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"Os portugueses no Luxemburgo relatam mais stress e ansiedade no quotidiano"
Sociedade 10 min. 05.11.2020 Do nosso arquivo online

"Os portugueses no Luxemburgo relatam mais stress e ansiedade no quotidiano"

"Os portugueses no Luxemburgo relatam mais stress e ansiedade no quotidiano"

Foto: DR
Sociedade 10 min. 05.11.2020 Do nosso arquivo online

"Os portugueses no Luxemburgo relatam mais stress e ansiedade no quotidiano"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A pandemia trouxe ansiedades e medos aos portugueses no Luxemburgo. Estas são as primeiras conclusões de um estudo sobre as consequências psicológicas da covid-19 na comunidade lusa realizado pelo psicólogo Miguel Silva.

Permitir e aceitar, estas são as duas palavras-chave nesta pandemia para conseguir controlar ansiedade declara o psicólogo Miguel Silva com consultório em Troisvierges. Perante a destabilização na vida quotidiana gerada pela pandemia este português decidiu estudar as consequências da covid-19 na comunidade portuguesa do Luxemburgo, como forma de poder colmatar as necessidades dos portugueses residentes no país. O estudo ainda está a decorrer, mas os primeiros resultados já dão que pensar. Nesta entrevista, este especialista aconselha as pessoas a praticar meditação ou tão simplesmente a concentrarem-se uns minutos na sua bebida de chá. Técnicas simples, mas que ajudam muito a combaterem o cansaço e o stress. E a desabafar com alguém as suas emoções e pensamentos. Uma partilha muito positiva nesta pandemia que deixa os portugueses preocupados, consigo próprios e com os seus filhos.

Como surgiu a ideia de realizar este estudo sobre as Consequências Psicológicas da covid-19 na Comunidade Portuguesa?

Este estudo surgiu com as vivências que fui tendo, com as notícias que foram surgindo e pelo que fui observando nas pessoas à minha volta que foram desenvolvendo comportamentos de ansiedade e pensamentos acelerados. “Será que isto nunca vai ter fim?”, “O que vai acontecer?, “Se ficar afetado como vai ser?, foram alguns dos desabafos de amigos, e eu quis analisar as estratégias de coping que as pessoas utilizam, ou seja, os seus esforços cognitivos e comportamentais para fazer face à pandemia, que lições tiram, e estudar as consequências psicológicas da covid-19. Decidi escolher a comunidade portuguesa aqui residente para o meu estudo pela sua dimensão e para me sentir mais próximo de casa.

O estudo está a ser feito através de um questionário online. Quando foi lançado e quantas pessoas já responderam?

Foi lançado a 13 de abril, na minha página do Facebook (@Cabinetdepsychologielux), ainda está disponível e continuo a receber respostas. Até ao momento, responderam 73 pessoas, pelo que ainda é uma amostra pequenina face ao número de portugueses aqui no Luxemburgo, do ponto de vista estatístico não consigo ainda tirar conclusões.

Quantas respostas precisa ter?

Do ponto de vista estatístico houve 8800 pessoas que já visualizaram o questionário, se 5000 respondessem seria ótimo, seria uma amostra estatística mais significativa. Gostava por isso de convidar os portugueses, para se tiverem possibilidade de responder ao questionário, eu agradeço, para obter uma amostra viável para o estudo e assim conseguir colmatar as necessidades dos portugueses residentes no Luxemburgo.

Dos questionários que já tem quais são as principais consequências psicológicas apontadas pelos portugueses?  

Pelo que fui analisando existe mais stress na vida quotidiana, os portugueses relatam mais ansiedade nas situações do dia-a-dia, na lida da casa, nomeadamente as pessoas casadas, as mulheres que tem filhos e estão em teletrabalho. Quando começam a ter perceção do stress isso vai conduzir a um mal-estar e ansiedade que têm de ser trabalhados.

Miguel Silva estuda o comportamento da comunidade portuguesa do Luxemburgo em tempos de pandemia.
Miguel Silva estuda o comportamento da comunidade portuguesa do Luxemburgo em tempos de pandemia.
Foto: DR

 Como se pode combater o stress e a ansiedade?

Uma das questões que coloco no questionário é se as pessoas fazem meditação. Os portugueses no Luxemburgo não praticam muita meditação. Posso dizer que das 73 respostas, apenas dez pessoas praticam meditação. Essa meditação praticada é a meditação guiada para dormir, muitas vezes auxiliada pela rede Youtube.

É uma meditação positiva?

É positiva. De acordo com a terapia cognitivo-comportamental a regulação emocional é muito eficaz nos quadros de ansiedade gerados pelo stress. A meditação vai permitir estabilizar as emoções que precisam ser trabalhadas. Existe outra técnica nesta terapia que é a técnica do auto-apaziguamento, a concentração do aqui e agora. Muitas vezes eu peço aos meus pacientes para dedicar um momento do dia, nem que seja cinco ou dez minutos, para se concentrarem só naquilo.

Explique a técnica do auto-apaziguamento.

Por exemplo, as pessoas que gostem de chá, podem pegar no seu chá preferido, beber o seu chá e enquanto bebem sentirem o sabor, fecharem os olhos e ouvirem uma música relaxante. Esse pequeno momento de relaxamento é o suficiente para que haja uma mudança significativa.

Que outras consequências psicológicas foram reveladas?

Nos questionários, os portugueses também relataram que a situação da crise pandémica lhes provocou perturbações do sono-vigília, por exemplo, perturbação de insónia e hipersonolência, lhe trouxe sensações de insegurança, dificuldades na gestão do tempo, dificuldade em redefinir objetivos e prioridades. Quem está em teletrabalho queixou-se que trabalha mais horas. Durante o confinamento, a privação da liberdade também afetou muita gente.

Quem está em teletrabalho queixou-se que trabalha mais horas.

Falou-me também dos medos gerados pela pandemia?

Sim, e um dos maiores medos sinalizados no questionário é o de ficar infetado: “E se eu ficar contaminado e infetar os meus familiares? Como ficará a minha vida ao nível da situação financeira?” As consequências de questões familiares, o pai contaminar a esposa e os filhos, o suporte económico para a sustentabilidade da família, ou o isolamento poder ser contínuo, isto é, a pessoa testar positivo uma vez e, depois, voltar a ficar infetada e testar positivo outra vez, foram medos revelados pelos portugueses. Isto tem um impacto psicológico muito grande no quotidiano das pessoas.

As pessoas têm medo de ser infetados e reinfetadas outra vez?

Exatamente. Uma das questões que pergunto é como será o regresso à normalidade e quase todos os portugueses dizem que será lento, difícil, e nunca mais será como antes. Dá que pensar, não é?

A vida nunca mais será a mesma, dizem.

Eu diria que o regresso à normalidade nunca será o mesmo, porque ao longo desta etapa estamos sempre a criar novos significados, a isso chama-se aprendizagens, e dependendo ao não dos significados que atribuímos, estes podem ficar ou não na nossa memória. Se os valorizarmos ficam na nossa memória, se desvalorizarmos não ficam. Do que tenho observado nas respostas, as pessoas têm consciência que este é um processo lento, difícil de aceitar, mas que estes hábitos que adotámos agora vão tornar-se estáveis, por assim dizer, e falo do uso da máscara, o distanciamento, o uso do gel. Por vezes, gera-se uma certa revolta nestas pessoas que cumprem os hábitos quanto vêm outras que não cumprem e outras e isso provoca-lhes pensamentos negativos ou desajustados, levando-os a questionar-se se continuam a cumprir as regras ou desistem.

Nota diferenças nas emoções e estratégias das pessoas no confinamento e nas que têm vindo a adotar depois dessa fase até agora?

Noto diferenças sim. Ao longo desta situação pandémica, as pessoas começaram a procurar mais as consultas de psicologia, além disso as estratégicas adotadas pelas pessoas foram-se tornando mais eficazes ao longo do tempo. Após enfrentarem todo o stress no confinamento as pessoas acabaram por dar um nome às reações que tiveram, aceitaram essas reações e desenvolveram outras estratégias. Aceitar é aliás uma palavra-chave da pandemia. São duas, aliás.

Quais são as palavras-chave da crise?

Permitir e Aceitar. Devemos promover a mudança, mas temos de permitir, temos de flexibilizar o nosso pensamento para tal e depois aceitar essa mudança. Se nós aceitarmos que as restrições têm fundamento e objetivos gerais e específicos, isso vai permitir sentir a pandemia de outra forma. As pessoas vão sentir menos ansiedade.

Os portugueses possuem mais ferramentas psicológicas do que outros?

A resposta é um pouco difícil porque não tenho ainda total conhecimento das estratégias que estão a ser usadas por outras nacionalidades. Por outro lado, considero que a identificação e reconhecimento emocional das vivências desta situação pandémica permite ampliar as ferramentas seja de que nacionalidade for. Um português que fale francês ou luxemburguês ao partilhar os seus pensamentos e emoções com alguém que não é português, e essa pessoa partilhar os seus com ele, vai poder tirar outras conclusões, e deste modo permitir flexibilizar as crenças e esquemas mentais, porque estamos todos a viver a mesma situação da covid-19. A nível psicológico a experiência é diferente de pessoa para pessoa mas a situação é igual para todos.

 Como está a comunidade portuguesa a viver a pandemia?

Eu vejo a comunidade recetiva às medidas, e comparando o primeiro contacto com a pandemia e a situação atual, observo que estão mais sensíveis, que estão a aceitar as regras e já não promovem comportamentos de risco. Por exemplo, os portugueses respeitam o número máximo de pessoas numa mesa nos restaurantes que agora é de quatro, estão a respeitar o recolher obrigatório, já têm o hábito de usar de máscara, usar o gel, diria que são já comportamentos automáticos. Considero que a comunidade se adaptou bem e de forma favorável, principalmente nos últimos tempos. No meu consultório, eu já não preciso de dizer à pessoa para desinfetar, vejo que já um comportamento proativo. Claro que há sempre alguma probabilidade de haver descontentamento e vontade de o expressar de forma verbal, mas cumprem-se as regras.   

As pessoas não estão já cansadas?

Um pouco. Eu noto esse cansaço, nomeadamente, devido à incerteza de respostas no futuro. As pessoas vão trabalhar, mas sempre na incerteza do que estará para vir. “Será que vale a pena estes comportamentos?” “Será que o sacrifício valerá a pena?” São perguntas que vou ouvindo nas sessões e que nos fazem pensar. A terapia cognitivo-comportamental é uma mais- valia, pela utilização de estratégias que a pessoa promove ao nível dos pensamentos, porque vai ajudar e permitir alterar o conteúdo do pensamento e assim senti-lo de outra forma.

Entre os jovens qual tem sido o maior impacto da pandemia?

O maior impacto na população mais jovem tem sido o desenvolvimento de quadros de ansiedade, ataques de pânico, resultantes do confinamento que os obrigou a abdicar do tempo na escola e de estarem com os amigos e deixarem de ter a liberdade de circular dia e noite. Isso fez com que se encontrassem numa zona pouco confortável a nível pensamentos, criassem pensamentos negativos que vão originar emoções desajustadas nos jovens. Quem não consegue lidar com essas emoções pode desenvolver ataques de pânico, ou isolar-se, e isso irá ter efeitos a nível familiar e social que podem levar a problemas sociais.  

Esta segunda vaga que estamos a viver pode despoletar esses pensamentos negativos de novo?

Considero que sim, pelo que me tenho apercebido dos relatos da comunidade portuguesa, há uma grande preocupação com os filhos nas escolas. Por um lado, há quem deseje que escolas fechem para parar o contágio, porque há casos todos os dias, e têm medo, outros defendem que se as escolas fecham será prejudicial para o coletivo e para o país. Há uma grande preocupação dos pais, dizem “o meu filho não está infetado, mas se houver algum menino infetado ou se o professor ficar, gera-se uma bola de neve, o professor entra em isolamento, o meu filho faz o teste e tem de se isolar em casa e isso mexe com toda a estrutura familiar”.

Como se pode ultrapassar o cansaço que se instalou desde há sete meses e, como se não bastasse surge agora uma vaga pandémica ainda mais preocupante do que a primeira?

O cansaço a fadiga mental pode ser combatido através da meditação. Como já referi existem várias estratégicas de relaxamento e um psicólogo pode ajudar, pode ensinar a promover pensamentos proativos e mais saudáveis para a diminuição da ansiedade e do stress. Por outro lado, as pessoas devem falar sobre as suas emoções, partilhar as preocupações e expectativas, é muito importante fazer uma gestão das nossas expetativas nesta altura do ano, a pandemia é comum a todos. A forma como cada pessoa vive a pandemia é diferente, há que promover a comunicação, devemos falar sobre o que estamos a sentir, temos de ventilar as emoções e pensamentos. Além de, além de diminuir a ansiedade conhecemos novas perspetivas. Nunca estivemos tão perto dos outros, estamos à distância de um clique.

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