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Os implacáveis polícias coscuvilheiros das redes sociais
Opinião Sociedade 4 min. 08.06.2022
Andamos todos ao mesmo

Os implacáveis polícias coscuvilheiros das redes sociais

Andamos todos ao mesmo

Os implacáveis polícias coscuvilheiros das redes sociais

Foto: Sri Loganathan/ZUMA Press Wire
Opinião Sociedade 4 min. 08.06.2022
Andamos todos ao mesmo

Os implacáveis polícias coscuvilheiros das redes sociais

São tempos brutos, estes, em que opinamos com facilidade sobre os outros sem perguntar como lhes corre a vida. Apontamos a câmara, partilhamos e condenamos porque é mais fácil prático e preguiçoso julgar do que tentar compreender.

(Paulo Farinha)

"Este tem a mania que é especial e pode estacionar em cima do passeio. Depois admira-se se ficar com o carro riscado."

"Na fila da caixa no supermercado: pessoas com excesso de peso a comprar gomas de açúcar para os filhos levarem para a escola. God"

"Esta gente não tem noção: o carro parado ao meu lado no trânsito tem heavy-metal em altos berros e há um bebé a dormir no banco de trás."

"Acabei de ouvir uma senhora na pizzaria a pedir uma Margherita sem glúten. Se não podem comer como deve ser, porque vão a pizzarias? Comam em casa e não chateiem os empregados."

Recolhi estas publicações das redes sociais, espantado com a facilidade com que opinamos sobre a vida dos outros, convencidos que sabemos tudo. O que eu não calculava é que a lista seria tão grande e encontraria tantos exemplos de bitaitismo e falta de empatia. Apaguei há pouco o documento onde armazenei estas e outras pérolas de lixo tóxico, com receio que me possa danificar o telemóvel com maus fígados.

Uma coisa é tentarmos perceber a outra pessoa. Olhar para ela numa viagem de metro, mirá-la de longe ou escutá-la de perto, ouvindo sem querer uma frase que atira na conversa ao telemóvel, tentar adivinhar porque ri tanto ou entender porque está a chorar, o que a faz sorrir, que músicas ouve ou que livros gosta de ler. Gosto de fazer isso com as pessoas com quem me cruzo, num misto de curiosidade e imaginação que não consigo desligar. E não creio ser caso único ou sequer bicho raro neste exercício.

Outra coisa, diferente, é ver no outro alguma coisa sobre a qual nada sabemos e daí desatar a apontar-lhe o dedo acusatório. Não às claras, frontalmente, num exercício de falta de decoro, falta de noção e falta de educação. Mas pelas costas, em jeito cobarde, achando que o que pensamos está certo e partilhando com o mundo a nossa visão, esteja certa ou errada. Ambas as abordagens são precipitadas. Ambas as abordagens beneficiariam de uns segundos de ponderação antes de disparar.

Talvez a questão do estacionamento automóvel seja das mais flagrantes. Abundam os implacáveis polícias de trânsito do Facebook, indignados com carros fora dos espaços que lhes são reservados. Apontam a câmara do telemóvel, carregam no botão, fazem upload e aqui vai disto. Sai um julgamento diretamente da mesa do canto para os seguidores. Sem antes pensar que todas as viaturas são conduzidas por pessoas e que todas as pessoas têm uma história. E que atrás de um carro em cima de um passeio pode estar um condutor aflito que parou ali em urgência para ir ajudar o filho, para tirar a cadeira de rodas do pai ou para levar uma garrafa de oxigénio à mãe que já mal respirava. E atrás de um veículo a ocupar dois lugares podia estar uma condutora que se sentiu mal e apenas teve tempo de ali parar rapidamente antes de ligar para o 112 que haveria de enviar a ambulância que lhe salvou a vida.

Conter o impulso acusatório não é coisa fácil de fazer. A nossa ironia, sarcasmo e sentido de justiça por vezes falam mais alto. Mas parar para pensar um pouco que aquelas gomas no carrinho de supermercado podem ser para uma festa e serão a única oportunidade de uma data de crianças as provar em mais de um ano. Ou que os Iron Maiden ou os  Slipknot a puxar os decibéis do auto-rádio podem ser a única banda sonora com que aquela criança adormece. Ou que a pizza sem glúten é o maior prazer de alguém com uma intolerância alimentar grave e que já não provava uma coisa daquelas desde que chegou o diagnóstico, já lá vão alguns anos.

Num mundo tão imediato onde facilmente bradamos aos quatro ventos o que nos vai cá dentro, às vezes é boa ideia parar. E pensar que não sabemos nada sobre o outro e ainda bem que assim é. Na dúvida, ficar quieto. Ou então fazer-se ser útil e perguntar se precisa de ajuda para estacionar o carro. 

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Paulo Farinha
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