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Poluição é coisa de pobre
Editorial Sociedade 2 min. 04.12.2019

Poluição é coisa de pobre

Poluição é coisa de pobre

AFP
Editorial Sociedade 2 min. 04.12.2019

Poluição é coisa de pobre

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Está planeada para 2020 a construção das primeiras ilhas artificiais. Nelas, os ricos viverão livres de Estado, constrangimentos sociais e da presença de pobres que não sejam seus criados.

No filme “Elysium”, do realizador sul-africano Neill Blomkamp, a elite da população da Terra vive numa enorme e paradisíaca estação espacial em que tudo está garantido, até a imortalidade, e a população da terrestre sobrevive em condições sub-humanas, num planeta destruído do ponto de vista ecológico e em condições de escravatura. A sua vida é permanentemente policiada por violentos robôs da polícia.

As funções do Estado limitam-se à manutenção da ordem, para melhor explorar os homens e mulheres em que foram transformados a humanidade.

A ficção científica serviu sempre para poder falar do presente com as roupas do futuro, para nos permitir ver melhor aquilo que hoje nos parece “normal”, mas que pelo seu desenvolvimento lógico nos levará a situações de irreversível injustiça. As distopias, como os “Prisioneiros do Poder”, dos irmãos Arcady Strugatsky e Boris Strugatsky, “1984”, de George Orwell, ou “Nós”, de Yevgeny Zamyatin, projetam no futuro aquilo que pode estar a ser forjado com o nosso silêncio.

Por todo o mundo “desenvolvido” assiste-se à criação de uma espécie de apartheid: por um lado, uma raça de super-ricos que vive num mundo à parte, e por outro lado uma população sem direitos.

À conta da corrida desenfreada aos lucros, o planeta está à beira da catástrofe ambiental. A maior parte dos governos não pretendem alterar um modelo económico que destrói o ambiente. As únicas medidas que avançam são taxar os mais pobres para pagarem a poluição que as empresas dos muito ricos produzem.

Existem já dezenas de milhões de pessoas que foram obrigadas a fugir das suas terras por questões ambientais. Daqui a poucas décadas serão muito mais. Mas até na fuga e na destruição ambiental não sofreremos todos da mesma maneira. Como no filme “Elysium”, aos pobres está reservado o inferno da poluição e aos ricos os paraísos artificiais do ambiente controlado e protegido.

É certo que se o planeta morrer, morremos todos, mas como dizia Keynes: “A longo prazo estaremos todos mortos”.

Um cenário que será impossível de evitar se as cimeira com a COP25 insistirem em soluções, que mais do que combater um modo produtivo destruidor, insistam em manter tudo como está.

É já para o próximo ano que está previsto um cenário de ficção científica que é abordado numa das edições da revista francesa Philosophie Magazine, num dossier em que se revela que está planeada para 2020 a construção das primeiras grandes ilhas artificiais. Nelas, os ricos viverão livres de Estado, constrangimentos sociais e da presença de pobres que não sejam seus criados. Certamente em excelente ambiente. Bem-vindos ao deserto do real.

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