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Os cavaleiros do absolutismo
Opinião Sociedade 3 min. 07.04.2021

Os cavaleiros do absolutismo

Os cavaleiros do absolutismo

Foto: AFP
Opinião Sociedade 3 min. 07.04.2021

Os cavaleiros do absolutismo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
As imagens foram a sensação du jour de quinta-feira passada: uma jovem de cabelos louros está de pé, sozinha, num parque. Do lado esquerdo do ecrã, pelas suas costas, aparecem um, dois, sete cavaleiros da polícia de choque, equipados de viseiras, capacetes, bastões e botas cardadas.

Eles galopam em direcção à desprevenida rapariga e um deles atropela-a, derrubando-a como a um boneco de feira; ela fica no solo estendida de bruços, inconsciente. Os cavaleiros continuam tranquilamente a sua marcha, imperturbáveis, procurando entre as pessoas espalhadas no relvado mais alguém a quem espezinhar.

Na sexta-feira passada houve registo de tensões entre jovens e a polícia, em Bruxelas, capital belga, a propósito de um concerto falso que juntou mais de 2.000 jovens no Parque Bois de la Cambre. Evento tinha sido publicitado nas redes sociais a propósito do Dia das Mentiras.
Na sexta-feira passada houve registo de tensões entre jovens e a polícia, em Bruxelas, capital belga, a propósito de um concerto falso que juntou mais de 2.000 jovens no Parque Bois de la Cambre. Evento tinha sido publicitado nas redes sociais a propósito do Dia das Mentiras.
Foto: AFP

São sete chocantes segundos que ilustram perfeitamente o ponto a que chegamos nas outrora orgulhosas democracias europeias: um absolutismo abjecto baseado na repressão, demasiado parecido com os sistemas totalitários que a Europa (e muito bem) se apressa a condenar em nome dos direitos humanos, do Estado de Direito e das liberdades fundamentais. Mas não foi na Rússia de Putin, na Myanmar da junta militar, na Coreia do Norte de Kim Jong Un e nem mesmo na iliberal Hungria do senhor Órban que uma tonelada de força bruta ao serviço do regime atropelou pelas costas uma cidadã indefesa.

Isto passou-se, ironicamente, no país que acolhe a "capital" da UE, Bruxelas; no mesmo país onde, alguns dias antes, os tribunais declararam que todas as medidas destructivas das liberdades individuais tomadas pelo governo federal no quadro da pandemia são ilegais – pois não foram ratificadas pelo parlamento, nem encontram base legal em qualquer código em vigor. As proibições não são nada mais do que diktats ilegítimos de um Poder sem contrapoderes, sem escrutínio, sem amarras e sobretudo sem rumo.

As pequenas tiranias – por exemplo multar em parques e praias, recolher obrigatório a horas variáveis consoante a semana e a região, etc. – têm pouco a ver com a ciência e, em vez de ajudar, descredibilizam as eficazes regras "boas", as que todos temos o dever de observar para controlar a propagação do vírus. Um ano após o início da pandemia, eis-nos aqui sem vacinas e sem empregos, sufocados por uma elite incompetente que, ao comando do Estado, impõe (aos outros) regras arbitrárias e contraditórias, com efeitos que são discutíveis no controlo da pandemia, mas são indubitavelmente devastadores sobre a economia e a saúde mental dos cidadãos.

Um ano perdido significa muito mais na infância ou adolescência que na meia-idade; além disso, um jovem teve muito menos tempo para criar referências e estabilidade de vida, importantíssimas para lidar com um choque externo tão forte.

Apesar de isto raramente ser reconhecido, são os jovens quem está a sofrer mais agudamente com este deteriorar colectivo do equilíbrio mental. Um ano perdido significa muito mais na infância ou adolescência que na meia-idade; além disso, um jovem teve muito menos tempo para criar referências e estabilidade de vida, importantíssimas para lidar com um choque externo tão forte. Os números são todos alarmantes: 1 em cada 5 crianças (das 10000 sondadas) na UE sente-se permanentemente infeliz. Na Alemanha, os psicoterapeutas de adolescentes afirmam que no último ano os sintomas pioraram em 92% dos seus pacientes. Na Bélgica, as instituições psiquiátricas vêem-se obrigadas a recusar novos pacientes...

Esta situação é insustentável e tem de mudar. Não admira que em Bruxelas, naquela tarde, os jovens atirassem objectos à polícia aos gritos de "Liberdade, liberdade!". A resposta que levaram do Poder? Uma carga de cavalaria pelas costas abaixo.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

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