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Parabéns Charlie!
Sociedade 3 min. 24.11.2020

Parabéns Charlie!

Parabéns Charlie!

Foto: AFP
Sociedade 3 min. 24.11.2020

Parabéns Charlie!

Sérgio FERREIRA
Sérgio FERREIRA
O modo como encaramos o humor depende antes de mais do estado emocional e psíquico, para além da nossa formação e convicções. Rir de nós próprios, também não está ao alcance de todos... A opinião semanal de Sérgio Ferreira.

A 23 de novembro de 1970 saía para as bancas o primeiro número do semanário Charlie Hebdo. Charlie (para os amigo e inimigos) nasceu como uma reação à censura decretada pelo então ministro do interior francês ao jornal L’Hebdo hara-kiri, na sequência de uma primeira página em que, aludindo à morte do General de Gaulle, o "hara-kiri" titulava: "Baile trágico em Colombey – 1 morto". Classificado como pornográfico, o antecessor de Charlie foi condenado a não poder ser vendido aos menores de 18 anos e a não poder ser exibido nas bancas. "E Deus criou Charlie..."!

Cinquenta anos volvidos, o jornal satírico continua aí, apesar de todos os percalços e tragédias com que se viu confrontado ao longo da sua existência. Na sequência dos atentados de janeiro de 2015, muitos de nós exibimos em sinal de solidariedade "Je suis Charlie!", numa proclamação contra a barbárie do terrorismo e, em menor número, de apoio incondicional à liberdade de expressão e de imprensa.

Há 50 anos era a figura "sagrada" de De Gaulle e a utilização do humor em torno da sua morte a suscitar o escândalo e mobilizar os adeptos da censura como regulação da liberdade de expressão. 50 anos volvidos, outros defensores da proibição sobem ao palco para dizer que "foram longe de mais", "tiveram o que mereceram" e "deviam moderar-se" (onde é que eu já ouvi isto?)!

Em todos os países onde as religiões tiveram ou têm influência na vida pública, a caricatura do "sagrado" sempre mobilizou as forças mais conservadoras. Em 1992, uma caricatura de António retratando João Paulo II com um preservativo no nariz, chegou a ser discutida no Parlamento, com alguns a defender a sua proibição. O mesmo António, desta vez graças a uma caricatura em que Donald Trump retratado como cego, era guiado por um cão com a cara de Netanyahu, viu-se novamente no centro da polémica que ditou o fim da publicação de caricaturas no The New York Times.

O poder do humor, e da sátira em particular, é o de abalar certezas, de questionar fazendo rir e refletir. O desenho satírico utiliza a ridicularização e a provocação como forma de chamar a atenção para uma situação que merece crítica e, muitas vezes requer mudança. Algumas caricaturas perduram e tornam-se mesmo símbolos nacionais. O Zé Povinho, que nasceu da pena de Rafael Bordalo Pinheiro como crítica ao saque a que o povo português era sujeito pelo poder da altura (1875) em matéria de impostos, é disso exemplo. O que provoca escândalo em determinadas épocas pode assim transformar-se em algo de institucional.

É claro que nem todo o humor ou sátira são merecedores de aplauso ou de gargalhada. Não rimos todos do mesmo, nem sequer somos capazes de rir de tudo. O modo como encaramos o humor depende antes de mais do estado emocional e psíquico, para além da nossa formação e convicções. Rir de nós próprios, também não está ao alcance de todos...

Mas não é porque não achamos piada a algo ou alguém que a proibição deve ser defendida, sobretudo quando se trata de desenho satírico em publicações jornalísticas. Ainda que choque, provoque ou insulte! O que não quer dizer que não se possa criticar a sátira e o humor, ou sequer que se defenda a liberdade de expressão absoluta. Mesmo os editores do Charlie Hebdo sempre deixaram bem claro que a liberdade de expressão não justifica a propagação da violência, do racismo ou do fanatismo.

Por isso continuo a dizer: "Je suis Charlie"! E venham mais 50 anos!

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