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Pandemia de Covid-19 já está a fazer crescer pedidos de apoio psicológico
Sociedade 10 min. 25.03.2020

Pandemia de Covid-19 já está a fazer crescer pedidos de apoio psicológico

Pandemia de Covid-19 já está a fazer crescer pedidos de apoio psicológico

Foto: Shutterstock
Sociedade 10 min. 25.03.2020

Pandemia de Covid-19 já está a fazer crescer pedidos de apoio psicológico

Ana TOMÁS
Ana TOMÁS
A saúde mental é mais uma das preocupações colaterais do combate ao novo coronavírus. Ao Contacto, a Ligue Luxembourgeoise d’Hygiène Mentale dá conta de uma subida do número de pedidos de assistência de pessoas mentalmente vulneráveis e antecipa um agravamento com o confinamento, com consequências que durarão para lá da pandemia.

O combate ao Covid-19 já está a ter impacto naqueles que sofrem de problemas psicológicos ou distúrbios mentais. 

Segundo Barbara Bucki, psicóloga do Serviço de Informação e Prevenção da Ligue Luxembourgeoise d’Hygiène Mentale (LLHM), as medidas de emergência, o confinamento e as implicações de sociais e económicas de se mandarem para casa milhares de pessoas começam a refletir-se num crescimento da procura de ajuda psicológica, que está apenas no início. 

 "O número de pedidos de assistência de pessoas [mentalmente] vulneráveis já começou a aumentar. E a extensão do confinamento pode fazer crescer ainda mais o número de pessoas em perigo", diz ao Contacto, sem adiantar números concretos. 

 Nos primeiros dias da epidemia - agora pandemia -, a LLHM não registou um número de pedidos de apoio ou aconselhamento muito diferente do habitual, a não ser em "certas pessoas com sintomas hipocondriais", explica Barbara Bucki.  

"No entanto, estamos apenas no seu início e a pandemia será gerida durante um longo período de tempo", avisa a especialista, antecipando que "o período pós-epidémico também terá a sua quota-parte de surpresas, sendo de esperar consequências a médio e longo prazo". 

No Luxemburgo, as regras de confinamento vão durar, pelo menos, três meses, anunciou hoje o primeiro-ministro, Xavier Bettel.

 As consequências apontadas por Barbara Bucki já estão a ser estudadas por investigadores chineses, que tentam compreender o impacto do novo coronavírus e dos confinamentos por ele gerados na saúde mental dos cidadãos. Dos estudos realizados ressaltaram várias conclusões que apontam para sintomas como ansiedade, depressão, ataques de pânico e até stress pós-traumático como resultado desses isolamentos ou quarentenas, quer sejam forçados, quer sejam profiláticos. 

 Os efeitos da epidemia na saúde mental começam também a ser abordados pelos governos nas políticas de saúde pública relacionadas com a Covid-19. 

Esta quarta-feira, o executivo português, por exemplo, anunciou que está a ser “preparada uma resposta ao nível da saúde mental", desde logo para os profissionais de saúde, numa altura em que o país se prepara para entrar no período mais crítico de combate à pandemia. A fase de mitigação entra em vigor a partir da meia noite de quinta-feira. 

Foto: Guy Wolff/ Luxemburger Wort

 

Medidas restritivas que desorganizam a vida diária 

 O distanciamento social, o isolamento e a quarentena, ainda que em alguns casos correspondentes a grupos populacionais e a situações de exposição ao vírus, têm produzido alterações significativa à vida como a conhecemos. E isso tem consequências psicológicas mais ou menos visíveis e mais ou menos acentuadas, que se irão reforçar com o tempo de implementação das medidas restritivas impostas pelos estados para conter a propagação. 

 "Num esforço para conter a propagação do vírus, os governos têm encorajado a população em geral a aplicar o que é conhecido como distanciamento social. O objectivo é evitar, tanto quanto possível, uma interacção próxima com outros. Isto começou com o encerramento das escolas e depois gradualmente com o parar de trabalhar em condições normais, com o maior número possível de trabalhadores a serem encorajados a teletrabalhar. Cerimónias foram canceladas e o termo contenção passou a ser usado - até mesmo o hashtag #stayhome e outros dissuasores [da circulação nas ruas], como multas para os infratores dessas regras de saúde pública", assinala Barbara Bucki, lembrando também as barreiras físicas do contacto e dos gestos, comuns entre nos relacionamentos entre as pessoas. 


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A psicóloga reconhece que "estas medidas são restritivas e desorganizam a nossa vida diária" e que, por isso, "levam a muitas reacções emocionais e psicológicas". 

Por isso, elenca algumas das que poderão surgir com frequência nesta fase: 

- Ansiedade ligada ao nosso estado de saúde: ao menor sintoma, algumas pessoas temerão ter sido infectadas. A ausência de testes sistemáticos pode fazer com que este medo persista; 
- Ansiedade relacionada com o medo de potencialmente infectar outras pessoas. - Medo de ser afastado do local de trabalho, perda de rendimentos, insegurança no trabalho.
 - Medo de ficar sem mantimentos (o que foi perceptível nas correrias aos supermercados).
 - Preocupação com a necessidade de cuidar das crianças. - Incerteza quanto à duração desta situação.
- Solidão induzida pelo confinamento, que implica uma ruptura das relações sociais directas e das actividades sociais. E aqui há uma grande disparidade entre pessoas que têm grandes habitações com jardins e as que estão confinadas a pequenos apartamentos.
 - Raiva de estar confinado.
 - Tédio e frustração, face a uma situação nunca vista antes e que está a mudar profundamente a nossa vida quotidiana.
- Para algumas pessoas, isso pode levar um desejo de consumir álcool ou drogas para lidar com a situação.
- Podem instalar-se ou até piorar sintomas de depressão: negatividade, desespero, distúrbios do sono, mudanças de apetite ...
- Sintomas de transtorno de stress pós-traumático, como memórias que causem ansiedade, pesadelos ou reações exacerbadas.

Apesar disso, há algumas "estratégias de sobrevivência" de que as pessoas se podem socorrer para se protegerem mentalmente e lutarem contra o stress ou o pânico causados por este contexto inédito na história recente da humanidade. 

"A primeira coisa que acho importante é a gestão da informação", defende Barbara Bucki, numa posição também já partilhada ao Contacto pela Ordem dos Psicólogos de Portugal

A especialista do Serviço de Informação e Prevenção da Ligue Luxembourgeoise d’Hygiène Mentale assinala a importância de se estar "bem informado sobre a situação actual e a sua evolução", mas recorrendo "a informação fornecida na televisão, na imprensa, nos canais de notícias e em declarações oficiais, e evitando a "multiplicidade de fontes mais ou menos válidas, que são partilhadas em massa através das redes sociais". E como o "coronavírus está em todo o lado, o tempo todo", a exposição prolongada à informação, mesmo a fidedigna pode originar ansiedade. "Ainda mais nesta situação em que a cada dia o número de mortes aumenta, e são declarados estado de emergência ou crise sanitária", ilustra. 

 A psicóloga aconselha que as pessoas reservem um ou dois momentos do seu dia para se informarem, selecionando as fontes mais credíveis e oficiais. 

Outra das ferramentas fundamentais para combater a sensação de isolamento e evitar criar mais ansiedade é manter o contacto com os amigos e familiares próximos, usando as tecnologias de comunicação à distância (telefone, internet, telemóvel). 

"Trocar mensagens, rir, contar histórias e ouvir permite-nos manter uma ligação social. Muitas actividades podem ser levadas a cabo à distância. Depois das reuniões ou cursos em videoconferência começam a surgir as reuniões familiares em videoconferência", exemplifica. 


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 Nem todos terão tempo a perder, mesmo estando em casa, porque o teletrabalho, somado ao cuidado e apoio dos filhos e às tarefas domésticas, não deixa margem para grande folga ou sentimentos de tédio. Aí haverá uma rotina a manter por força das tarefas que se acumulam. Mas para outras pessoas, que tiveram de parar de trabalhar, também "é importante manter, tanto quanto possível, um ritmo de vida estável com um despertar regular, e uma hora para dormir e para comer". 

 "Pode pensar-se em organizar um horário para a semana com tarefas a serem cumpridas, possivelmente tarefas que não se tinha tempo para fazer antes. Isto permite manterem-se em acção e assim controlar os seus dias." 

Foto: dpa

 

A psicóloga alerta ainda para a necessidade de não deixar que as fronteiras da habitação esbatam as das diferentes atividades. Ou seja, é importante manter as tarefas e os tempos de descanso devidamente compartimentados, alternado "todos os dias entre trabalho, lazer, atividade física e relaxamento". 

"A desorganização é tal, para algumas pessoas, que será necessário que elas encontrem formas de prevenir ou combater o stress", diz. 

 Patologogias mentais agravadas 

 Apesar de não existirem ainda números concretos, Barbara Bucki admite um agravamento de sintomas e do estado psicológico nas pessoas que já sofrem de algum tipo de distúrbio mental.


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"A pandemia que estamos a atravessar pode, de facto, piorar o estado psicológico daqueles que já são vulneráveis, daí a importância de manter contacto não só com a família e amigos, mas também com o prestador de cuidados. E mesmo durante um período de confinamento, qualquer pessoa que sinta desconforto ou piora dos sintomas habituais não deve hesitar em consultar um profissional", apela a especialista. 

 A família também pode ter um papel crucial nesse aspeto, mesmo que à distância. "Será uma questão de manter o vínculo, de cuidar da pessoa em questão, de tentar identificar se os sintomas se agravaram", afirma, deixando algumas recomendações de como ajudar, nessa circunstância. 

Foto: AFP


"Se o ente querido lhe parece em pânico ou em desespero, as regras básicas que se devem aplicar são: não julgar, não se preocupar, mas escutar atentamente e enquadrar medos infundados apresentando factos". 

 Em caso de dúvida ou de a ajuda familiar não ser suficiente, deve-se encaminhar a pessoa para uma apoio técnico, junto de profissionais de saúde mental, que façam consultas à distância. 

 Poucos recursos para pedidos que se avizinham crescentes 

 O setor da saúde tem-se debatido com poucos recursos, humanos, materiais e financeiros, para fazer face às exigências de combate à Covid-19. A Ligue Luxembourgeoise d'Hygiène Mentale não é exceção e, embora se vá impondo uma resposta psicológica maior aos problemas mentais que começam a aumentar com a pandemia, não está previsto para já um reforço dos meios. 


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"Devido ao financiamento limitado, o serviço de tratamento da Liga não tem a possibilidade de aumentar os seus recursos humanos. Por outro lado, é necessário encontrar soluções para se adaptar às novas regras em vigor. Assim, é sistematicamente proposto um acompanhamento remoto por telefone para evitar um espaçamento de consultas", explica Barbara Bucki. 

 A hotline 8002 8080, que no início de março já estava a receber mais de 300 chamadas por dia, é uma linha direta, gerida 24 horas por dia por membros do pessoal administrativo da CGDIS, voluntários do Grupo de Apoio Psicológico, operadores da CSU-112 e um profissional do Ministério da Saúde do Luxemburgo, que continua atender e a esclarecer as dúvidas daqueles que precisem. 

No entanto, a grande maioria das perguntas feitas nas últimas semanas são respondidas na FAQ da COVID, que é regularmente atualizada, nos sites das entidades oficiais, que pedem para que a linha não seja sobrecarregada com essas questões. 

Foi entretanto criada uma linha (8002 9090), pelo Ministério da Educação, para prestar auxílio nas aulas em casa, que além de professores conta também com a colaboração de psicólogos, disponíveis para prestar conselhos e apoio. Além da linha, há também um endereço de email: www.schouldoheem.lu 

 Nas ruas, a Cáritas do Luxemburgo vai ter psicólogos integrados nas equipas de ajuda aos sem-abrigo, refugiados e pessoas em situação mais precária. 

"Esta crise exige que todos nós sejamos mais solidários que nunca", lembra Marie-Josée Jacobs, presidente da Cáritas do Luxemburgo. 

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