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Os despossuídos de Nine Elms
Sociedade 3 min. 09.06.2021

Os despossuídos de Nine Elms

Os despossuídos de Nine Elms

Sociedade 3 min. 09.06.2021

Os despossuídos de Nine Elms

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Há um apartheid de classe esfregado na nossa cara. Londres, com sérios problemas de habitação, tornou-se no laboratório do que em breve veremos noutras cidades.

Uma amiga contou-me recentemente da piscina de acrílico transparente, a primeira e única no mundo, que une dois blocos de apartamentos no bairro de Nine Elms, em Battersea, margem sul do Tamisa. Veio em todos os jornais: num dos dias mais quentes do ano, enquanto o resto do povo se amontoava nos parques em modo piquenique, a nata da elite londrina estreava a piscina transparente de 25 metros de comprimento e 10 andares de altura, chamada Sky Pool (original), num dos rooftops mais exquisite da capital, exclusivo a residentes de uma das zonas mais gentrificadas de Londres.

A minha amiga, que viveu em Londres mas já não vive, disse-me: “Se há sítio onde não gostaria de voltar a viver é Londres. Aquilo atingiu o cúmulo do privilégio. É literalmente in your face.” Isto é: o privilégio esfregado na nossa cara. O descaro. Não difere muito da marquise do Cristiano Ronaldo. Mas aqui dá para nadar.

O edifício parece ser um prodígio da arquitectura e sobretudo da engenharia: a densidade do acrílico, a suspensão do tanque sobre monos de betão, a litragem de água necessária para encher a piscina, enfim, tudo desafia a gravidade. Em Fevereiro, o Guardian publicou um longo artigo sobre o empreendimento. Até a Wikipedia diz que Nine Elms é um bairro em “rápida transformação”. Em Londres isto quer dizer zona de construção habitacional dos anos 60/70 com “problemas sociais”, de desmantelamento de indústria ou de grandes armazéns de logística, onde há 20 anos ninguém queria viver, junto à antiga central eléctrica de Battersea, e onde investidores de grandes fundos imobiliários nacionais ou estrangeiros começaram a comprar quarteirões inteiros para valorizar. Agora é uma das zonas mais apetecidas. Tida como o projecto de regeneração urbana mais inovador da Europa, lançado pelo então mayor de Londres, actual primeiro-ministro, Boris Johnson. Mas porque Londres tem um sério problema de habitação, os investidores milionários acordaram que alguns apartamentos teriam de ser para cidadãos comuns. Isto é: rendas acessíveis, habitação social, hipotecas decentes (oximoro!).

É o caso de Iqbal, residente num T2 de 930 mil euros; é dono de um quarto da propriedade e paga renda sobre o restante valor. “Ele tem de atravessar a grande entrada principal tipo hotel do empreendimento, rodeada de supercarros com placas de matrícula personalizadas, até à parte de trás, com cercas de construção e pilhas de entulho, até uma pequena porta entre grades de ventilação e a garagem dos caixotes, voltada para a linha férrea. ‘Há uma razão pela qual estas são chamadas de ‘portas pobres’”, conta ao Guardian. ‘Eu cresci na África do Sul, um país racialmente segregado, mas em Londres ainda existe uma segregação de classe muito significativa. Temos uma hipoteca e pagamos a nossa renda, mas todos os dias nos sentimos inferiores, como se fossemos os despossuídos de Nine Elms.’”

Mesmo que os despossuídos quisessem (e pudessem pagar para) ter acesso à piscina, ao ginásio, ao estacionamento, foi-lhes dito que não estavam disponíveis. A reportagem mostra a diferença entre a entrada do edifício dos mortais, luz branca desmaiada e chão de linóleo, e o lounge de carpete e candeeiros dourados dos super-ricos. “Um amargo sentimento de divisão é alimentado pela própria estrutura do bairro. A exclusão foi projetada nos edifícios, ruas e espaços públicos e é aplicada pelos regimes de gestão privada que os regem. Se esta é uma área de oportunidades, tem sido uma oportunidade para experimentar uma nova forma de apartheid social em escala industrial”, lê-se no jornal britânico.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

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