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Ouvem a rua?
Opinião Sociedade 3 min. 05.05.2021

Ouvem a rua?

Ouvem a rua?

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 05.05.2021

Ouvem a rua?

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Eu não queria ser jovem na Europa de hoje.

Paris: uma multidão desce os boulevards haussmannianos com slogans e cartazes de protesto. Seria uma cena comum em França não fora pelas dimensões das manifestações – mais de 20 000 pessoas na capital, 150 000 em todo o país – e pela ferocidade da resposta policial aos actos violentos que uns poucos sempre provocam. Às montras de bancos estilhaçadas e caixotes de lixo incendiados, os soldados do Estado responderam com bastonadas, gás lacrimogéneo e granadas de fragmentação (em vez de schrapnel, estas têm dentro bolas de borracha destinadas a apenas ferir, sem matar).

Berlim: a manifestação sobe rapidamente de temperatura quando os 5600 polícias começam a "controlar" os 15 mil que se juntam para reinvidicar o 1 de Maio. Bastões de um lado, projécteis do outro, fogueiras ateadas em Neukölln, a contestação está na rua.

Madrid e cada uma das 70 maiores cidades espanholas: um milhar de pessoas seguindo o distanciamento social veio para as ruas apresentar um longo rol de preocupações – a precaridade permanente, a desigualdade instalada, as enormes incertezas que nos corroem – muito agravadas pelo coronavírus.

Londres: milhares caminharam pelas artérias do poder na (até agora) maior das manifs "Kill the Bill" – a intenção é parar a lei draconiana que o governo prepara para dar mais poderes à polícia (esmagar protestos, vigiar cidadãos, etc).

A rua tem muitas razões para gritar alto: um modelo de trabalho tornado obsoleto e desumano, os trabalhadores mais uma vez a serem obrigados a pagar o grosso da crise, as medidas arbitrárias e ineficazes contra a pandemia, o autoritarismo crescente do Estado. No fundo, a revolta é contra as situações sanitária e social – ambas alarmantes. Vemos e sentimos o empobrecimento rápido e (quase...) generalizado da sociedade em que vivemos.

1 de Maio foi dia de desafiar o status quo, e isso aconteceu por toda a Europa, até no pacato Grão-Ducado (em Esch). Mas a repressão mais dura nem aconteceu numa manifestação, e sim em uma festa. Uma multidão de sub-35 anos – os mesmos que sofreram 80% dos empregos perdidos durante a pandemia – juntou-se a fumar e beber num parque de Bruxelas. E tal como há um mês, a máquina repressiva do Estado atirou-lhes com tudo: centenas de polícias de choque, bastões, drones, canhões de água, petardos e gás lacrimogéneo.

Eu não queria ser jovem na Europa de hoje. A gerontocracia negou-lhes tudo: educação acessível, emprego, perspectivas de futuro e de obter o seu espaço, a sua casa, os seus bens essenciais. E de sobra ainda lhes estragámos completamente o planeta. Agora reprimimos, e deprimimos, o que restava: a liberdade de movimentos, a possibilidade de viver sem culpa e de cabeça erguida, a simples alegria de existir. Não há qualquer tolerância. Não há políticas contra o desemprego jovem. Se nem a vacinas têm direito!

Perante a incompreensão, o desprezo e a soberba dos velhos sólida e confortavelmente instalados no topo da pirâmide económica, há uma geração perdida que vai começar a revoltar-se contra o beco sem saída onde a meteram. E vão ser precisos cada vez mais camiões de água e bastões para os calar.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).


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