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Português cria uma nova plataforma mundial de médias alternativos
Sociedade 6 min. 13.11.2020 Do nosso arquivo online

Português cria uma nova plataforma mundial de médias alternativos

Português cria uma nova plataforma mundial de médias alternativos

Foto: DR
Sociedade 6 min. 13.11.2020 Do nosso arquivo online

Português cria uma nova plataforma mundial de médias alternativos

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Foi produtor de música e espetáculos, consumidor de informação insatisfeito. Passou os últimos anos a criar uma ferramenta de jornalismo digital que permita os repórteres e fotógrafos criarem uma informação alternativa mais fiável e viverem do seu trabalho. O seu nome é João Nuno Martins e é o criador do Frontfilles.

O que é o frontfilles?

O Frontfiles é o espaço onde os fotógrafos, ilustradores e videógrafos editoriais colocam os seus portfólios online e o seu trabalho fica imediatamente disponível para venda pelo preço e nas condições que cada um define. Pela primeira vez os produtores de conteúdos editoriais têm ferramentas que lhes permite gerir o seu trabalho com total autonomia, independência e controlo. O Frontfiles é a primeira plataforma global e aberta que conecta produtores de imagem editorial (fotografia, vídeo e ilustração) e compradores de imagem editorial. Os compradores de conteúdo, por seu lado, encontram no Frontfiles um arquivo de imagens produzidas no Mundo inteiro, disponibilizadas para distribuição quase em tempo real e podem comprá-las diretamente a quem as produz sem necessidade de intermediários e com todas as questões burocráticas, legais e fiscais resolvidas num clique.

O Frontfiles oferece também ferramentas de trabalho colaborativo que estimulam a partilha de recursos, informação e trabalho entre os utilizadores. Em breve novas funcionalidades serão lançadas, como a contratação remota para trabalhos específicos (assignments) e a venda de fotografias impressas.

Bolívia Eleições
Bolívia Eleições
Christian Braga/Frontfiles

Como surgiu a ideia?

A ideia surgiu do meu contacto próximo com o coletivo de média independente brasileiro Mídia Ninja. Tive a oportunidade de levar a Portugal alguns membros do coletivo e organizar vários encontros com jornalistas e cidadãos interessados nos meios de comunicação social independentes como alternativa à velha média. No meio destas experiências e aprendizagens fui-me dando conta de que existia um vazio no mercado das imagens editoriais que assenta fundamentalmente em meia dúzia de mega empresas, agências corporativas que detêm o monopólio da distribuição de imagens jornalísticas. Percebi a certa altura que os fotógrafos e restantes produtores de conteúdo não dispunham de uma forma simples, rápida e justa para vender o seu trabalho. Permaneciam reféns de agências gigantes nas quais é difícil ingressar e que lhes cobram entre 50% e 80% do preço de venda do seu trabalho, como comissão. O Frontfiles cobra apenas 17% do preço de venda do trabalho. A partir desta ideia iniciei um estudo profundo do mercado e das reais necessidades dos vendedores e dos compradores de conteúdos, e desenvolvi todas as ferramentas necessárias.

Plebiscito no Chile
Plebiscito no Chile
Juan Hoppe/Fronfiles

Quanto tempo e quanto dinheiro demorou a chegar até aqui?

A ideia surgiu no final de 2016 e a partir daí dediquei-me a tempo inteiro ao projeto de construir a plataforma e desenvolver todas as funcionalidades. Usei recursos próprios para o arranque e desenvolvimento dos primeiros protótipos até que em 2019 recebemos um sistema de incentivo da União Europeia que nos permitiu desenvolver a primeira versão beta e realizar todos os testes e validações. Recentemente vimos aprovado um outro sistema de incentivo com foco na internacionalização o que nos vai permitir aumentar a escala do negócio e alargar a nossa equipa espalhada pelo Mundo.

O seu percurso profissional é na produção, como foi parar à informação?

O meu percurso profissional tem sido, de facto, a produção. Produzir é tornar real uma ideia. Imaginar, projectar e realizar. Isto só se pode fazer com paixão, não é? Apaixonamo-nos por uma ideia e não descansamos enquanto ela não se concretiza. A minha paixão pela informação e pelo bom jornalismo é antiga. Talvez estivesse apenas à espera de uma oportunidade para me lançar de cabeça nesta área.

Fogo no Pantanal
Fogo no Pantanal
Christian Braga/Frontfiles

Por que é que vive no Brasil?

Eu descobri o Brasil há 18 anos, na transição entre FHC (Fernando Henrique Cardoso) e Lula. Era um país cheio de esperança e a vontade de mudança era muito forte. Foi arrebatador para mim. Logo ali decidi que o Rio de Janeiro era a cidade mais bonita do Mundo e que viver entre o Rio e Lisboa era a vida mais fantástica que eu poderia ter. Felizmente o meu trabalho permitiu que passasse todos estes anos entre as duas cidades. Assim fui desenvolvendo um círculo de amizades que passaram a ter uma importância estrutural na minha vida. Com todas as contradições, injustiças e desigualdades continua a ser um país maravilhoso com um povo extraordinário.

Como pode um projeto destes contribuir para uma melhor informação?

A democratização da informação é fundamental. Não apenas em termos de quem recebe a informação mas também em termos de quem a produz. A centralização corporativa do mercado das imagens informativas é um entrave a esta democratização no sentido em que existe uma homogeneidade e uma uniformização das imagens distribuídas pelos grande grupos editoriais. Esta uniformidade reflete-se no aspeto estético do material distribuído, mas também das histórias que são contadas. Numa época em que a disputa narrativa nunca foi tão intensa, é urgente que se incluam também na agenda informativa vozes que não têm sido escutadas. As vozes periféricas ignoradas pela informação dos grandes centros. Quando falo em periferia refiro-me às margens financeiras, culturais e mesmo geográficas que mantém alimentam o chamado mundo ocidental mas que são ignoradas por ele. Por outro lado o acesso direto às pessoas que estão presentes nos locais em que as coisas acontecem(os fotógrafos, por exemplo) permite confirmar informações, tirar dúvidas e mesmo aceder a outras fontes indicadas por eles. A inteligência da comunidade no Frontfiles também contribui para identificar informações incorretas ou falsas e corrigi-las.

Como participar no projeto e como aceder às fotos e reportagens?

Basta entrar em www.frontfiles.com e efectuar o registo. A plataforma é aberta e totalmente gratuita.

Eleições dos EUA
Eleições dos EUA
Thiago Dezan/Frontfiles

Como vê a situação no Brasil e no mundo?

Tem-se falado muito do fortalecimento da extrema direita no Mundo. O Brasil não é excepção. Depois de mais de uma década de crescimento e melhoria das condições de vida dos cidadãos proporcionado pelos governos de Lula e Dilma, o Brasil vive uma crise muito séria e o crescimento de um culto da ignorância e do ódio. Neste momento cresce a narrativa de que a ciência é uma farsa, o conhecimento é uma tolice, ser educado e gentil é horrível, e que bom mesmo é ser inculto, ignorante violento e tosco. É muito preocupante porque as vítimas deste tipo de discurso e acção são as mesmas de sempre. Os pobres, os negros, as mulheres, os homossexuais, os transexuais, os religiosos de matriz africana, etc. Está em curso um genocídio do povo pobre e negro nas periferias das grandes cidades, em especial nas favelas do Rio de Janeiro onde as forças do estado entram com armas de guerra disparando a esmo com a desculpa da guerra contra as drogas. A guerra é contra a população pobre e preta. Costumam dizer por aqui que as balas perdidas nunca se enganam na cor dos corpos que atravessam. Depois há questão ambiental que é dramática e coloca em risco a possibilidade de vida num futuro próximo. Em suma, vejo a situação do Brasil e do Mundo com muita preocupação e considero urgente que medidas sejam tomadas e políticas igualitárias e de defesa das pessoas sejam implementadas.

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