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Opinião. Relato de um náufrago

Opinião. Relato de um náufrago

Foto: Shutterstock
Editorial Sociedade 3 min. 24.05.2019

Opinião. Relato de um náufrago

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Incapaz de largar o lastro que o afunda, o jornalismo caminha para a sua autodestruição.

Em 1955, o jovem jornalista Gabriel García Márquez escreveu uma reportagem para o jornal El Espectador que foi publicada durante 14 dias consecutivos. A Colômbia vivia então debaixo de uma ditadura, e o escândalo revelado pelo futuro prémio Nobel obrigou-o a exilar-se em Paris. 

A reportagem levava como título “Relato de um náufrago” e contava, na primeira pessoa e minuto a minuto, a história de um marinheiro naufragado ao largo do Caribe, quando viajava num navio de guerra colombiano. A narrativa oficial pretendia que o navio se virou por causa de uma tempestade. Oito marinheiros caíram ao mar. Por causa da tormenta, o navio não pôde dar a volta e resgatá-los. Só um sobreviveu, depois de dez dias à deriva numa balsa. Foi aclamado como um herói. 

Para reconstituir a história, que hoje se lê como um texto literário, Gabriel García Márquez entrevistou-o seis horas por dia durante vinte dias – o dobro do tempo que o marinheiro passou no mar. Ao quarto dia, pediu-lhe para descrever a tempestade. “Não havia tempestade”, respondeu-lhe o marinheiro. Os boletins meteorológicos confirmavam. O navio, que saíra dos Estados Unidos, levava contrabando a bordo. O peso da carga ilegal fê-lo inclinar-se, custando a vida a sete homens. As fotos tiradas por outros marinheiros, obtidas pelo jornal, atestavam a versão do náufrago. 

El Espectador publicou a história tal como aconteceu, desmentindo a versão oficial da ditadura. O jovem jornalista foi obrigado a exilar-se em Paris. O jornal foi alvo de represálias e obrigado a fechar alguns meses depois. 

“Relato de um náufrago” é uma das grandes reportagens da história do jornalismo, e continua, mais de 60 anos volvidos, a ser um extraordinário exemplo de coragem e do papel dos media como contra-poder. Mas é sobretudo um marco de uma época que acabou. Hoje, é difícil que um jornalista possa passar vinte dias apenas com uma história. "Tempo é dinheiro". Com a redução das receitas publicitárias e os constrangimentos económicos, os jornais dispensaram centenas de jornalistas. As redações foram tomadas por gestores que ignoram alegremente que o jornalismo não é um negócio como outro qualquer. Como recordou José Vítor Malheiros, co-fundador do Público, dispensado ele próprio há uns anos por motivos económicos, o jornalismo não é um conhecimento (um “logos”) nem uma técnica, mas sim um “ethos”, uma ética, um compromisso com a verdade. É esse pacto com os leitores que justifica e cauciona o jornalismo: confiem em nós, porque somos independentes do poder político e económico. 

Hoje esse compromisso é violado diariamente quando os jornais traficam publicidade como se fosse notícia ou escolhem os assuntos que dão mais cliques, mas sobretudo pelo facto de retirarem aos jornalistas as condições necessárias para exercer o seu papel de contra-poder e a sua missão de informar. Em Portugal, mais de metade dos jornalistas ganham menos de mil euros e estão em situação precária. Não são as ameaças externas – a que os jornalistas têm demonstrado que resistem bem – mas as pressões internas e económicas que condicionam hoje o exercício da profissão. 

Um jornalismo que aceita ser produto, trocando a sua missão pelo resultado de vendas, é como um toxicodependente que jura que só consome às sextas ou alguém que quisesse ser honesto em part-time: uma contradição nos termos, uma impossibilidade ontológica. Incapaz de largar o lastro que o afunda, o jornalismo caminha para a sua autodestruição. 

 (Texto publicado originalmente na revista Decisão)