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A brasileira que cumpre o sonho de ser enfermeira aos 40 anos no Luxemburgo
Sociedade 6 min. 07.12.2022
História de vida

A brasileira que cumpre o sonho de ser enfermeira aos 40 anos no Luxemburgo

Thalyta está no 2º ano do curso de enfermagem do Liceu Técnico para Profissões de Saúde, na capital do Luxemburgo.
História de vida

A brasileira que cumpre o sonho de ser enfermeira aos 40 anos no Luxemburgo

Thalyta está no 2º ano do curso de enfermagem do Liceu Técnico para Profissões de Saúde, na capital do Luxemburgo.
Foto: António Pires
Sociedade 6 min. 07.12.2022
História de vida

A brasileira que cumpre o sonho de ser enfermeira aos 40 anos no Luxemburgo

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
Aos 38 anos, Thalyta, brasileira radicada no Luxemburgo é a prova que não há idade para realizar sonhos. Está a frequentar o curso de enfermagem, onde é a aluna mais velha da turma, e a segunda melhor. Um relato de inspiração, fé e malabarismos para conciliar os estudos, com a casa e os três filhos.

Há quatro anos, Thalyta Lavinas decidiu voltar a estudar, aos 34 anos, para cumprir o sonho da adolescência: ser enfermeira. Casou-se nova e tem três filhos, Thales, 19 anos, Eduarda, 15 anos, e Joana, de 10 anos. “A minha primeira ambição foi ser mãe e cuidar dos meus filhos, pelo que adiei o sonho da enfermagem”, diz a mãe “galinha” enquanto prepara o jantar para a família, na casa em Womerlange, depois de um intenso dia de estágio no hospital, antecedido por uma longa noite de estudo, em que apenas dormiu hora e meia.

Thalyta está no 2º ano do curso de enfermagem do Liceu Técnico para Profissões de Saúde (LTPS), na capital. Aos 38 anos, faz as 24 horas do dia esticarem para conseguir gerir tudo. Tem a “preciosa” ajuda do marido e dos filhos, mas entre as tarefas da casa, as aulas no liceu, as atividades das filhas, o estágio no hospital e as limpezas que faz numa casa particular, os trabalhos e o estudo do curso, tudo se resume a uma roda viva, bem organizada.

Thalyta é a aluna mais velha do curso de enfermagem e a segunda melhor da turma.
Thalyta é a aluna mais velha do curso de enfermagem e a segunda melhor da turma.
António Pires

É assim o seu quotidiano desde há dois anos, quando depois de dois anos a terminar o secundário, entrou para o primeiro ano do curso de enfermagem, com equivalência ao do ensino superior. As aulas deixaram de ser à noite passando para o horário diurno. Mas, nem uma queixa sai desta mãe estudante, bem disposta, ativa e com grande força de vontade. Os filhos estão orgulhosos e as mais pequenas “acham o máximo eu estar na escola e a estudar como elas”.

A sua vida sempre foi gerida por prioridades familiares: constituir família, ter filhos, ensinar-lhes a ser independentes e apoiar o marido na realização dos seus sonhos. Para Leandro jogar futebol na Europa, a família deixou o Brasil e emigrou para Portugal, seis anos depois mudaram-se para o Luxemburgo, já lá vão 12 anos. Eduarda nasceu em Portugal e Joana, no Grão-Ducado.

Com os filhos já mais crescidos, Thalyta voltou a sonhar em ser enfermeira. Em julho de 2018 teve uma reunião com o diretor do liceu para começar a estudar no ano letivo seguinte. “Só que não havia alunos suficientes para constituir uma turma francófona para alunos que desejavam seguir profissões de saúde. Fiquei triste, mas inscrevi-me na mesma”, recorda Thalyta crente que a fé move montanhas.

Os meus colegas têm no máximo a idade do meu filho mais velho, e chamam-me mamanzita

Thalyta Lavinas

O sonho ficou a marinar. “Pensei: eu sou feliz e tenho uma boa vida, gosto do meu trabalho, a cuidar de duas crianças numa casa particular, durante a tarde, e a fazer limpezas noutra casa, de manhã. A nossa vida é boa, trabalhamos muito, mas vivemos bem. Se estiver destinado, irei fazer o curso e tornar-me enfermeira, se não estiver destinado, assim seja”. 

O regresso à escola

Em agosto, recebe uma carta inesperada do liceu: “Em dois meses, houve mais pedidos de alunos iguais ao meu e o liceu constituiu uma nova turma francófona. As aulas começavam em setembro! Um milagre de Deus! O que eu chorei de alegria”.

E, assim Thalyta voltou ao liceu, sendo a aluna mais velha do curso de enfermagem da LTPS. “Os meus colegas têm no máximo a idade do meu filho mais velho, e chamam-me mamanzita”, conta a rir, realçando que os professores admiram o seu “empenho e força de vontade”. 

Sou a segunda melhor aluna da classe e, todos me respeitam muito. Já houve três colegas que pensaram em desistir, dizendo que era muito difícil e eu convenci-os a continuar

Thalyta Lavinas

“Sou a segunda melhor aluna da classe e, todos me respeitam muito. Aliás, já houve três colegas que pensaram em desistir, dizendo que era muito difícil e eu convenci-os a continuar. Dou sempre o meu exemplo, estudar na minha idade com todas as outras responsabilidades familiares é que é difícil. Até os convido a passarem um dia comigo para ver se a vida deles é assim trabalhosa”.

Também no hospital onde está a realizar o estágio, “toda a gente se surpreende quando digo a minha idade. Uma estagiária de enfermagem com 38 anos e mãe de três filhos”. Thalyta conta a história e elogiam-na pela força de vontade e dedicação.  

Nos dois anos do secundário, Thalyta conseguiu continuar a trabalhar de dia e assistir às aulas à noite, mas no curso de enfermagem o horário é diurno. “Ou estudava, ou desistia e continuava a trabalhar. O meu marido deu-me todo o apoio e reorganizámos a nossa vida para conseguirmos viver sem o meu salário, e continuar a pagar as contas”.

Como a casa que compraram em Womerlange “é grande” decidiram aproveitar a sua disposição, e com a ajuda de amigos construiram um apartamento e um estúdio, com entradas independentes que estão alugados. “Tínhamos dois carros e uma mota e agora só temos um carro que dividimos”. Para conseguir um dinheiro extra, Thalyta continua a fazer limpezas e a cuidar da roupa de uns antigos patrões.

Aos 34 anos, esta mãe de três filhos voltou para a escola para realizar o sonho de ser enfermeira.
Aos 34 anos, esta mãe de três filhos voltou para a escola para realizar o sonho de ser enfermeira.
António Pires

Primeiro, foi o sonho do marido

O casal conheceu-se no Rio de Janeiro, de onde são naturais. Leandro sonhava com uma carreira no futebol europeu e conseguiu um contrato com um clube de Albufeira, Algarve, da liga regional. “Fomos para Portugal onde nos casámos, eu tinha 21 anos, e onde nasceu a Eduarda. Tínhamos uma casa junto à praia e uma boa vida. Nas férias de verão continuamos a ir para Albufeira e um dia voltaremos de vez para lá”. 

Para consolidar a carreira, o marido quis ir jogar para o estrangeiro, para um clube na Europa, começou a fazer contactos, e a família que o apoiou totalmente acabou a mudar-se para o Luxemburgo. Na bagagem levaram um contrato com um clube da última divisão, e promessa de trabalho para os dois.

Espero poder inspirar as pessoas a nunca desistirem dos sonhos, seja qual for a idade. Não é fácil, é necessário muito sacrifício mas é possível

Thalyta Lavinas

Só que quando chegaram ao Luxemburgo, Leandro e Thalyta não tinham um emprego à sua espera. “Graças à ajuda do treinador do clube, o meu marido começou a fazer biscates e eu a fazer limpezas. Sempre acreditámos que ia dar certo, que íamos ser felizes no Luxemburgo”, frisa Thalyta. 

Durante os primeiros três meses viveram no único apartamento de um prédio abandonado, “sem aquecimento, a dormir no chão, e com muita ajuda do treinador”. Depois as coisas melhoraram. “Empenhámo-nos a fundo em construir a nossa vida aqui, e tínhamos muita fé de que iria dar certo. E deu”.

Comunicadora nata, a estudante decidiu falar sobre a reviravolta da sua vida para perseguir uma paixão e tornou-se uma “blogueira”: “Tenho um canal no Youtube e conta no Instagram onde falo sobre o meu dia a dia, como ser estudante no Luxemburgo e como é aqui a vida, respondendo às muitas questões que me colocam. Nos intervalos da escola, faço vídeos, tal e qual como os meus colegas jovens”, realça a rir.  

Daqui a dois anos, Thalyta termina o curso recebendo o diploma de enfermeira aos 40 anos. “Espero poder inspirar as pessoas a nunca desistirem dos sonhos, seja qual for a idade. Não é fácil, é necessário muito sacrifício mas é possível. Não nos podemos focar no caminho, mas sim no destino final”.

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