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Oxford produz vacina experimental com resultados promissores
Sociedade 4 min. 20.07.2020

Oxford produz vacina experimental com resultados promissores

Oxford produz vacina experimental com resultados promissores

Foto: AFP
Sociedade 4 min. 20.07.2020

Oxford produz vacina experimental com resultados promissores

Numa experiência com mil pessoas, a injeção contra a covid-19, a partir de uma investigação com chimpanzés, resultou numa forte resposta imunitária.

Com um planeta inteiro à espera de uma vacina que devolva a normalidade ao dia-a-dia, sobe a expetativa com os resultados positivos da experiência realizada pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Esta é uma das investigações mais avançadas e resultou numa forte resposta imunitária sem causar efeitos adversos graves, segundo dados de um primeiro ensaio em humanos, publicados esta segunda-feira na revista médica The Lancet. 

De acordo com o El País, as provas começaram em abril e envolveram mais de mil voluntários sem qualquer vestígio da doença no Reino Unido. A vacina experimental é feita a partir de uma versão enfraquecida de um adenovírus do resfriado comum dos chimpanzés. O vírus é geneticamente modificado para evitar a sua multiplicação e para adicionar genes com as instruções para fabricar apenas as proteínas da espícula do coronavírus, que servem uma chave para entrar nas células humanas. Essas proteínas geradas pela vacina fortalcem o sistema imunológico e, como mostram os novos resultados, produzem uma barreira dupla: anticorpos neutralizantes, que bloqueiam as partículas exteriores, e linfócitos T, um tipo de glóbulo branco que destrói as células infetadas. Estas defesas foram mantidas quase dois meses após o início do estudo.

O objetivo deste primeiro ensaio com mais de mil pessoas de 18 a 55 anos foi descartar possíveis efeitos adversos graves, ajustar a dose e medir a resposta imunológica gerada pela vacina. A Universidade de Oxford e a empresa farmacêutica britânica AstraZeneca já iniciaram um ensaio final com dezenas de milhares de pessoas para certificar que a vacina é realmente segura e previne a doença. O projeto começou com um ensaio com cerca de 15 mil pessoas no Reino Unido mas a atual escassez de infeções na região torna difícil provar que a vacina protege. Oxford anunciou outro ensaio com 5 mil voluntários no Brasil e outro com 2 mil na África do Sul.

"Graças ao trabalho anterior nesta área e aos esforços dos colegas em Oxford, conseguimos concentrar consideravelmente o nosso tempo no desenvolvimento de uma vacina, reduzindo para três meses o prazo de cinco anos em condições normais", afirmou Sarah Gilbert, responsável pela investigação juntamente com Adrian Hill, em abril. Os três filhos de Gilbert, trigémeos de 21 anos que estudam bioquímica, participaram dos primeiros ensaios da vacina experimental da sua mãe, sublinhou o professor de Oxford em recente entrevista à Bloomberg Businessweek.

"Ainda há muito trabalho a ser feito antes que possamos confirmar que a nossa vacina ajudará a enfrentar a pandemia de covid-19, mas estes resultados iniciais são promissores", reconheceu Gilbert numa declaração esta segunda-feira. A investigadora e sua equipa reconhecem as limitações do seu estudo: não inclui pessoas idosas ou pacientes com outras doenças relevantes ou populações diversas de diferentes países. Noventa e um por cento dos 1.077 participantes neste primeiro ensaio eram brancos, com uma média de idade de 35 anos. Os testes que estão agora a ser conduzidos com dezenas de milhares de pessoas procuram resolver essas deficiências. 

Gilbert também admite outras lacunas importantes. "Ainda não sabemos quão forte tem de ser a resposta imunitária para assegurar uma protecção eficaz contra a infecção pelo SRA-CoV-2", destacou. O vírus já não é o mesmo que se espalhou pelo mundo a partir da cidade chinesa de Wuhan. A variante original foi substituída em quase todo o planeta por outra com uma mutação caraterística que, de acordo com alguns estudos preliminares, poderia aumentar a carga viral nos pacientes. "O que é alarmante é que se os níveis do vírus forem muito mais altos, as vacinas precisariam gerar níveis mais altos de anticorpos. E isso pode ser um grande problema", acrescentou o biólogo espanhol David Pulido Gomez, que está também em Oxford no desenvolvimento da vacina, a ao El País no princípio de julho.

A própria farmacêutica AstraZeneca reconhece que a vacina pode não funcionar, mas já se comprometeu a fabricar mais de duas mil milhões de doses, com 400 milhões de doses para a UE, a chegar no final deste ano. A empresa - que é responsável por medicamentos como o omeprazol, que trata a azia - disse que tornará a vacina disponível sem procurar ganhos financeiros.

Os primeiros ensaios da vacina experimental de Oxford em macacos tinham produzido resultados agridoces. Os macacos vacinados e posteriormente infetados não desenvolveram pneumonia, mas tinham o vírus na garganta, o que poderia significar que a vacina previne as formas mais graves da doença, mas não a sua transmissão. O veterinário espanhol Javier Salguero, que participa nos ensaios com macacos na agência governamental de saúde pública Public Health England acredita que este efeito observado nos macacos pode ser devido ao desenho das experiências, que são muito diferentes das condições do mundo real. Os animais são inoculados com o coronavírus em doses muito elevadas e por múltiplas vias. "A proteção total neste modelo animal é muito difícil de se conseguir, mas pode ser conseguida em humanos. As pessoas não estão infetadas com doses muito altas ou por via intratraqueal", explicou Salguero em entrevista ao El País.

A vacina experimental de Oxford é uma dos 23 diferentes já testadas em humanos em todo o mundo, de acordo com o registo da OMS. 

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