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Opinião. Trabalhar menos, trabalhar melhor
Editorial Sociedade 3 min. 14.11.2019

Opinião. Trabalhar menos, trabalhar melhor

Opinião. Trabalhar menos, trabalhar melhor

Foto: Chris Karaba/Luxemburger Wort
Editorial Sociedade 3 min. 14.11.2019

Opinião. Trabalhar menos, trabalhar melhor

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A Microsoft japonesa deu a todos os seus 2300 empregados cinco sextas-feiras de folga, sem redução de salário nem dos dias de férias. Os resultados foram impressionantes, com uma subida da produtividade de 40%.

"Nem quero saber que as segundas-feiras sejam tristes, que as terças e as quartas sejam cinzentas, às quintas não quero saber nem de ti; é sexta-feira e estou apaixonado!", cantam os The Cure em "Friday I’m in love". A canção pop, mais do que sobre relações amorosas, foi escrita a pensar no sentimento de libertação que a maioria da humanidade sente a uma sexta-feira à tarde ao sair do local de trabalho, exausta e desejosa por dois dias de descanso e festa.

E se não tivesse de ser assim? Apesar de numerosos estudos afirmarem que uma semana de trabalho mais curta seria mais eficiente, a de cinco dias "úteis" (como se o sábado e o domingo fossem inúteis...) está-nos tão entranhada como "normal" que em português ganhou mesmo a sintomática correspondência de "feiras" – ou seja, os humanos foram feitos para produzir de segunda a sexta, e descansar quando não há feira. Mesmo isto já foi uma conquista progressista, conseguida através de muito sofrimento e luta, pois durante os tempos do capitalismo selvagem nos séculos XVIII e XIX trabalhar por 15 horas ou mais por dia, seis dias por semana até ao dia do Senhor, era considerado a norma. Afinal, as fábricas escravizantes laboravam quase sem interrupção…

Esta semana correu mundo a experiência feita pela Microsoft japonesa. A grande empresa deu a todos os seus 2300 empregados cinco sextas-feiras de folga, sem redução de salário nem dos dias de férias. Ou seja, todos os fins de semana de verão eram prolongados; além disso, a empresa também dava um subsídio de férias adicional de até 900 euros. "A ideia é descansar bem e aprender imenso. Quero que os funcionários pensem como atingir os mesmos objetivos trabalhando menos tempo", encorajou o presidente Takuya Hirano.

Os resultados foram impressionantes, com uma subida da produtividade de 40%. Também houve uma descida dos dias de férias pedidos (menos 25%) e dos gastos de recursos da empresa: menos 23% de eletricidade e 59% de páginas de papel impressas, o que, adicionado à poluição de carros evitada por não ir para o emprego nesses dias, indica que a ideia é também benéfica para o ambiente. Acresce que quase todos os funcionários (92%) gostaram da experiência de não trabalhar às sextas.

Estamos atrasados para sair do trabalho.

Todos contentes, então? Calma, não tão rápido. É preciso ler estes números com cuidado antes de passar a conclusões, desde logo porque se trata de uma experiência laboral no Japão – onde bastantes empresas esperam que os seus funcionários trabalhem 80 horas por semana; uma sociedade com uma cultura laboral tão brutal que deu origem a uma palavra só para significar a morte por excesso de trabalho: karoshi. E são os vários casos de karoshi nos últimos anos que levam Estado e empresas a incentivar as pessoas a irem de férias, contra a resistência cultural dos próprios japoneses em fazê-lo.

Aliviar a pressão sobre uma situação tão extrema só pode ter efeitos imediatos significativos, mas eles são obtidos num contexto muito especial e provavelmente serão de curto prazo. Além disso, é subjetivo dizer que "a produtividade subiu 40%"– a Microsoft não faz produtos facilmente mensuráveis, e a experiência durou apenas pouco mais de um mês. O número soa a arbitrário.

Independentemente da escala dos bons resultados, o ponto mais importante mantém-se: esta é mais uma experiência – e a grande escala – que sugere que deveríamos trabalhar menos horas para trabalhar… melhor. Ter um período de repouso e lazer de três dias consecutivos faria muito por reduzir os níveis gritantes de stress e esgotamento na nossa sociedade; permitiria um equilíbrio entre vida pessoal e trabalho muito mais saudável; mais tempo para família e amigos; em suma, uma vida mais feliz. E trabalhadores mais felizes trabalham melhor e, pelos vistos, também mais. Há barreiras institucionais e culturais à mudança. Há ainda a mais humana das resistências: a inércia. Mas já é mais que tempo de passarmos a ter todos os fins de semana prolongados. Há um século, o economista Keynes previu que, com os avanços tecnológicos, em 2030 cada um de nós só teria de trabalhar 15 horas por semana. Estamos atrasados para sair do trabalho.