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Opinião sem fact-checking
Opinião Sociedade 3 min. 28.04.2021

Opinião sem fact-checking

Opinião sem fact-checking

Foto: Shutterstock
Opinião Sociedade 3 min. 28.04.2021

Opinião sem fact-checking

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
Há cada vez mais opinion makers que não se coíbem de difundir fake news. Os jornais que os publicam preferem o clickbait à verdade. Só os media perdem credibilidade.

O pior é quando são historiadores. Porque se são opinion makers devem a fidelidade dos factos aos leitores, por idoneidade. Se, ainda por cima, são historiadores devem a fidelidade dos factos também a si mesmos.

É o caso da historiadora Maria de Fátima Bonifácio. Já não é a primeira vez que escreve enormidades, às vezes no Público, outras no Observador (o que nos faz questionar o que leva um colunista a identificar-se com ambos em simultâneo, enquanto espaços para a sua opinião?). A famosa coluna de Julho de 2019, que originou um editorial-contraditório da direcção do Público, era um texto "nos limites do discurso de ódio, [que] faz generalizações que põem em causa o combate à discriminação racial, usa linguagem insultuosa para diferentes minorias e coloca ênfase numa radical oposição civilizacional". Confundindo, no limite, factos com opiniões. Mais: opiniões apresentadas como factos.

Como é que o texto passou, porque não foi editado, confrontado antes da polémica é algo que pode escapar ao leitor. À posteriori seria sempre "censura", mas há mecanismos nos jornais e nas editorias que muitos leitores desconhecem: os editores escolhem as notícias, o ângulo, o tamanho, escolhem publicar umas e não outras, escolhem o que omitir e divulgar. Sempre. Não há razão para o mesmo não se passar com a opinião.

É fácil ser historiador especialista no século XIX, comentar a actualidade e confundir opiniões com factos quase-históricos, através de saltos cronológicos gigantescos. E, com o rótulo de historiador, digerir opiniões-que-parecem-factos concluindo, como na última coluna de Maria de Fátima Bonifácio, que nas eleições presidenciais a CDU apresentou uma "discreta novidade": pela primeira vez, disse, os cartazes do candidato "não ostentavam a tradicional foice e martelo, subrepticiamente permutada pela neutralidade de uma espécie de pequena bandeira verde e vermelha". Rapidamente se verificou que a "pequena bandeira" era a bandeira portuguesa, e observando os cartazes de todos os candidatos do PCP/CDU desde 1976 (de Octávio Pato a João Ferreira) raríssimos tinham subrepticiamente incluído a foice e o martelo. E com esta "discreta", mas falsa, novidade uma historiadora cria um facto sem checking "pela primeira vez na nossa história democrática".

O aspirante a historiador, ex-dirigente da Juventude Popular, Salvador Furtado (também publica tanto no Observador como no Público), escreveu um texto intitulado "Black lives matter, a nova lei" (16 Abril) em que parece citar o Daily Mail, mas mente e distorce o artigo do diário britânico afirmando que a Universidade de Oxford "se prepara para excluir algumas obras do seu reportório musical por, e pasme-se o leitor, serem demasiado coloniais. Ao que parece as sinfonias de Mozart são incomodativas para os estudantes negros, causando-lhes um sofrimento profundo quando as ouvem." Não, Oxford não vai censurar Mozart. Não só o Observador não desmentiu o colunista, como publicou um fact-checking (26 de Abril) demonstrando a falsidade do argumento mas citando um post do Facebook (10 de Abril). 

Em nenhum momento a coluna com fake news foi corrigida ou retirada. Tem 1574 partilhas e 30 comentários. O Observador leva a ideia de contraditório ao extremo: não é entre factos e divergência de opinião, mas entre a verdade e a mentira. Ambas parecem válidas quando postas lado a lado, fazendo fact- checking de anónimos nas redes sociais mas ignorando o dever à verdade das suas próprias páginas.

(Autora escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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