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Orgulho LGBTI+. Marchas juntam milhões em todo o mundo
Sociedade 11 min. 25.06.2019

Orgulho LGBTI+. Marchas juntam milhões em todo o mundo

Orgulho LGBTI+. Marchas juntam milhões em todo o mundo

Foto: AFP
Sociedade 11 min. 25.06.2019

Orgulho LGBTI+. Marchas juntam milhões em todo o mundo

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
No Luxemburgo, a marcha pelo orgulho LGBTI+ vai acontecer a 13 de julho. Conheça as principais reivindicações dos ativistas em Portugal e no Luxemburgo.

Junho é considerado o mês do orgulho LGBTI+. A comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, intersexuais e outras definições, ao redor do mundo, organizou-se em massa para não fazer passar em branco a ocasião, no ano em que se comemoram os 50 anos da revolta de Stonewall, a 28 de junho, momento que marcou o início do movimento. No Luxemburgo, acontece apenas a 13 de julho e, em Lisboa, será já a 29 de junho, próximo sábado.

Ao longo destas cinco décadas, houve vitórias e recuos e as disparidades legais em todo o mundo ainda são motivo para tomar as ruas e exigir mais direitos. Nomeadamente, combater pelo simples direito a viver. Em países como o Iêmen, Irão, Iraque, Arábia Saudita, Mauritânia, Qatar, Nigéria, Somália, Sudão, Emirados Árabes Unidos, é possível ser-se condenado à de morte por ser homossexual. São dez países no mundo em que se morre por amar alguém do mesmo sexo. 

A 12 de junho deste ano, o Botswana acabou com a lei que considerava a homossexualidade ilegal. Foi uma vitória para a comunidade gay africana que enfrenta desafios enormes na aceitação, com mais de metade (32) dos 54 países oficiais a ter leis que punem relações entre pessoas do mesmo sexo. Em 71 países por todo o mundo, ainda existem leis semelhantes, segundo a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans. 

O caminho é longo e relativamente recente, se tivermos em conta que foi apenas a 17 de maio de 1990 que a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais. E só no ano seguinte a Amnistia Internacional passaria a considerar a discriminação contra homossexuais uma violação dos direitos humanos. 

Em todo o mundo, a comunidade LGBTI+ marcha em junho para reivindicar os direitos que ainda lhes faltam e para exaltar o orgulho em ser-se quem se é. Da Colômbia ao Japão, as ruas enchem-se das cores do arco-íris. Pode consultar o calendário aqui.   

A marcha pelo orgulho LGBTI+ de São Paulo é considerada a maior do mundo. A  23.ª edição, que aconteceu no passado dia 23, domingo, reuniu cerca de 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista, segundo a organização do evento. Ao todo, 19 carros elétricos desfilaram durante mais de sete horas. Esta foi a primeira marcha do governo de Jair Bolsonaro e não faltaram gritos de revolta contra o presidente que, no dia anterior, participou da Marcha para Jesus, também em São Paulo. Mel C, integrante das Spice Girls, fez questão de comparecer aos festejos LGBTI+ e cantou para os milhões que seguiam na parada. "Estou muito feliz de estar de volta a São Paulo, um lugar que sempre foi generoso comigo", afirmou. 

Um país generoso para a cantora, mas pouco saudável para a população LGBTI+:  cerca de 8.027 pessoas foram assassinadas no Brasil, entre 1963 e 2018, por causa da sua orientação sexual ou identidade de género.   

São Paulo, Brasil
São Paulo, Brasil
AFP

Em Kiev, capital da Ucrânia, oito mil participaram da marcha pelo orgulho LGBTI+, superando os cinco mil do ano passado. No entanto, a presença da polícia foi reforçada por causa de ativistas da extrema-direita que tentaram boicotar o momento. Apesar de alguns arrufos pontuais, apenas nove pessoas foram detidas e esta foi considerada a maior marcha de que há memória. O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy, ex-comediante que está no poder há cerca de um mês, já fez saber que tem a intenção de promover a tolerância e aceitação para todos. 

No sábado, 22, outras cidades tiveram as suas marchas LGBTI+. Em Santiago, no Chile, mais de 100 mil pessoas foram às ruas. Também no sábado, as cidades americanas de Sheboygan, no Wisconsin, Batesville, no Arkansas e Knoxville, no Tennessee, tiveram manifestações. Pela Europa, em Nápoles, Itália, cerca de cinco mil pessoas aderiram à segunda edição da parada gay. Também houve movimentos em Tessalônica, na Grécia, e Bucareste, na Romênia. 

O Luxemburgo é considerado o terceiro país do mundo que mais defende os direitos LGBTI+, segundo a ILGA Europe, tendo subido 17 lugares em relação ao ano anterior. Portugal surge em sétimo lugar. A grande subida deve-se, sobretudo, à aprovação da lei que facilita a mudança de sexo e de nome no registo civil para transexuais e intersexuais.  Já não é preciso apresentar certificados médicos, fazer intervenções cirúrgicas ou tratamentos hormonais para provar a vontade de mudar de género no papel. 

Em 2015, quando foi implementada a lei que legalizou o casamento gay e a adoção por casais do mesmo sexo, no Luxemburgo, Xavier Bettel, atual primeiro-ministro, casou-se com o companheiro Gauthier Destenay, em maio desse ano. O luxemburguês foi o segundo primeiro-ministro a assumir-se homossexual na União Europeia (após Elio de Rupo, ex-chefe de Governo da Bélgica), e o primeiro na UE a casar-se com alguém do mesmo sexo. Bettel tem sido elogiado pela postura firme com que defende a sua relação, nomeadamente, na mais recente cimeira da Liga Árabe, onde lembrou o fato do seu casamento ser "passível de pena de morte em numerosos países". 

O atual governo anunciou também que vai "examinar a possibilidade de registar uma terceira opção no registo civil", para além de masculino e feminino. É neste clima de progresso que vai realizar-se a "Luxembourg Pride", organizado pela associação sem fins lucrativos Rosa Lëtzebuerg. Este ano, comemora-se os 20 anos da marcha no país e Tom Hecker, o presidente da associação, espera que o número de participantes (cinco mil) do ano passado seja ultrapassado, já que é se trata de "um aniversário de duas décadas, um marco importante". 

Rosa Lëtzebuerg foi fundada em 1996, com o intuito de reivindicar os direitos para a comunidade LGBTI+, num tempo em que ainda não haviam sido criadas as condições de hoje. Com as leis que foram alteradas, um primeiro-ministro assumidamente homossexual e um país no top 3 dos que defende os direitos da comunidade, ainda existe necessidade de ir para a rua marchar. Porquê? "Nós chamamos-lhe a Equality March, ou seja, marchamos pela igualdade para todos, não só para a nossa comunidade, mas para todos. Ainda lutamos. Ainda não existe esse equilíbrio, ainda temos ódio no país, por isso, é preciso continuar a lutar", afirma o presidente.   

Hana Sofia Lopes, atriz luso-luxemburguesa, estranha o fato de não haver mais divulgação ativa destas iniciativas. "Em comparação com Portugal ou França, estamos muito menos desenvolvidos em relação à divulgação destes momentos. Ainda não ouvi falar praticamente nada sobre a marcha e está a aproximar-se a data." A 13 de julho, a manifestação vai começar às 14h00, na Place de la Résistance. 

Em Portugal, comemoram-se os 20 anos desde a primeira Marcha pelo Orgulho LGBTI+ e vão realizar-se várias, em todo o país. Em Lisboa, vai decorrer no dia 29 de junho e Alice Azevedo, umas das porta-vozes da marcha em Lisboa desde há seis anos, garante que "de ano para ano, o movimento tem vindo a crescer e é importante referir que este crescimento não vem associado a uma mercantilização da marcha nem associado a uma perda do seu conteúdo político." 

 A porta-voz faz questão de frisar que, em Portugal, "são marchas e não paradas, ou seja, o cunho reivindicativo está bem presente. É uma manifestação política que ainda não foi comida pelo capitalismo. Por exemplo, este ano, o lema do Porto é 'O Porto não se rende, o orgulho não se vende', o que mostra que lutamos pelo essencial." As reivindicações portuguesas passam por "querer uma inclusão plena na esfera social para além de tudo aquilo que a lei pode tentar garantir, apesar de sabermos que a lei não faz necessariamente avançar a sociedade", garante.   

O ano passado a marcha contou com 12 mil pessoas e, segundo Alice, são esperadas "muitas, muitas mais" mesmo que continue a encontrar obstáculos sobretudo porque "ainda se vive numa sociedade conservadora e temos fascismos a crescer na Europa e no mundo e, em Portugal, alguns desses discursos não são, infelizmente, assim tão raros. Mas não nos calamos."

No percurso português da inclusão da comunidade LGBTI+, há alguns momentos históricos que vale a pena relembrar: em 1982, deu-se a descriminalização da homossexualidade; em 1997, acontece o primeiro Arraial Pride, a união de facto passou a ser possível em 2001 e o casamento civil em 2010. A adopção e o apadrinhamento tornou-se legal em 2015, a procriação medicamente assistida, em 2017, e a autodeterminação de género em 2018. 

Para Rui Maria Pego, apresentador de rádio e televisão, homossexual assumido e ativista pelos direitos da comunidade LGBTI+, estas manifestações "são um momento de união e de celebração e, ao mesmo tempo, uma declaração clara de como estamos atentos. Não podemos tomar os direitos já conquistados como garantias. A liberdade só existe se for preservada e quantas mais vezes o demonstrarmos mais clara se torna", 

No próximo sábado, 29, o filho de Júlia Pinheiro vai marcar na marcha, como em anos anteriores. "Já fui em Lisboa algumas vezes e já estive também em Estocolmo. Tornar visível é tornar igual e não podemos nunca duvidar de como a nossa presença sólida, vista, contribuí para a mudança de mentalidade. Quantas mais pessoas marcharem, de todos os tipos, credos e orientações sexuais, mais compreendemos como esta luta é do 'Todo'", afirma, apelando à presença de cada um. 

Em 2016, após o ataque terrorista na discoteca Pulse, conhecida por ser da comunidade LGBTI+, em Orlando,  onde 50 pessoas morreram, Rui Maria assumiu a sua homossexualidade num texto no Facebook. 


O SIGNIFICADO DO DIA 28 DE JUNHO

A 31 de dezembro de 2018, as pessoas que estavam no bar Stonewall, em Nova Iorque, prontas para comemorar a passagem de ano, tiveram uma grande surpresa. Madonna, a rainha da Pop, subiu ao palco inesperadamente e cantou para uma multidão boquiaberta. A cantora escolheu este bar por ser o símbolo do início do movimento pelos direitos da comunidade LGBTI+. 

A 28 de junho de 1969, a polícia entrou no Stonewall, paragem obrigatória da comunidade gay na altura, para mais uma rusga. Treze pessoas foram detidas mas, desta vez, decidiram oferecer resistência. No meio da confusão, começou um incêndio dentro do bar e a polícia, em vez de usar as mangueiras de água para conter as chamas, usaram também sobre as pessoas que se juntaram em redor. 

Nos próximos seis dias, aconteceu o que ninguém esperava. Parte da comunidade gay de Nova Iorque foi para a rua protestar por Stonewall e pelos seus direitos. Esta foi a primeira demonstração pública LGBTI+ e o local tornou-se histórico. Em 2016, o ex-presidente Barack Obama decretou que o bar era o primeiro monumento nacional aos direitos dos LGBTI+. 


 

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