Escolha as suas informações

Pessoa do ano: o trabalhador
Opinião Sociedade 4 min. 16.12.2021
Elon Musk

Pessoa do ano: o trabalhador

Elon Musk

Pessoa do ano: o trabalhador

Foto: AFP
Opinião Sociedade 4 min. 16.12.2021
Elon Musk

Pessoa do ano: o trabalhador

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Elon Musk foi eleito, pela revista Time, pessoa do ano 2021, do planeta e arredores (desde que foi ao espaço). Que não se esqueça quem lhe produz a riqueza.

O facto de o multimilionário Elon Musk ser eleito a pessoa do ano pela revista Time diz muito sobre o modelo de negócio que alimenta o mundo do tamanho da pilinha de rocket espacial do Musk.

O mundo pós-COP26 olha para a transição energética e vê a sobrevivência deste sistema extractivista, até à última gota de sangue de um grande lago de lítio na Bolívia, num milionário transformado em visionário herdeiro de mineiros brancos do Apartheid sul-africano como Musk.

A Time é o que é, mas já fez capa com o planeta Terra, médicos contra o Ebola, as mulheres do #Metoo, e aqueles que em 1993 assinaram os acordos de Paz mais importantes de um mundo que continuou em guerra: Arafat e Rabin (pelos acordos de Oslo); De Klerk e Mandela (pelo fim do Apartheid).

Foto: AFP

É irónico que a pessoa do ano seja hoje um empresário e não um político. A Time está cheia de políticos "pessoa do ano" e alguns até o foram duas vezes ou mais (Roosevelt três vezes!, Estaline, Truman, Churchill, Eisenhower, Johnson, Nixon, Reagan, Deng Xiaoping, Obama – todos os presidentes americanos foram capa pelo menos uma vez). Mas daí a escolher um empresário, é raro, até porque tirando uns colectivos (a classe média americana, o cientista americano, a mulher americana, o soldado americano), activistas (Luther King ou Greta?), militares, economistas ou abstractos (o computador ou "tu" que estás no youtube), a Time só fez capa com empresários quatro ou cinco vezes: Chrysler (1928), Curtice da General Motors (1955), o Bono, Bill e Melinda Gates (2005) – categoria "caridade"; e o Bezos (1999).

No segundo ano pandémico, em que o número de multimilionários de pilinhas apontadas ao espaço continua a subir, a Time devia era ter vergonha e eleger pela primeira vez em 94 anos "o trabalhador americano".

Em 94 anos de capas da Time, é curioso perceber o hiato entre grandes empresários da indústria automóvel (1928, 1955) e os modernos, da informática, da logística e do extractivismo à século XIX (Gates, Bezos e Musk).

O Bezos deixou esta semana dezenas de trabalhadores à sua sorte enquanto o armazém da Amazon em que se encontravam tentava sobreviver a um dos maiores tornados do século. Seis trabalhadores morreram. Porque a Amazon os proíbe de trabalhar com um telefone (!), não receberam o alerta da protecção civil a tempo de abandonarem o posto de trabalho e porem-se a salvo.

Mas se a Amazon toda-poderosa pode, nós também podemos explorar os nossos trabalhadores. Como na Mayfield Consumer Products, fábrica de velas, terceiro maior empregador do Kentucky, onde morreram oito trabalhadores a quem foi dito que "perderiam o emprego" se abandonassem o posto.

Estamos fartos destes "empresários" eleitos por deus e um punhado de estrelas (e capas de revista) que nos dizem fazer mover um mundo rodado à manivela com a exploração de pessoas que trabalham em armazéns em que não podem proteger-se perante uma catástrofe por ordem do patrão. Não foi no terceiro mundo, na Bolívia, onde Musk patrocinou moralmente golpes de estado, foi mesmo nos EUA.

No segundo ano pandémico, em que o número de multimilionários de pilinhas apontadas ao espaço continua a subir (nos EUA a sua fortuna cresceu 70%), a Time devia era ter vergonha e eleger pela primeira vez em 94 anos "o trabalhador americano".

Dane-se o singular masculino universal, porque é nele que por mais linguagem inclusiva que queiram usar se contam todos os trabalhadores da Amazon ou da Kellogg, que continuam em greve desde Outubro (lembrem-se de cada vez que verterem o leite sobre os corn flakes), e um pouco por todo o mundo, trabalhadores que este ano perderam o emprego, fizeram greves duríssimas, lutaram, resistiram ou sucumbiram enquanto dividendos eram distribuídos por accionistas, multimilionários iam ao espaço e patrões recebiam ajudas do Estado, como na EDP, Altice, Exide, na Refinaria de Matosinhos, na Dielmar, Coelima, Groundforce, Superbock, Efacec, Sicman Siemans, Such, Cofaco, Hutchison, Eurest, Eugster e Frismag, Avipronto, e até, pasme-se, nos bancos Santander ou BCP.

(Autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.)

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.