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Pobre é uma "maneira de pensar"
Opinião Sociedade 5 min. 07.04.2021

Pobre é uma "maneira de pensar"

Pobre é uma "maneira de pensar"

Foto: AFP
Opinião Sociedade 5 min. 07.04.2021

Pobre é uma "maneira de pensar"

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Se trabalharmos muito, faremos muito dinheiro. Se juntarmos muito dinheiro, poderemos ser empreendedores. É esta patranha que os liberais nos tentam vender quando alguns trabalhadores não conseguem sequer urinar. Uma crónica de Raquel Ribeiro.

Uma amiga contou-me que nunca foi tão hostilizada como quando fazia distribuição de panfletos sobre direitos laborais à porta de multinacionais financeiras, em Lisboa, no eixo Marquês-Picoas-Saldanha-Campo Pequeno. Acabados de sair da Nova SBE, da Católica, das Business School que substituíram as velhinhas faculdades de Economia, jovens de fatinho e lancheira, trabalham sem descanso no favo da abelha rainha do grande capital. Para eles, panfletos sobre direito à greve, 40h semanais, licença parental, assédio laboral, entre outras minudências do Código do Trabalho, são coisas de privilegiados esquerdistas.

É verdade que os consultores juniores das financeiras estão no topo das tabelas salariais de jovens recém licenciados. Trabalhar na City lisboeta aos 22 anos dá direito a salário acima da média, por "objectivos", quanto mais trabalhamos, mais produzimos, aumentamos carteiras de clientes, progredimos na carreira, subimos de estatuto. Como dizia o José Mário Branco, "consolida, filho, consolida".

Não admira que o eixo das financeiras seja a zona prime dos cartazes da Iniciativa Liberal: é acreditar que se todos trabalharmos muito, muitas horas, se dermos o litro e nos esforçarmos, vamos chegar a consultor sénior. Por isso, os esquerdistas que se preocupam com direitos laborais não têm noção do que é trabalhar, mas a sério, trabalhar sem dormir, trabalhar sem comer, trabalhar sem direitos. Como é o caso dos entregadores da Uber ou da Glovo, que estão ironicamente no mesmo eixo Marquês-Picoas-Saldanha-Campo Pequeno, na praça da jorna moderna. 

Empreendedores conta-propistas dependentes das apps das multinacionais de Silicon Valley, estão ali horas a trabalhar a sério, sem dormir, sem comer, a entregar noodles vegan aos consultores financeiros à meia-noite, hora do break de 20 minutos para jantar. A culpa de os entregadores fazerem salários abaixo do limite legal, serem explorados, não terem direitos, nem seguro de acidente, nem poderem ir à casa de banho, é deles, porque não têm visão, porque não se esforçam, nem dão o litro a subir a calçada da Estrela de bicicleta. Como dizia um jovem liberal no Twitter na semana passada: "Pobre é, acima de tudo, uma maneira de pensar."

Mas um dia, um hipotético trabalhador de uma consultora pegou no hipotético panfleto que a minha amiga estava a distribuir. E chegou à Goldman Sachs: em meados de Março, os júniores do banco de investimento nos EUA, que esteve no centro da crise financeira de 2008 e hoje tem como Presidente não-executivo o ex-primeiro-ministro português e ex-presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, acusaram os consultores séniores de tratamento desumano e condições de trabalho esgotantes. A BBC noticiava que um inquérito conduzido por um grupo de juniores circulou nas redes sociais. "Privação de sono, o tratamento dos banqueiros seniores, o stress físico e mental... passei por um orfanato e isto é indiscutivelmente pior", disse um. 

To pee or not to pee, parece ser, hoje, a questão central dos direitos laborais.

"Isto está para lá do nível de 'trabalho árduo', isto é desumano/abusivo", disse outro. Setenta e sete por cento dos entrevistados afirmavam ter sido vítimas de assédio laboral. O inquérito recomendava uma semana de trabalho, no máximo, de 80h (sim, dobro das nossas "leis") com direito a descanso ao sábado e depois das 21h de sexta. A Goldman Sachs teve 44 mil milhões de dólares em receita em 2020.

Quem também não se esforça o suficiente são os trabalhadores da Amazon, que teve 21 mil milhões de dólares em receita em 2020. Mesmo aqueles obrigados a urinar em garrafas de plástico porque não estão autorizados a fazer pausas para ir à casa de banho, como foi noticiado esta semana. To pee or not to pee, parece ser, hoje, a questão central dos direitos laborais. Parece, contudo, que um desses trabalhadores também leu o panfleto da minha amiga.

Bessemer é uma localidade nos subúrbios de Birmingham, Alabama, coração das lutas dos direitos civis nos EUA. Em 2019 foi votada a pior cidade para se viver no estado do Alabama. Tem 27 mil habitantes, o índice de pobreza é de 29% (o dobro do estado) e o crime violento é de 3 mil casos por 100 mil habitantes (6 vezes mais do que no estado). Setenta por cento da população é afro-americana. É lá que fica o armazém de 15 campos de futebol distribuídos por quatro pisos da Amazon. É lá que 6 mil trabalhadores estão neste momento a tentar formar um sindicato que poderá desafiar as leis laborais da Amazon nos EUA (apesar das intimidações da multinacional contra os trabalhadores).

Além das condições abusivas e de assédio laboral, os trabalhadores querem mais períodos de pausa. Queixam-se de jornadas de mais de 10h com apenas dois intervalos de 30 minutos, monitorizados ao segundo pelo patrão e por câmaras de vigilância. Trabalham de pé, (des)empacotando caixas e arrumando prateleiras, (des)carregando camiões. Esta semana saberemos se o sindicato foi efetivamente constituído e como a empresa irá reagir. 

Mas as queixas estão a multiplicar-se um pouco por todo o lado, seja porque os trabalhadores não têm protecção contra a covid-19, seja porque as condições de trabalho são inumanas. "A Amazon está a reorganizar a natureza do trabalho de retalho – que por tradição não é fisicamente esgotante e comporta muito tempo morto – em algo muito mais semelhante a uma fábrica, que nunca pára", disse ao New York Times um antigo trabalhador, que está a escrever um doutoramento na Universidade de Minnesota sobre como a Amazon está a transformar a noção de trabalho. "Para a Amazon, isto não é sobre dinheiro. É sobre o controlo do corpo dos trabalhadores e de todos os momentos possíveis do seu tempo."

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