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O meu primeiro beijo
Opinião Sociedade 3 min. 03.06.2021
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O meu primeiro beijo

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O meu primeiro beijo

Foto: Disney
Opinião Sociedade 3 min. 03.06.2021
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O meu primeiro beijo

Filipa MARTINS
Filipa MARTINS
A história do meu primeiro beijo foi, antes de mais, uma história de antecipação e teste.

Ele tinha chegado à nossa escola, vindo do Porto, a meio do primeiro período, filho de pais separados. Exotismo bastante: cavaleiro vindo de longe, de uma cidade debruçado sobre outro rio, com sotaque de forasteiro que nas consoantes lhe vincava os cantos da boco de uma forma que arrancava suspiros às meninas. Acrescia que o contexto familiar, anunciado pela professora como nódoa de vinho no linho, o cobria do mistério das almas desarranjadas, candidatas a uma recuperação pelo amor. 

O toque dos lábios, que a Disney nos disse durante décadas ser possuidor dos maiores poderes curativos, tornou-se um imperativo quase ético e humanitário. O facto de ter uma palidez vitoriana e cachos louros tornava este gesto altruísta numa antecipação hedonista. A almofada foi, noite após noite, a minha pista de testes, enterrando os lábios na fronha com hesitações da língua. Como nas histórias tradicionais, havia que esperar pelo sinal do forasteiro e os olhares trocados diziam que este não tardaria. 

Chegou no formato de folha A5 quadriculada e dobrada em quatro, trespassada de carteira em carteira. O beijo, todavia, vinha coxo de vogais. Numa caligrafia nodosa, sugeriu um bejo atrás do pavilhão no intervalo do almoço, elidindo o i. Compareci no local combinado a mascar uma pastilha de mentol que me livrou do hálito a sopa de nabiças. Estacámos frente a frente, com os corpos próximos, espiados pela assistência camuflada em risos. Foi na inclinação do seu rosto de olhos vivos e abertos que compreendi que nenhuma vogal pode ser sacrificada na troca de saliva. Recuei e deixei-o suspenso na humilhante rejeição. Verdade seja dita que as vogais já fizeram mais por mim do que qualquer beijo reparador.

Mantive os treinos, até chegar hora mais generosa. Deixar pender a cabeça para a direita, não mais do que levemente, como nos retratos do colégio de São José, pareceu-me ser a primeira regra. Na boca, não morreria um sorriso plástico feito a mando da irmã Purificação, antes lábios empinados de peixe de água doce e o nervosismo trémulo que antecede batalhas e bailes de fim de ano letivo. Agitei-me na incapacidade de me ver de olhos cerrados e beiço estendido, queixo empinado e em bicos de pés, barriga contraída de bailarina russa, decote composto a algodão, por padecer de doença rara de crescimento. 

A posição de contorcionista de circo asiático demorava-me meia hora a alcançar e já me gritavam para que me raspasse da casa de banho. Tudo ultimado pelo toque do batom rouge de ‘Diamonds are a Girl's Best Friend’, que não saía à força de muito cuspo e papel higiénico ao domingo com a casa atafulhada de tios para o almoço. Gastei a fita da VHS a ver clássicos, com o Super Homem concluí que os óculos interferem na qualidade da prestação e lamentei que Joan Crawford tenha sentido a bigode aguçado de Clark Gable. 

Esperei pacientemente pela minha vez preocupada com a higiene oral. Ela chegou a trote, nas bancadas do polidesportivo, e aterrou suada e melosa no festejo de um golo roubado de um penálti mal marcado. A culpa foi do árbitro.

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