Escolha as suas informações

Opinião. O iPad que é cego, surdo e absurdo
Editorial Sociedade 27.03.2020

Opinião. O iPad que é cego, surdo e absurdo

Opinião. O iPad que é cego, surdo e absurdo

Foto: dpa-tmn
Editorial Sociedade 27.03.2020

Opinião. O iPad que é cego, surdo e absurdo

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Perante este contexto absolutamente distópico, qual é a resposta da Apple Computers, a empresa mais valiosa do planeta, no mesmo dia 18 de março?

Os terríveis números da epidemia não param de subir. Mil milhões de pessoas estão encerrados em casa, os que podem teletrabalham, os restantes estão em desemprego técnico ou privados de rendimentos e ocupação por tempo indeterminado. O impacto económico será pesado, mas por agora as preocupações são mais prementes: evitar a infeção, cuidar daqueles a quem mais amamos.

Perante este contexto absolutamente distópico, qual é a resposta da Apple Computers, a empresa mais valiosa do planeta, no mesmo dia 18 de março? … Anunciar novas versões ligeiramente redesenhadas do MacBook Air (1250 euros a versão mais fraca) e do iPad Pro (por volta do mesmo preço, sem incluir o acessório "teclado mágico" pelo ilusionista preço de 350 euros). A última geração do iPad tinha sido anunciada há apenas um ano exactamente no mesmo dia, e a Apple não vê nenhuma razão para que tudo não continue, alegremente, "business as usual".

Não temos qualquer necessidade de poder escolher entre uma dezena de modelos parecidíssimos do mesmo produto e da mesma marca (hoje em dia, nem a própria Apple parece saber quantos iPad e iPhones diferentes vende). E não há qualquer justificação benigna para produzir uma tablete ligeiramente diferente a cada semestre; há sim uma maligna, que é o facto de estes gadgets não serem feitos para durar, e também serem impossíveis de consertar entre peças soldadas e parafusos (muito) específicos. Não esqueçamos que a Apple foi a empresa que mais lobbying fez contra a nova legislação europeia do "direito à reparação".

Os tempos extraordinários em que vivemos também servem para realçar os podres do sistema que construímos: o "capitalismo descartável" só serve para maximizar o lucro das grandes corporações e permitir aos poucos consumidores que podem pagá-lo um futuro em que entrar no Netflix é 1% mais rápido. O preço a pagar? Um planeta em destruição acelerada, inóspito para o bicho predador mais perigoso que nele habita – o Homem. Talvez seja esta a grande oportunidade dourada de arrepiar este caminho absurdo, e começar de novo. Haverá tempo para voltar a este assunto.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.