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Pessoas que batem palmas nos aviões
Opinião Sociedade 3 min. 21.05.2022
Viajar

Pessoas que batem palmas nos aviões

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Pessoas que batem palmas nos aviões

Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort
Opinião Sociedade 3 min. 21.05.2022
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Pessoas que batem palmas nos aviões

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
Quando me mudei para o Luxemburgo, achava isto uma saloice total.

A vida deu-me uma sorte danada, que foi poder viajar pelo mundo todo. Conheço mais de uma centena de países e à maioria deles cheguei de avião. Tive as viagens mais atribuladas da minha existência num voo entre Moscovo e Vladivostok e noutro entre Maputo e Pemba. 

Um avião é o espaço menos natural do mundo para um ser humano. É o único lugar do mundo onde não queremos que a espontaneidade ou o improviso triunfem.

No primeiro, tive de levar com uma discussão entre passageiros que se tornou em pancadaria – mas, como ajudei a resolver a disputa, acabei a fumar um cigarro com a hospedeira na parte de trás do aparelho, ainda que o voo fosse oficialmente de não fumadores. No segundo enfrentei mais poços de ar do que alguém devia alguma vez experimentar, e ainda antes de passar Nampula, uma das hélices da máquina decidiu meter folga. Tenho uma amiga que sobreviveu à queda de um avião e teria todo o direito a mandar-me calar por escrever esta crónica. Mas acho que também não será injusto dizer que tenho a minha dose de sustos aeronáuticos.

Agora há uma coisa que eu sei. Quando o comandante anuncia que a aterragem está para breve, quando as hospedeiras pedem para arrumarmos os computadores e recolhermos as mesas, e sobretudo quando se ouve o barulho do trem de aterragem a descer para enfrentar a pista, uma tropa inteira de passageiros entra em modo de alerta. De uma forma ou de outra, todos nos preparamos para o momento decisivo em que as rodas beijam o alcatrão, os travões chiam e o aparelho sai pela lateral em direção ao estacionamento.

A aterragem é o momento decisivo do voo, é a garantia definitiva de que fomos ou voltámos. Já fiquei preso horas dentro de uma aeronave antes de descolar, mas sei que é muito mais angustiante ficar lá dentro trinta minutos depois da chegada – porque estão atrasados os autocarros que nos levam para o terminal, ou as escadas que nos fazem sair dali. Um avião é o espaço menos natural do mundo para um ser humano. É o único lugar do mundo onde não queremos que a espontaneidade ou o improviso triunfem. Queremos ir e partir com a maior tranquilidade possível, todos. E sempre.

No mundo lusófono, é comum aplaudir uma aterragem bem sucedida. Digo que a circunstância é da língua portuguesa porque raras vezes a vi acontecer noutras linguagens ou geografias. E, quando me mudei para o Luxemburgo, achava isto uma saloice total. Somos passageiros de um serviço, os pilotos não fazem mais do que o seu trabalho ao assegurar a tranquilidade das rotas. Que raio de aplauso é esse?

Há uns dias vim do Porto e apanhei ao meu lado dois miúdos que nunca tinham viajado de avião na vida. Chamavam-se Filipe e Tiago, tinham 17 anos e acabado de ganhar uma bolsa para estudar robótica em Metz. Estavam a tentar parecer os adolescentes mais cool do mundo até o comandante anunciar os preparativos para a aterragem. Tentei acalmá-los explicando aquilo que podiam ver da janela – Kirchberg, o Grund, Sandweiller. Mas, no momento em que a máquina se fez à pista, eles agarram-se aos braços da cadeira com um aperto aflito. Era a primeira vez que se deixavam levar assim.

Assim que pousámos, suspiraram de alívio e perguntaram-me se podiam bater palmas. Começaram eles a ovação, e uma boa parte do avião seguiu-lhes a iniciativa. Dei por mim, pela primeira vez, a aplaudir também. Aqueles miúdos não estavam a cumprir ritual nenhum, estavam apenas a agradecer de forma espontânea a chegada segura ao porto de destino. E dei por mim a pensar que sou eu que estou errado quando acho esse aplauso saloio. Se alguém me traz a um sítio onde sou feliz, é bem justo que lhe ofereça uma salva de palmas.

(Grande Repórter)

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