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Pobres países ricos
Opinião Sociedade 5 min. 22.09.2022
Riqueza

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Foto: David Dee Delgado/Getty Images/AFP
Opinião Sociedade 5 min. 22.09.2022
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Pobres países ricos

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Dois relatórios recentes, um da ONU, outro do Credit Suisse, demonstram a absurda acumulação da riqueza nas mãos do 1%.

Só pode ser por escolha que os Estados Unidos surjam atrás de Cuba (40º) e à frente da Bulgária (42º) no relatório da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, que mede 17 indicadores sobre o combate à pobreza e desigualdade, como acesso à saúde ou protecção ambiental. Até porque é mesmo uma questão de escolha que, no topo do relatório sobre riqueza global, anunciado esta semana pelo Credit Suisse, estejam igualmente os Estados Unidos, que detêm metade de todo o crescimento da riqueza no mundo, em 2021.

Portugal perdeu 10 mil milionários em 2021. Agora são 'apenas' 159 mil, segundo o estudo [do Credit Suisse].

O relatório do Credit Suisse ainda não contempla as consequências da guerra na Ucrânia, a espiral inflacionária e a crise energética, apenas o rescaldo da covid-19. Para o Credit Suisse este é o crescimento anual mais rápido jamais registado, mais do dobro de qualquer crescimento deste século. O relatório diz que as mulheres estão melhor, os jovens estão melhor, os não-brancos estão melhor. Que há um aumento geral da classe média. E que o número dos que vivem com menos de 10 mil dólares por ano se reduziu, em milhões. "O panorama da riqueza geral foi positivo, mesmo para grupos desfavorecidos."

Mas quando o relatório analisa a distribuição da riqueza as coisas mudam. Há dinheiro, de facto. Estamos todos "mais ricos", sim, mas os muito ricos estão muito muito mais. Há 62 milhões de milionários no mundo. E a previsão é de que este número cresça 40% nos próximos anos. O relatório distingue entre o "simples" milionário (que tem mais de um milhão de dólares em património) e os ultra-ricos (com património superior a 50 milhões de dólares). Os EUA também estão no topo da pirâmide de milionários e ultra-ricos (correspondem a 39% de todo o mundo). A China está em segundo lugar (com 10%).

Portugal perdeu 10 mil milionários em 2021. Agora são "apenas" 159 mil, segundo o estudo. Uma lástima, já que o país conseguiu manter intactos os privilégios dos super-ricos, do retalho aos bancos à energia, sectores mais "afectados" pela covid-19. E conseguiu, ainda assim, atrair muitos vistos gold e novos residentes sem pagar impostos, como os nómadas digitais, os "corporate nomads" ou os reformados "golden".

Além de contribuírem para a especulação imobiliária, pagando a pronto, com malas cheias de dinheiro, apartamentos em zonas nobres de Lisboa e Porto, passam simplesmente os dias a consumir lattes com corações de canela, comendo tostas de abacate e esfregando na cara dos pobres vídeos cool no Instagram e TikTok sobre como os seus salários de 5 mil dólares rendem bem neste país em que a carcaça já não custa 12 cêntimos (e o pão aumentou 15%, não sei se viram). A Iniciativa Liberal certamente diria que é uma consequência do "socialismo2 em que vivemos. Mas ainda ninguém lhes explicou que esses 'nomads' não pagam impostos aqui. Ou como dizia o Marx, e eles se arrepiam porque tem razão: "O capital não tem pátria."

Mas a pátria do capital não vai bem. Ou, pelo menos, não vai segundo os que nela crêem como guru. A colunista do Guardian, Arwa Mahdawi, enunciava as fatalidades dos EUA para descerem no ranking da ONU: "Como chamaria a um país em que quase um em cada 10 adultos tem dívidas médicas e uma fractura num osso pode levá-lo à falência? Um país onde uma cidade com mais de 160 mil habitantes não tem água potável há semanas? Um país onde a expectativa de vida caiu pelo segundo ano consecutivo e pessoas pobres vendem o seu plasma para sobreviver? Um país onde a taxa de mortalidade materna de mulheres negras é quase duas vezes superior à de mulheres na Síria?"

O Financial Times dizia recentemente que "a desigualdade no Reino Unido e nos EUA é tão grande que os dois países deviam ser considerados países pobres com pessoas muito ricas."

Pena que Mahdawi dê ao seu argumentário o seguinte título: "melhor que a Bulgária, mas não tão bom como Cuba: como é que os EUA se tornaram neste lugar terrível para viver?"

É que os EUA, esse lugar terrível, país mais rico do mundo, têm a liberdade económica para escolher o que querem para si, para a sua população, para a sua vida, no dia-a-dia. Imagine-se alguém chegar ali e dizer-lhes que não podiam fazer transações internacionais, que não tinham acesso ao mecanismo bancário. Imagine-se alguém chegar ali e dizer que eles não podiam fazer negócio com absolutamente ninguém, sob pena de embargo. Alguém lhes bloquear a moeda, as remessas, os bancos. Alguém lhes bloquear as importações, dos básicos (petróleo, gás, comida) às componentes mínimas de tecnologia ou medicina.

Imagine-se, mesmo assim, perante esse bloqueio brutal, ficar à frente nos índices de desenvolvimento sustentável da ONU do país mais rico do mundo.

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)

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