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Por mares uma vez antes navegados
Opinião Sociedade 3 min. 04.01.2022
História de Portugal

Por mares uma vez antes navegados

O quadro que "mostra" a chegada de Cristovão Colombo ao novo mundo, em 1492.
História de Portugal

Por mares uma vez antes navegados

O quadro que "mostra" a chegada de Cristovão Colombo ao novo mundo, em 1492.
Opinião Sociedade 3 min. 04.01.2022
História de Portugal

Por mares uma vez antes navegados

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A História é passado, mas não é imutável, porque a ciência vai evoluindo e aplicando os seus conhecimentos às provas que temos e antes não sabíamos interpretar.

"As armas e os barões assinalados / Que da ocidental praia Lusitana / Por mares nunca antes navegados / Passaram ainda além da Taprobana". Poucos portugueses não reconhecerão o início - muitos até sabem de cor a primeira metade da primeira estrofe do primeiro canto - d'"Os Lusíadas". A obra mais épica da literatura portuguesa glorifica os feitos de um povo de aventureiros que (é proclamado logo a abrir) foram os primeiros a sulcar os mares e a chegar a tudo o que era terra desconhecida pelo homem branco, assim "dando novos mundos ao mundo". Pois bem, o ano de 2021 finalmente terminou… mas não sem antes trazer notícias perturbantes para a obra de Camões, e também para o nosso desmesurado orgulho.

A História oficial, versão ciclo preparatório, ensina que "João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo descobriram a ilha a que chamaram Madeira em 1419", e que "Diogo de Silves chegou a São Miguel e Santa Maria, as primeiras ilhas dos Açores a serem avistadas, em 1427". Vamos ignorar o facto de a existência dos dois arquipélagos já ser conhecida quase um século antes, como o atestam mapas genoveses do século XIV. O que dois investigadores acabam de afirmar, chegando à mesma conclusão por caminhos diferentes, é que os primeiros a descobrir as regiões autónomas portuguesas foram… os vikings.

Pedro Raposeiro estudou compostos orgânicos presentes nas fezes fossilizadas de gado bovino e ovino no arquipélago dos Açores. Estes compostos são ricos em carvão mas pobres em vestígios de vegetação autóctone, o que indica que os colonizadores das ilhas queimavam mata para abrir pastagem para o gado que tinham trazido nos seus barcos. A surpresa é que os vestígios… eram do século VIII, entre o ano 700 e 800. Por outro lado, Jeremy Searle (um biólogo na universidade de Cornell) estudou os genes de ratos e descobriu que aqueles que vivem nos Açores, trazidos sem querer pelos primeiros navegadores nos seus barcos, têm o mesmo DNA dos ratos da Noruega - e diferente dos ratos em Portugal continental.

A História é passado, mas não é imutável, porque a ciência vai evoluindo e aplicando os seus conhecimentos às provas que temos e antes não sabíamos interpretar. Mais espectacular ainda, do ponto de vista científico, é a confirmação de que também foram os vikings os primeiros a chegar à Terra Nova e, por consequência, à América do Norte - oficialmente, foi Colombo a descobrir a América em 1492 e o açoriano João Fernandes, dito o Lavrador, o primeiro a avistar esta ilha do Canadá e a enorme península que hoje leva o seu nome (Labrador) uns seis anos mais tarde.

Mas cientistas da Universidade de Groningen estudaram troncos de árvores milenares cortadas em L’Anse aux Meadows, na Terra Nova, procurando vestígios de radiação de uma forte tempestade solar ocorrida no ano 993 (e que os troncos de árvore absorvem). Encontrados esses vestígios de radiação, bastou contar os 28 anéis que cada árvore tinha crescido até ser cortada - um por cada ano de vida extra. 993 + 28 = 1021, ou seja todas as árvores tinham sido impecavelmente cortadas pela base com um instrumento de metal - a que os vikings tinham acesso, mas que os indígenas da região não tinham - no ano 1021, o ano em que Leif Erikson criou uma povoação nas Américas a que chamou "Vinlândia". Quase cinco séculos antes de Colombo e de João Fernandes, o Lavrador.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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