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Os insetos são fundamentais para a vida no planeta mas estão a desaparecer
Sociedade 7 min. 14.01.2021

Os insetos são fundamentais para a vida no planeta mas estão a desaparecer

Os insetos são fundamentais para a vida no planeta mas estão a desaparecer

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Sociedade 7 min. 14.01.2021

Os insetos são fundamentais para a vida no planeta mas estão a desaparecer

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Os insetos são elementos essenciais aos ecossistemas dos quais a humanidade depende, mas a sua conservação enfrenta grandes desafios em todo o planeta.

O planeta está a perder algumas das suas populações de insetos a uma velocidade "arrasadora". Esta é a conclusão de um simpósio de onze artigos científicos que tinham como objetivo reunir especialistas mundiais em biodiversidade e conservação de insetos e pedir-lhes que informassem sobre o estado do conhecimento das tendências de desenvolvimento das diferentes populações.

Embora os esforços de conservação tenham historicamente centrado a atenção na proteção de espécies raras, carismáticas e ameaçadas de extinção, o "apocalipse dos insetos" apresenta, segundo os especialistas, um desafio diferente. Os insetos são, de longe, os animais mais variados e abundantes da Terra, existindo em número 17 vezes superior ao dos seres humanos. Sendo, por isso difícil ter uma noção clara do estado de conservação das milhões de espécies de mosquitos que habitam o nosso planeta. 

No entanto, segundo a comunidade científica, apesar destes animais muitas vezes passarem despercebidos aos humanos, são elementos essenciais aos ecossistemas dos quais a humanidade depende, polinizando as plantas, fornecendo alimento a outras criaturas e reciclando o desperdício da natureza.

Segundo os investigadores, a maioria dos biólogos concorda que o mundo entrou no seu sexto evento de extinção em massa, o primeiro desde o fim do período Cretáceo há 66 milhões de anos, quando mais de 80% de todas as espécies desapareceram.


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As perdas contínuas têm sido claramente demonstradas em grupos altamente estudados. Duas em cada cinco espécies vegetais do mundo estão em risco de extinção como consequência da destruição do mundo natural. Muitos mamíferos sofreram declínios de pelo menos 80% ao longo do último século. Um relatório das Nações Unidas de 2020 estimou que mais de um milhão de espécies estão em perigo de extinção durante as próximas décadas.

Esta quarta-feira, um relatório assinado por 17 especialistas internacionais intitulado "Subestimando os Desafios de Evitar um Futuro Terrível" advertem para o facto do planeta enfrentar um "futuro terrível de extinção em massa, declínio da saúde e perturbações climáticas" que ameaçam a sobrevivência humana devido à ignorância e inação.

"Absolutamente necessários"

Os insetos compreendem grande parte da biomassa animal que liga produtores primários e consumidores, bem como consumidores de nível mais elevado em redes de água doce e de alimentos terrestres. "Absolutamente necessários" como pontes na interligação natural das cadeias alimentares, muitos insetos numericamente abundantes fornecem serviços do ecossistema dos quais o homem depende: a polinização de frutas, vegetais e frutos secos; o controlo biológico de ervas daninhas, pragas agrícolas, vetores de doenças, e outros organismos que competem com o homem ou ameaçam a sua qualidade de vida e ainda a macro decomposição de folhas e madeira, a a remoção de estrume e carniça, que contribuem para o ciclo de nutrientes, formação de solos, e purificação da água.


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O simpósio publicado na revista 'Proceedings of the National Academy of Sciences', dos Estados Unidos, alerta que "claramente, as graves perdas de insetos podem potencialmente ter consequências ecológicas e económicas globais".

No centro das preocupações encontra-se a crise climática, que pode estar a causar sérios danos nos trópicos. Mas apesar de serem necessários muito mais dados, os investigadores dizem que já se sabe o suficiente para que se tomem medidas urgentes. A boa notícia é que o aumento da visibilidade do declínio dos insetos nos últimos dois anos levou à ação governamental em alguns locais, referiram, enquanto um número "fenomenal" de cientistas cidadãos está a ajudar com o enorme desafio de estudar estas pequenas criaturas.

Os investigadores relembram a maior avaliação sistemática da abundância global de insetos até à data, publicada em abril de 2020, que mostrou uma queda de quase 25% nos últimos 30 anos, com declínios acelerados na Europa. A maior avaliação anterior, baseada em 73 estudos, levou os investigadores a alertar para "consequências catastróficas para a sobrevivência da humanidade" se as perdas de insetos não fossem travadas. 

Os estudos mostram que a situação é complexa, nem todos os insetos estão em declínio. Quatro artigos desta edição especial registam casos de linhagens que não mudaram ou aumentaram em abundância. Muitas espécies de traças na Grã-Bretanha expandiram comprovadamente em alcance ou tamanho populacional. Numerosos insetos temperados, presumivelmente limitados pelas temperaturas de inverno, aumentaram em abundância e alcance, em resposta às temperaturas globais mais altas. 

A crescente abundância de insetos de água doce tem sido atribuída à legislação sobre água limpa, tanto na Europa como na América do Norte. Em alguns lugares, os herbívoros nativos floresceram utilizando plantas não nativas como fontes de néctar adulto ou plantas alimentares larvares e há mesmo casos em que as plantas introduzidas resgataram espécies imperiosas. 

Ameaças múltiplas

Os insetos enfrentam ameaças múltiplas e sobrepostas, incluindo a destruição de habitats selvagens para a agricultura, urbanização, pesticidas e poluição luminosa. Em áreas de elevada atividade humana, onde os declínios de populações são mais notórios, ocorrem simultaneamente múltiplos fatores de stress. 

Para David Wagner da Universidade de Connecticut nos EUA a maioria das causas do declínio dos insetos eram bem conhecidas. "Mas há um desconhecido realmente grande que é a mudança climática - é o que realmente mais me assusta", afirmou acrescentando que o aumento da variabilidade climática poderia estar a conduzir a extinções de insetos "a um ritmo que nunca vimos antes".

Muitos dos declínios nas populações de borboletas na Europa parecem estar diretamente ligados às mudanças nas práticas agrícolas, com a taxa de perdas a acelerar-se após a Segunda Guerra Mundial, quando "as explorações agrícolas familiares começaram a amalgamar em operações comerciais maiores, foram utilizados tratores modernos e equipamento mecanizado para acelerar a industrialização da agricultura, os inseticidas tornaram-se amplamente disponíveis e os fertilizantes sintéticos puderam ser fabricados e aplicados em volumes prodigiosos", lê-se no documento de apresentação do simpósio.



A investigadora Isabel Sousa Pinto integra a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES) da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU).
“As pandemias serão mais frequentes e poderão matar mais pessoas do que a covid-19”
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O que está a ser feito?

Segundo os cientistas, foram registados colapsos populacionais em locais onde as atividades humanas dominam, como na Alemanha, mas há poucos dados vindos de fora da Europa e da América do Norte e, em particular, de regiões selvagens e tropicais onde vive a maioria dos insetos. Outro dos documentos estabelece ações que podem proteger estes animais. 

A nível individual as pessoas podem voltar a selar os seus jardins, cortar o uso de pesticidas e limitar a iluminação exterior, segundo o documento, enquanto que os países devem reduzir os impactos da agricultura. Todos os grupos da sociedade podem ajudar a mudar as atitudes em relação aos insetos, transmitindo a informação que eles são componentes cruciais do mundo vivo.

O simpósio aponta ainda para o facto positivo de que o financiamento para apoiar a investigação sobre a conservação de insetos está a crescer. Em junho de 2018, a União Europeia aprovou uma iniciativa para proteger os polinizadores em todos os estados membros. O governo federal alemão prometeu cerca de 97 mil milhões de euros para a conservação, monitorização e investigação destes seres em setembro de 2019. O governo sueco planeia gastar cerca de 20 milhões de dólares em iniciativas de proteção dos polinizadores durante os próximos 3 anos.

Na primavera de 2020, também o governo da Costa Rica aprovou um esforço de 100 milhões de dólares para inventariar e sequenciar a região do código de barras de ADN de cada criatura multicelular do país ao longo de uma década, com financiamento a vir de fontes internacionais. Grande parte da biodiversidade do país serão insetos, sendo a maioria destes capturados por armadilhas Malaise, como parte da iniciativa BioAlfa da Costa Rica.

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