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Parentalidade positiva o raio que o parta
Opinião Sociedade 4 min. 04.05.2022 Do nosso arquivo online
Educação

Parentalidade positiva o raio que o parta

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Parentalidade positiva o raio que o parta

Foto: Unsplash
Opinião Sociedade 4 min. 04.05.2022 Do nosso arquivo online
Educação

Parentalidade positiva o raio que o parta

Desde quando é que estabelecer limites é ser autoritário? E quem disse que mandar uma criança calçar-se para não chegar atrasada à escola vai trazer-lhe traumas? Algures na procura da perfeita gestão emocional da educação dos filhos talvez estejamos a perder o bom senso.

(Paulo Farinha)

A minha filha mais nova não gosta de ser pressionada. Não reage bem. E, se está a demorar demasiado tempo a lavar os dentes antes de sairmos para a escola, fica perdida a pensar onde ia quando a interrompo na minuciosa tarefa de higienizar com aprumo todos os molares. “Agora tenho de começar tudo outra vez”, grita chateada comigo aquele adorável ser de 8 anos enquanto eu penso se atiro a escova elétrica pela janela e lhe dou mais um berro ou se conto até dez e faço exercícios de respiração para controlar "o meu eu interior ansioso".

Somos a geração de pais e mães mais adaptada, preparada, informada e documentada que a história da humanidade conseguiu aprumar. Sabemos tudo e mais alguma coisa sobre desenvolvimento infantil, plasticidade do cérebro, alimentação saudável, competências linguísticas e brinquedos pedagógicos. Já conseguimos, até, falar em "semanas" quando se aborda o tema gravidez ("a minha mulher está de 14 semanas") e, vitória das vitórias, há cada vez menos pessoas a revirar os olhos ou a ficar com ar de quem está a ouvir mandarim gestacional.

Mas ainda não é suficiente. A toda a hora, alguém nos lembra que continuamos a ser uma nódoa na gestão de emoções, controlo de frustrações e adaptação às desilusões dos pequenos. E somos constantemente recordados que, em nome da parentalidade positiva e consciente, nós é que temos culpa se não fazemos mindfulness para não ficarmos enervados se eles não calçam os ténis rapidamente de manhã para sair de casa e não chegarem atrasados às aulas.

O título da crónica, claro, é uma provocação. Um exagero. Estou obviamente a ser irónico com conceitos importantíssimos para a educação dos nossos filhos com vista a um crescimento harmonioso e a uma prevenção de gasto de rios de dinheiro em terapia daqui a uns anos porque "o meu pai era autoritário". Mas, algures ao longo da evolução da parentalidade, alguém entendeu que desligar-lhes a TV à hora da refeição para não comerem tudo frio ou insistir que só podem brincar com o telemóvel depois de fazerem os TPC podem ser considerados comportamentos autocratas.

Pensar sobre estas coisas é bom. Só faz bem. Aumentamos os nossos conhecimentos, tornamo-nos pais mais conscientes, aprendemos imenso sobre psicomotricidade e emoções e, muito importante, de há uns anos a esta parte há cada vez mais famílias a perder o estigma de procurar ajuda de um terapeuta para tentarem compreender melhor os anseios e sofrimentos dos filhos. E a visitar o psicólogo com a mesma naturalidade com que vão ao pediatra, ao ortopedista ou ao oftalmologista.

Só que a constante pressão dos pares e os tsunamis de informação sobre o que é ser tirano ou o que é estabelecer limites fazem-nos duvidar de tudo a cada passo. Fazem-nos duvidar de nós. E fazem-nos pensar, a toda a hora, se nos baixámos o suficiente para ficar ao nível deles quando dizemos um "não" firme, se explicámos devidamente porque não devem enfiar os dedos na tomada ou se fomos suficientemente compreensivos e empáticos quando lhes pedimos com carinho que não espetassem um garfo no olho do mano.

"É tudo uma questão de bom senso", dirão. Eu sei. Sei eu e sabem todas as pessoas que, nos grupos de pais do WhatsApp, respiram fundo e apagam as mensagens dos outros progenitores que estão a toda a hora a almofadar os sentimentos dos miúdos e a colocá-los à frente de tudo e mais alguma coisa – com prejuízo dos seus próprios anseios e fragilidades. Sei eu e sabem todos os autores e pensadores da parentalidade positiva que se multiplicaram nos últimos anos (muitos já organizam grupos de trabalho e workshops e conferências e encontros, além de venderem livros, porque têm de ganhar a vida). Sei eu e sabem os professores que entendem que as crianças são todas diferentes e os dias também e que o que hoje é um lindo arco-íris de afetos para um aluno, amanhã é uma borrasca emocional para outro e é preciso ajustar o grupo da sala de aula.

Eu sei. (Quase) todos sabemos. Mas temo que muitos pais não consigam ver a coisa de longe e, na tentativa da perfeição, acabem por perder esse bom senso ao colocar tudo em causa quando questionam os comportamentos dos filhos e os seus próprios.

Perdem-se umas coisas, ganham-se outras. E não há nada de mal em aceitar que não é possível atingir sempre o nirvana da parentalidade consciente – não só porque ele não existe, mas também porque há dias em que, para chegar à escola a horas, será preciso levar os incisivos mais brilhantes do que os caninos. E não há absolutamente nada de mal nisso.

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Para muitos é motivo de festa. Para tantos é apenas motivo de preocupação e irritação. Seja qual for a razão que tenham, o Natal não é igual para todos. Alguns só querem que passe depressa.
Paulo Farinha
@Rodrigo Cabrita
Os queixumes incluem também "estou entediada" e "isto é tão chato". As minhas filhas de 8 e 9 anos não são caso raro de aborrecidite, essa maleita que ataca as crianças habituadas a muitos estímulos.
Obrigado. A si, que a cada quatro anos, como acontece com tantos professores, tem de se despedir destas criaturas que entraram quase bebés e saem pré-adolescentes.