Escolha as suas informações

Guerras culturais e memória do império
Opinião Sociedade 4 min. 14.07.2021
Portugal

Guerras culturais e memória do império

Portugal

Guerras culturais e memória do império

Opinião Sociedade 4 min. 14.07.2021
Portugal

Guerras culturais e memória do império

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Só o exercício da história analítica, fundada em problemas, nos pode libertar do peso das memórias parciais, construídas com base em antagonismos banalizados, em que nos querem à força encerrar.

Em Portugal, as guerras culturais giram, quase sempre, em torno do passado. Da polémica em torno do milagre de Ourique, de meados do século XIX, em que Alexandre Herculano se envolveu, ao elenco das causas históricas da decadência, feito por Antero de Quental, ou aos ataques ao “sangue crasso” e mole dos Braganças, proferidos por Oliveira Martins. Nos dias de hoje, os debates centram-se em dois temas principais: por um lado, o dos descobrimentos e império colonial; por outro o da natureza autoritária e fascista do Estado Novo ou do Salazarismo, vista em comparação com a República, que o precedeu, e com a Democracia, que se lhe seguiu.

Os debates acerca da memória instalaram-se no quotidiano. Interpretações opostas, inconciliáveis, permitem aferir sentimentos de pertença, medir solidariedades políticas e intervir na esfera pública dos jornais e redes sociais. As necessidades da comunicação impõem clareza nos termos em confronto, o que cria uma inevitável bipolaridade. Por ora, concentremo-nos no império, sobre o qual parecem existir duas interpretações antagónicas: por um lado, estão aqueles que defendem o carácter excepcional do império e de um colonialismo brando, estilo português suave, de integração e assimilação, em que avulta a figura do mestiço luso-tropical; do outro, os que tendem a representar os descobrimentos e depois o império como um processo em que o saque, a extorsão, a violência, a escravatura e o controlo religioso e militar prevaleceram.

Os primeiros têm saudades de um império luso-tropicalista. Os segundos tendem a acentuar nele a exploração, os diferentes modos de discriminação e o legado racista. A mesma oposição nasceu e sedimentou-se nas lutas entre os que procuraram fazer a propaganda oficial das virtudes dos portugueses nos trópicos, e os que participaram, entre as décadas de 1950 e 1970, nas campanhas contra o colonialismo português. Após o 25 de Abril, os estudos sobre os descobrimentos foram apropriados pelos círculos mais conservadores de historiadores que, sob a capa de uma certa erudição, retomaram a defesa do carácter único assumido pela presença dos portugueses nos trópicos.

No seu início e com o beneplácito de Cavaco Silva, a Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos – que organizou a participação de Portugal na Expo de Sevilha de 1992 e começou a preparar a Expo de Lisboa, em 1998 – retomou o mesmo reportório do Estado Novo. Além da capacidade para o diálogo no contacto de culturas e para a integração social e racial, os portugueses teriam revelado, nos descobrimentos e no seu império, qualidades científicas e empresariais de inovação, logo, uma aptidão para a modernização. Vinho velho em odres novos... Foi necessário o envolvimento da antropóloga Rosa Maria Perez para inverter esse discurso nacionalista, como sucedeu na exposição intitulada Culturas do Índico (1998), organizada pela Comissão dos Descobrimentos no Museu Nacional de Arte Antiga.

As discussões mais recentes em torno da criação de um Museu dos Descobrimentos, da estátua do P. António Vieira, da remodelação do jardim da Praça do Império, de um memorial à escravatura, da restituição do património colonial, dos livros ou exposições encomiásticas sobre arquitectura colonial, dos modos de representação dos africanos em museus, filmes ou fotografias, da literatura sobre a guerra colonial, de massacres como o de Wiriamu – enfim, todas estas discussões foram, salvo raras excepções, vazadas nos moldes dessa mesma antinomia. De um lado, ficaram os defensores de um novo lusotropicalismo, híbrido pós-moderno, lusofonamente pós-colonial. Do outro, as denúncias do racismo, da extorsão por via do saque e da escravatura, que a esquerda tentou monopolizar. Entre os dois lados, os objectos em causa têm variado, mas a distância afigura-se cada vez maior.

Porquê? Escusado será procurar uma resposta na ideia de que vivemos tempos apocalípticos, de um cada vez maior radicalismo político à esquerda ou à direita. Melhor será assumir que tanto as lógicas da comemoração do império, como as estratégias de resistência anticolonial e antirracista se alimentam de mitos e da reprodução de lugares da memória. A este propósito, convém sublinhar que não é por acaso que nunca se falou tanto de memória e de construções do passado, quando desapareceram da esfera pública os livros de história e os arquivos estão às moscas. Ora, só o exercício da história, na sua lenta maturação inquiridora, feito com rigor e no contacto com as ciências sociais, pode ajudar a pôr em causa os mitos e a corrigir a falsa consciência do passado. Os historiadores são chamados a assumir as suas responsabilidades, a não ceder aos perigos de simplificação a que obrigam a sua entrada numa esfera pública ou no contacto com públicos mais alargados. Em suma, só o exercício da história analítica, fundada em problemas, nos pode libertar do peso das memórias parciais, construídas com base em antagonismos banalizados, em que nos querem à força encerrar.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.