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Opinião. Todos a bordo do comboio noturno
Editorial Sociedade 3 min. 16.01.2020

Opinião. Todos a bordo do comboio noturno

Opinião. Todos a bordo do comboio noturno

Foto: AFP
Editorial Sociedade 3 min. 16.01.2020

Opinião. Todos a bordo do comboio noturno

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
O comboio emite 20 menos CO2 que o avião.

Agatha Christie escreveu "Crime no Expresso do Oriente" em 1934. O romance policial, baseado numa viagem que a própria escritora fez, já teve direito a duas adaptações ao grande ecrã, ambas medianas apesar de contarem com um elenco estelar (Albert Finney, Sean Connery, Jaqueline Bisset e Ingrid Bergman na primeira; Kenneth Bragath, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer ou Penélope Cruz na segunda, mais recente). O livro e os filmes devem muito da sua popularidade à atmosfera em que estão inseridos – o mítico comboio noturno que ligava Paris e Viena a Istambul, o Expresso do Oriente, sempre envolto numa bruma de vapor, mistério e glamour.

Hoje em dia, por uns módicos 7000 euros, é possível recriar a viagem num comboio de luxo privado (o Venice-Simplon Orient Express) que utiliza algumas carruagens originais dos anos 1930. Mas o serviço internacional público foi sendo amputado ao longo do tempo, perdendo sucessivamente Atenas, Istambul, Bucareste, Budapeste e finalmente Paris – o último comboio a operar utilizando a hipnótica marca só assegurava a ligação Estrasburgo-Viena. Extinguiu-se em dezembro de 2009, aparentemente incapaz de concorrer com as companhias aéreas low-cost e seguindo a tendência de desmantelamento dos comboios noturnos que apenas uns anos antes cruzavam todo o continente europeu. Os caminhos-de-ferro franceses, italianos, suíços ou suecos foram descontinuando os seus serviços de noite e quando a DB alemã fez o mesmo, em 2016, soou a toque de finados.

Mas "crise" vem do grego antigo "krísis", que significa "decisão", e uma boa crise encerra muitas vezes uma boa oportunidade. Os comboios austríacos decidiram agarrá-la. Em vez de aceitarem o aparente destino da decadência, investiram e arriscaram, comprando as carruagens alemãs desafetadas e começando, pouco a pouco, a ampliar a sua pequena rede de oito rotas nocturnas.

Os últimos dois anos provaram que eles estavam certos, e hoje em dia as carruagens-cama – apertadas mas confortáveis, em beliches ou compartimentos privados – vão sempre cheias. No momento em que escrevo estas linhas, a ÖBB encomendou 13 novas composições ultramodernas e opera em 27 rotas noturnas para 11 países diferentes. Mas estes números vão aumentar: nos próximos dias arranca de Viena um comboio com destino à "capital da Europa", Bruxelas, que inaugura um serviço regular com paragens em Liège, Munique ou Innsbruck – e de passagem devolve os comboios noturnos internacionais ao Benelux, de onde desapareceram há anos. Em dezembro, começará a muito aguardada ligação a Amesterdão.

O comboio emite 20 vezes menos CO2 que o avião. Para o trajeto Bruxelas-Viena, emite também três vezes menos partículas tóxicas, 15 vezes menos óxidos de nitrogénio, 30 vezes menos partículas causadoras de smog, e gasta cinco vezes menos energia primária. Na era do flygskam, a palavra sueca que significa "vergonha de andar de avião", talvez o comboio renasça finalmente! Já é mais que tempo, depois de décadas de promessas vazias dos poderes públicos, professando o seu amor pela ferrovia enquanto desmantelam rotas ao mesmo tempo que subsidiam aeroportos e isentam de taxas as Ryanairs deste mundo.

É que nem é "só" pelas urgentes razões ambientais que o comboio noturno se superioriza ao avião: em distâncias inferiores a 1500 km, o tempo total gasto na viagem é comparável – sobretudo se durante grande parte da mesma for possível ir estendido, dormindo, relaxado, muito mais confortável. Sem filas e rudes controlos, sem táxis vigaristas e refeições de plástico, sem ar pressurizado e taxas por 1 kg de bagagem a mais, chegando pela manhã, fresco e revigorado, ao centro de uma grande cidade, com estilo, como um verdadeiro viajante. O comboio foi o passado das viagens, e é bem capaz de ser também o futuro.