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Paranóia antivacinas chega ao Luxemburgo
Sociedade 5 min. 20.03.2019

Paranóia antivacinas chega ao Luxemburgo

Paranóia antivacinas chega ao Luxemburgo

Foto: AFP
Sociedade 5 min. 20.03.2019

Paranóia antivacinas chega ao Luxemburgo

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
Movimento contra a vacinação diz que há cada vez mais pessoas que recusam imunizar os filhos contra doenças infecciosas, como o sarampo. Apesar de a vacinação não ser obrigatória no Grão-Ducado, o Ministério da Saúde reforça que este é o principal meio de prevenção desta e outras doenças.

O assunto está na ordem do dia. O ressurgimento dos movimentos anti-vacinação tem aumentado a resistência em imunizar os mais novos e está na origem do regresso de várias doenças que se julgavam debeladas. A própria Unicef alertou em fevereiro de 2019 para o perigo destas campanhas de "desinformação suspeitas e complacentes que põem em perigo muitas crianças".

Estes movimentos alegam que a imunização pode causar autismo ou outros distúrbios. Alegações há muito refutadas pela comunidade médica internacional, incluindo uma investigação dinamarquesa publicada este mês. O estudo, que envolveu 650 mil crianças, concluiu que não há qualquer relação entre a toma da vacina tripla contra o sarampo, papeira e rubéola e o aparecimento de autismo.

A contestação às vacinas, que começou nos EUA, também chegou ao Luxemburgo. Colette Welter é luxemburguesa e presidente da AEGIS, associação do Grão-Ducado que defende um mundo sem vacinas. Esta técnica de laboratório de análises clínicas, hoje reformada, começou a interessar-se pela questão da vacinas por volta dos 20 anos. Aliás, Colette não imunizou os quatro filhos. "Três deles tiveram sarampo", admitiu ao Contacto.

Colette disse ao Contacto que as pessoas que procuram a AEGIS alegam que as vacinas dadas aos seus filhos "lhes provocaram autismo, défice de atenção e hiperatividade ou síndrome de Asperger", apesar de os estudos internacionais afirmarem o contrário. E assegura que há "cada vez mais" pais preocupados com as vacinas a contactar a associação, incluindo "casais internacionais, na sua maioria não luxemburgueses, com níveis elevados de educação".

Outro dos motivos invocados pela associação para rejeitar a imunização são as toxinas presentes nas preparações. "O que nós injetamos nas vacinas também é mercúrio, alumínio, químicos tóxicos de que o corpo não precisa", considera. A Organização Mundial de Saúde (OMS) defende no entanto que "as vacinas são seguras". Também num artigo publicado no jornal Público em janeiro deste ano, Mónica Braz, pediatra portuguesa, escreve que estas "ditas substâncias tóxicas (…) como o alumínio, timerosal ou o formaldeído, constituem quantidades ínfimas e não nocivas para a saúde".

"Devemos deixar o corpo reagir de forma natural a doenças como a gripe ou sarampo", em vez de "fabricar anti-corpos" através de uma vacina, defende ainda Colette. Mas, tal como refere Françoise Berthet, médica e diretora-adjunta da Direção da Saúde, em declarações ao Contacto: "A vacinação é o principal meio de prevenção contra doenças infecciosas sérias, que podem ser prevenidas, e que por vezes podem ser fatais. Graças à generalização da vacinação, a varíola foi erradicada, a poliomielite desapareceu na Europa e numerosas outras doenças foram quase eliminadas".

A AEGIS invoca ainda estudos que se revelaram fraudulentos, como o publicado na revista Lancet, em 1998, que alegava que havia um maior risco de desenvolver autismo em crianças que tomam a vacina única contra o sarampo, papeira e rubéola. Apesar de o estudo ter sido desacreditado pela comunidade internacional – a Lancet acabaria mesmo por retirá-lo –, ainda há pais que continuam a ceder ao pânico com os alegados malefícios da imunização.

Vacinas no Luxemburgo não são obrigatórias

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2018 houve mais de 82 mil casos de sarampo que resultaram em 36 mortes, o triplo em relação a 2017. Países como França, Grécia, Itália, Rússia, Sérvia, Geórgia e Ucrânia registaram mais de mil infetados só no ano passado. Na maior parte dos casos, a OMS atribui estas fatalidades à não vacinação. 

Em Itália, um surto de sarampo levou recentemente o Governo a introduzir um pacote de vacinação obrigatória das crianças até aos seis anos, incluindo sarampo, rubéola e papeira. França seguiu o mesmo caminho e tornou obrigatória a toma de oito vacinas, incluindo a do sarampo. 

No Grão-Ducado a vacinação não é obrigatória, e apesar dos recentes surtos de doenças noutros países, o Ministério da Saúde não pondera tornar a imunização um imperativo. Apesar disto, a percentagem de crianças que tomou todas as vacinas recomendadas era de 76,7% em 2012, os dados mais recentes disponíveis. 

De acordo com os números da OMS, o Luxemburgo registou apenas quatros casos de sarampo entre fevereiro de 2018 e janeiro de 2019, sendo que todos foram curados. A diretora-adjunta da Direção da Saúde luxemburguesa salienta a relevância da "proteção coletiva da vacinação", ainda para mais no recente contexto destes surtos. 

No país, a vacina tripla contra o sarampo, papeira e rubéola, inclui também imunização contra a varicela - designa-se MMRV - e é aconselhada durante os primeiros dois anos de vida do bebé. 

Portugueses vacinam mais do que os luxemburgueses

Um dado que salta à vista nos números divulgados pelo governo diz respeito à vacinação por nacionalidades. Em 2012, no geral, os portugueses vacinaram mais os filhos do que os luxemburgueses: 80,3% contra 72,7%. No caso da vacina tripla contra o sarampo, rubéola e papeira, 90,6% da população lusa imunizou os filhos contra 84% dos luxemburgueses. 

Ainda de acordo com um relatório da Comissão Europeia, de 2018, 93,2% da população residente no Grão-Ducado considera que a vacinação é importante para as crianças. Um pouco menos, 88,3%, considera que é importante vacinar os bebés com a MMRV. 

A diretora-adjunta da Direção da Saúde salienta, por isso, a relevância da "proteção coletiva da vacinação", ainda para mais no recente contexto dos surtos de sarampo. "No caso do sarampo, se 95% da população é vacinada, a transmissão dos vírus é interrompida visto que as pessoas vacinadas constituem uma ‘barreira’ mesmo para quem não está vacinado", explica.  

No mesmo sentido de Françoise Berthet, a OMS insiste que a vacinação é "necessária" para "manter a imunidade coletiva". Sem isso, "doenças que se tornaram raras, como a tosse convulsa, a poliomielite e o sarampo, reaparecerão rapidamente", pode ler-se na página do organismo.

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