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Porque devemos ouvir a Rihanna
Opinião Sociedade 6 4 min. 10.02.2021

Porque devemos ouvir a Rihanna

Os agricultures indianos protestaram recentemente, na capital Nova Deli, contra a nova reforma do setor.

Porque devemos ouvir a Rihanna

Os agricultures indianos protestaram recentemente, na capital Nova Deli, contra a nova reforma do setor.
Foto: AFP
Opinião Sociedade 6 4 min. 10.02.2021

Porque devemos ouvir a Rihanna

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Recentemente a cantora pop Rihanna perguntou no Twitter por que razão não estávamos a falar sobre os grandes protestos dos agricultores na Índia. E ela tem toda a razão. A crónica semanal de Raquel Ribeiro.

Este título é um clickbait, mas eu roubei à Jacobin, que publicou um artigo sobre o tweet de Rihanna e a importância dos protestos dos agricultores na Índia. A cantora partilhou uma reportagem da CNN perguntando "porque não estamos a falar sobre isto?! #Farmersprotest" e as reacções não se fizeram esperar. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia emitiu um comunicado criticando "celebridades" pelos seus comentários "nem verdadeiros nem responsáveis", e outros ministros, celebridades e actores pró-governo de Narendra Modi, conta a BBC, criticaram Rihanna como parte de um grande complot "para dividir a Índia", veiculando "propaganda" que ameaça o país.

Por que razão devíamos estar a discutir os protestos dos agricultores na Índia? Em primeiro lugar porque há vida além da covid-19. A propósito da pandemia, ou usando-a como desculpa, muitos dos nossos direitos e garantias nos têm sido retirados, suspensos, adiados, empurrados para o dia em que regressaremos "à normalidade". A pandemia veio acentuar uma narrativa de tal forma centrada no vírus, que tem sido fácil passar despercebido o que acontece à nossa volta, e sobretudo o que acontece quando postos de emprego são destruídos, direitos alienados, leis aprovadas à revelia, um "novo normal" mascarado.

Como é que milhões de pessoas numa marcha em direcção a Nova Deli, ou como é que protestos desta dimensão, com acampamentos assentes que duram há mais de dois meses, passam despercebidos é algo que não pode ser só explicado pelo "novo normal". Há um velho normal, também, que é uma agenda mediática concentrada no Norte Global, ou nos actores do Sul que connosco interagem (PALOP, Brasil, Venezuela), e profundamente maniqueísta: o bem contra o mal, EUA e UE versus Rússia ou China. E que reduz o resto do mundo a uma massa disforme de subdesenvolvimento, guerra, violência gratuita, pobreza, caricaturas grotescas ou exótico pós-colonial chique, que podem sempre reduzir-se à brilhante lista de clichés enumerados pelo escritor queniano Binyavanga Wainaina, no seu texto icónico "Como escrever sobre África", deixando o breve conselho: "Trate África como se fosse um só país." No fundo, para os grandes media, no velho normal há um umbigo muito grande que, agora confinado, está constantemente a ver-se ao espelho.

As três leis aprovadas pelo parlamento indiano, em que o partido do conservador etno-nacionalista de Modi tem maioria absoluta, desregulam totalmente o sector agrícola, retirando o que resta do apoio estatal a pequenos e médios agricultores, abrindo a porta para grandes empresários investirem no país. Isto porá em risco a segurança alimentar, com a introdução de culturas não autóctones, ou geneticamente modificadas, apostando em monoculturas intensivas, desgastando recursos hídricos e de solo, desprotegendo espécies, desregulando quotas face a quantidades produzidas, arrasando com a capacidade de resposta de pequenos produtores. 

É curioso que o comunicado do MNE indiano, indirectamente sobre Rihanna, contenha a seguinte declaração: "Uma porção muito pequena de agricultores de algumas partes da Índia têm reservas sobre estas reformas." O sector agrícola é o maior empregador da Índia, mas décadas de políticas neoliberais têm levado a uma crise de dívida de pequenos e médios trabalhadores, e até uma enorme vaga de suicídios. Modi não escutou as queixas e tem protelado nas negociações com os sindicatos. Agora, com milhões de agricultores tomando as ruas, tem diante de si os maiores protestos da Índia dos últimos 40 anos.

Em Novembro, a maior greve de sempre juntou 250 milhões contra Modi. Ali, a questão agrícola já estava sobre a mesa, mas outras lutas congregavam os sindicatos, como a suspensão de leis laborais em alguns estados, resultado da crise pandémica, para aumentar a produção (com semanas de trabalho a 72h, por exemplo). A partir de então, os protestos tornaram-se contínuos, por todo o país. A marcha de 100 mil agricultores, com bloqueio de tractores e camiões, em Nova Deli, no Dia da República da Índia, a 26 de Janeiro, resultou em confrontos com a polícia, um morto e vários agricultores detidos, bloqueios de acesso à internet, e fecho de mais de mil contas no Twitter.

Mas os protestos já duram há mais de dois meses e, apesar da repressão de Modi, não arredam pé. Rakesh Tikait, um dos líderes sindicais, disse na semana passada que a agitação não parará até Outubro: "O nosso slogan é: não regressar a casa até as leis agrícolas serem rebatidas". Thomas Crowley conta, na Jacobin, que muitos dos protestos resultaram já em acampamentos que "se transformaram em mini-cidades cheias de atividade cultural, política e social. Grandes cozinhas foram montadas, bem como bibliotecas, palcos para performances e discursos, e até clínicas médicas e dentárias".

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