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"Pai, não tenho nada para fazer"
Opinião Sociedade 3 min. 13.07.2022
Andamos todos ao mesmo

"Pai, não tenho nada para fazer"

Andamos todos ao mesmo

"Pai, não tenho nada para fazer"

Foto: Reinaldo Rodrigues
Opinião Sociedade 3 min. 13.07.2022
Andamos todos ao mesmo

"Pai, não tenho nada para fazer"

Paulo FARINHA
Paulo FARINHA
Os queixumes incluem também “estou entediada” e “isto é tão chato”. As minhas filhas de 8 e 9 anos não são caso raro de aborrecidite, essa maleita que ataca as crianças habituadas a muitos estímulos. E eu não sou caso raro no revirar de olhos de cada vez que elas chegam com esta conversa.

A frase do título não é nova e costuma chegar em jeito de lamúria. Um lamento prolongado e sofrido, como se estivessem desidratadas e a sofrer horrores na longa travessia do deserto da falta de atividades. De há uns tempos a esta parte, os queixumes passaram a incluir também “pai, estou entediada” e “pai, isto é tão chato”.

As minhas filhas de 8 e 9 anos não são caso raro de aborrecidite, essa maleita que ataca as crianças habituadas a muitos estímulos. E eu não sou caso raro no revirar de olhos de cada vez que elas chegam com esta conversa. Nestes tempos de hiperestimulação infantil, com mil e uma atividades para onde podem canalizar a atenção, vai crescendo o número de pais que tem de respirar fundo e contar até dez quando os filhos fazem a mesma queixa pela décima vez no espaço de uma hora.

Claro que isto é mais grave e difícil de aturar quando estamos na estrada há três horas, numa viagem que nunca mais acaba, e as crianças estão no banco de trás a chagar-nos a cabeça, repetindo constantemente que "isto está a ser uma seca", "não há nada divertido para fazer", "seria muito melhor se pudéssemos usar o tablet" e "espero bem que haja wifi na casa alugada".

Nessa altura, claro, é provável que eu e todos os pais que reviram olhos soltemos dois ou três palavrões para dentro (ou para fora), seguido do desabafo clássico: "cambada de crianças mimadas". E logo pensamos que dantes não havia internet e não havia telemóveis e não havia televisão e não havia tantos jogos e não foi por isso que não crescemos bem. E lembramos que tivemos infância e fomos felizes e não nos queixávamos tanto. Certo?

Bom, mais ou menos. Tudo isso é verdade, mas tenho alguma dificuldade em diabolizar a oferta toda de hoje e defender que antigamente é que era bom. Antigamente também não havia vacinas, nem cuidados de saúde para todos, nem telefones, nem automóveis, nem sequer estradas. Antigamente muitas crianças iam trabalhar depois de fazer a quarta classe e algumas nem isso. Antigamente não se vivia melhor com menos. Antigamente apenas havia menos. E era com isso que se vivia.  

Quase tudo o que temos a mais hoje existe para nos facilitar a vida. Mesmo que isso implique alguns efeitos secundários, como esse de ter os filhos a queixarem-se a torto e a direito. O telemóvel facilita-nos a vida. A televisão facilita-nos a vida. O computador facilita-nos a vida. A internet facilita-nos a vida. E mesmo quando eles estão agarrados a alguma destas coisas e nós achamos que tanto écran não lhes faz bem, aí também podemos pensar que aquilo nos facilita a vida. A nós. Porque enquanto estão entretidos, nós ganhámos tempo precioso. Em que não precisámos de pensar em brincadeiras para eles. Em que pudemos fazer o jantar sossegados. Em que pudemos colocar o trabalho em dia. Em que pudemos relaxar e beber um copo de vinho e respirar fundo e pensar na vida.

Por isso, da próxima vez que os vossos filhos se queixarem de tédio neste mundo com tanta coisa para fazer, lembrem-se que parte daquele lamento é culpa vossa. E deste mundo onde é mais fácil viver hoje. E depois relaxem. E agradeçam. E contem até dez e desvalorizem os queixumes deles. Ainda bem que o podem fazer. É sinal que têm várias atividades à escolha e vocês podem proporcioná-las. Não se ralem muito. Mais cedo ou mais tarde eles vão ter filhos e os vossos netos vão queixar-se do mesmo.

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