmago-lhe o crânio. Pois, está claro. É o que resta a um homem que trabalha, dizer coisas destas: garanto que te mato se levas essa saia, se te pintas desse jeito, se não apareces em casa antes das dez da noite. Ele nunca lhes tocou num fio de cabelo, senhor guarda. É o que resta a um homem, dizer estas coisas. Dizer estas coisas e a calibre 25, encostada ao tórax em vez do coração, por baixo do casaco de couro. Está a ver onde fica? No lugar do coração, uma semiautomática encaixada no coldre do peito onde, em outros tempos, houve sangue a ser bombeado, balas de açúcar e corantes, um sonho escondido, talvez.

Em miúdas não lhe largavam as cavalitas; o pior é que crescem e vem o medo. Nem tinham grandes mamas, mas tinham atitude, uma cara a rebentar de sardas, formas vincadas, um jeito de andar que punha os tipos do café, agarrados ao cigarro e ao subsídio de desemprego, a pensar em agarrar a pila quando elas passavam para as compras, para a escola, para a catequese. O que é que um homem que já viu muito, já viveu muito, um homem que já matou animais - porque aquilo não era gente - no mato, faz nestes casos, senhor guarda? 

Arranja uma arma, claro está, ou várias, senhor guarda, porque aquela anedota da caçadeira atrás da porta para pai recente de meninas só tem graça para os que não as veem crescer, ter formas, e as podem guardar o tempo todo. Arranjar uma arma, senhor guarda, mostrá-la amiúde pelo bairro, sacá-la ao balcão ao terceiro café traçado a aguardente, apontar à cara do primeiro engraçado que se atreva, que se atreva, senhor guarda, a elogiar-lhe as filhas. O que mais um homem que trabalha pode fazer, senhor guarda? Isto e mantê-las trancadas em casa. Isto e mantê-las fechadas no quarto. 

Isto e correr os estores, afastar o mundo e deixar duas gretas de luz para que entre Kafka e Camus e Joyce e Calvino e Borges e uma revista de adolescentes, com posters do Brad Pitt, escondida no fundo da mochila. Isto e dizer-lhes que, enquanto for ele a pagar as contas, é ele quem manda. Não houve melhor coisa que lhes pudesse dizer, senhor guarda. É isto que um homem pode fazer senhor guarda, sem lhes tocar, nem num fio de cabelo, erguendo as grades mais fortes do medo. Até que, senhor guarda, ele deixa de pagar as contas e de mandar.

Nenhuma família é perfeita, senhor guarda. Ele nunca tocou nas filhas. Consola-me saber que as eduquei bem porque uma pessoa vai para velha. E, num lar ou no diabo, elas vão saber cuidar do pai como ele soube cuidar delas: deixar-lhe a arma sobre a cabeceira a bordejar-lhe as têmporas e duas gretas de luz nos estores para que não se confunda no escuro a mão trémula do torturador.

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