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Eles comem tudo
Opinião Sociedade 3 min. 15.06.2021
Política portuguesa

Eles comem tudo

Pedro Adão e Silva (à direita) com Ferro Rodrigues (centro) e Almeida Santos na Convenção do Partido Socialista em fevereiro de 2004.
Política portuguesa

Eles comem tudo

Pedro Adão e Silva (à direita) com Ferro Rodrigues (centro) e Almeida Santos na Convenção do Partido Socialista em fevereiro de 2004.
Foto: Lusa
Opinião Sociedade 3 min. 15.06.2021
Política portuguesa

Eles comem tudo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Sim, eles comem tudo. Mas o 25 de Abril – que também se fez para acabar com os privilégios abusivos da elite – resistirá sempre.

"Os Vampiros" é uma das canções mais importantes do século XX português. Nela, o grande José Afonso agitava as consciências debaixo de um regime castrador que guardava ciosamente as regalias para uns poucos e condenava a esmagadora maioria à pobreza material, intelectual e psicológica. "Eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada", gritava o Zeca, resistente destemido. E pelo seu simbolismo, os "Vampiros" foram uma das três senhas utilizadas pela MFA naquela madrugada inicial de 25 de Abril.

Nepotismo, favoritismo, corrupção. São estes os sinónimos que o dicionário usa para definir a expressão inglesa jobs for the boys, que entrou no imaginário português quando António Guterres ganhou as eleições e avisou o aparelho do seu partido, sedento de lugares após passar dez anos na oposição: "NO jobs for the boys!". Guterres queria assegurar os cidadãos que dali em diante seria diferente, e que o partido no poder não iria tomar de assalto a administração do Estado democrático. Os empregos passariam em teoria a ser conquistados por mérito.

Nada mudou. O governo de então distribuiu benesses por membros, apaniguados e parentes – o próprio Guterres usaria esse "pântano" como pretexto para se demitir. Em seguida, os governos de direita fizeram tão mal ou ainda pior. Depois vieram os governos de José Sócrates (talvez o apogeu da captura da República por interesses particulares) e foi aí que começou a aparecer o fiel apparatchik Pedro Adão e Silva.

(...) até hoje, Adão e Silva, "comentador" de regime, só se destacou por vestir as camisolas que estão na mó de cima, fazendo de caixa de ressonância das teses oficiais do PS e do Benfica.

Adão e Silva é uma daquelas pessoas muito em voga: são conhecidas porque aparecem na tv e aparecem na tv porque são conhecidas... da tv. Quando apareceu, o jovem socialista usava a maior parte do tempo de antena que lhe foi concedido para, contra todas as evidências, defender a sua dama: Sócrates nunca será acusado de nada, é tudo uma cabala pessoal, os jornalistas deviam era amansar, etc. A cassette toda, portanto. E até hoje, Adão e Silva, "comentador" de regime, só se destacou por vestir as camisolas que estão na mó de cima, fazendo de caixa de ressonância das teses oficiais do PS (sobretudo quando é governo) e do Benfica (a favor de Luís Filipe Vieira enquanto vencia mais, e contra agora que vence menos).

Pedro Adão e Silva é o exemplo acabado de um "boy". E é por isso que o regime lhe agradece concedendo as suas maiores benesses e fazendo dele uma espécie de "ministro do 25 de Abril" – só que ainda melhor: contrato mais longo (mais de 5 anos e meio), equipa maior, trabalho de menor responsabilidade e o salário não depende dos resultados; nem sequer estará sujeito a essa chatice de eleições e escrutínio público.

A data mais bela da nossa História recente exige, em primeiro, reflexões sobre meios séculos – o que passou, e que caminho seguir no próximo; em segundo, uma comemoração condigna e abrangente, liderada por personagens respeitadas, relevantes e escolhidas por mérito. Infelizmente, este governo centralista pensa que o Estado lhe pertence, e que nem uma explicação para estas decisões ultrajantes nos deve. Quem não se enquadrar fique em casa. Está feito o retrato-robot de quem tem direito a celebrar a Liberdade: socialista, socrático e costista, comentarista acrítico na tv do Estado, homem, benfiquista, lisboeta, surfista em Cascais, camisola amarela pelos ombros, cabelo ligeiramente encaracolado atrás.

Sim, eles comem tudo. Mas o 25 de Abril – que também se fez para acabar com os privilégios abusivos da elite – resistirá sempre.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).



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