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Opinião. O meu reino por um carro
Editorial Sociedade 3 min. 25.02.2020

Opinião. O meu reino por um carro

Opinião. O meu reino por um carro

Foto: Pixabay
Editorial Sociedade 3 min. 25.02.2020

Opinião. O meu reino por um carro

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Quando até andar a pé se torna num verdadeiro percurso do combatente, o carro faz figura de única opção.

"The writing is on the wall" é uma expressão em língua inglesa. Está escrito na parede e - apesar dos nossos mais encarniçados esforços - é impossível continuar a ignorá-lo: a Era do Automóvel foi o século XX. Agora acabou-se.

Mas nós, simples humanos apenas relativamente racionais, somos muito bons a ignorar as mensagens que não queremos receber, e alguns grupos culturais são ainda melhores a fazê-lo que outros. Há um par de semanas tive uma epifania: os portugueses são totalmente viciados no carro e não me espantaria que no dia em que o planeta se torne inabitável, entre temperaturas escaldantes e ciclones diários, o último engarrafamento seja constituído apenas por condutores lusos.

Essa especificidade cultural nossa tornou-se clara para mim este mês durante uma formação que segui em Maastricht. Entre os outros formandos havia pessoas dos sítios mais díspares na Europa, e também do Peru, Nigéria e Tailândia, além de outro português, este vindo para o efeito de Lisboa. Foram os dois portugueses - eu e ele - os únicos a ignorarem os bons conselhos dos organizadores e esquecerem a conveniência do comboio: levámos um carro cada um, claro - o lisboeta deu-se mesmo ao trabalho de, depois de voar para Bruxelas, alugar um automóvel por cinco dias. Cinco dias em que os carros, inúteis, ficaram esquecidos num qualquer caríssimo parque da pequena cidade neerlandesa enquanto nós caminhávamos do hotel (ironicamente perto da estação de comboios) até ao local da formação e vice-versa, por entre agradáveis ruas históricas cheias de bicicletas e (felizmente) vedadas ao tráfego motorizado.

O automóvel foi, desde sempre, a forma de mobilidade mais cara - entre combustível, manutenção, multas, garagem, parques de estacionamento, seguros e impostos, é fácil gastar uma média de 400 euros por mês e isto sem incluir o preço inicial do veículo (infelizmente temos a perceção irracional que uma viagem é “grátis”, porque ninguém nos cobra no momento em que entramos no nosso popó...). 

Mas não é só por isso que, em contexto de cidade europeia, o automóvel está a perder a corrida. Ele é também, de longe, a nossa opção mais poluente - e as partículas emitidas pelos motores a diesel, sobretudo, estão a matar-nos aos poucos mas inexoravelmente - e, na maioria das vezes, não é sequer a opção mais rápida. Mais de metade das viagens puramente citadinas duram menos de 3 km, e para essas viagens curtas a bicicleta atinge muitas vezes o objetivo final em menos tempo, sobretudo considerando a sua facilidade de estacionamento.

O carro só vence na comodidade egoísta, e para convencerem os habitantes a abandonarem o seu assento quentinho e se deslocarem de outras formas menos destrutivas, é necessária uma combinação de medidas repressivas e positivas; ou seja todas as cidades já utilizam uma estratégia de “pau e cenoura”. Todas? Não. Lisboa e Porto resistem ainda e sempre como locais onde o carro se mantém como senhor e rei incontestado. 

Os sistemas de transporte público são cronicamente sub-financiados e incompletos (o metro do Porto não tem sequer uma linha que atravesse a cidade de leste a oeste, por exemplo); medidas mais fáceis e baratas de tomar, como a criação de um sistema integrado de ciclovias (por oposição ao que existe atualmente, com dois ou três troços sem ligação entre si, só “para inglês ver”) ou dar uma simples permissão aos operadores privados de trotinetes elétricas, muito úteis e até aqui proibidas. Andar a pé também não é opção - passeios estreitos e esburacados polvilhados de postes, publicidade e obstáculos de toda a espécie transformam a mais saudável das formas de mobilidade suave num verdadeiro percurso do combatente.

Sejamos sinceros: nós portugueses somos comodistas e egoístas, e o carro fica-nos por isso muito bem... Abandoná-lo, essa grande mudança, vai chegar com atraso. Mas vai chegar, inevitavelmente.

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