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Opinião. O comboio ou o quintal

Opinião. O comboio ou o quintal

Foto: AFP
Editorial Sociedade 4 min. 03.05.2019

Opinião. O comboio ou o quintal

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Sem tecnologias alternativas prestes a serem adotadas, a aviação de massas tem os dias contados.

Durante o seu segundo mandato como pior presidente de sempre da Comissão Europeia, Durão Barroso foi confrontado com a hipocrisia do seu comportamento: enquanto o executivo europeu que ele liderava ia impondo (mesmo que devagarinho e a contragosto…) limites mais estritos às emissões poluentes de carros, camiões e motociclos, o próprio Barroso deliciava-se em ir trabalhar no seu gigantesco Volkswagen Tiguan a diesel, ajudando a piorar o já poluidíssimo ar de Bruxelas com todas aquelas horas parado em engarrafamentos a produzir óxido nítrico.  

Em vez de ser o primeiro a dar o exemplo e passar a ir trabalhar de metro ou bicicleta, Barroso continuou a passear-se no seu tanque urbano; a melhor justificação que encontrou foi a de "nunca se ter considerado um modelo para ninguém". Nesse ponto pelo menos estamos de acordo, e é provável que essa relutância em fazer o que está certo explique porque é que o organismo a que presidia, e que sabia pelo menos desde 2007 que os carros europeus eram muito mais mortíferos do que anunciavam, continuou (e de certa forma continua) a ignorar o problema até ao momento em que os americanos o denunciaram.

Desde aí só passaram alguns anos, mas à força de tantos desastres naturais consecutivos – Moçambique, por terrível exemplo, está a sofrer o segundo ciclone tropical devastador em apenas um mês – as consciências mudaram bastante. Não é mais possível ignorar nem as alterações climáticas nem a mãozinha humana que as provoca; já não conseguimos reprimir a sensação de que o tempo para poder reverter um cenário apocalíptico se nos está a acabar. Só que… a inação mantém-se. 

Gestos pontuais, metas pouco ambiciosas que logo em seguida são esquecidas, pequenas melhorias acontecem às vezes; a verdade é que as emissões globais continuam a subir, e a subir cada vez mais rápido. Um estudo recente afirma que seria necessário triplicar os objectivos previstos no acordo de Paris de forma a evitar a subida média da temperatura em 3º C até ao fim deste século – mas o acordo nem sequer está a ser cumprido tal como está.

Perante a criminosa irresponsabilidade dos líderes políticos e económicos, as pessoas começam a assustar-se – e a revolta está a sair à rua sob diversas formas. Na semana passada, a organização Rebelião Extinção logrou bloquear as ruas de Londres com protestos pacíficos e cartazes exigindo "Agir já" – o movimento já se propagou à maioria dos grandes países ocidentais e até em Portugal dá passos tímidos –, enquanto a Greve da Terra está a propor justamente isso: uma greve geral em todo o mundo, marcada para 27 de setembro.


Reino Unido declara estado de emergência climática
O Reino Unido é o primeiro Estado no mundo a tomar esta medida.

A urgência climática em que vivemos encontrou uma admirável lutadora-símbolo na adolescente sueca Greta Thunberg. A sua história pessoal dá-lhe uma credibilidade à prova de calúnias: Greta só tem 16 anos, mas interessa-se pelas alterações climáticas há sete. A sua doença, dentro do espetro do autismo, confere-lhe uma determinação extra e granjeia-lhe respeito acrescido – além de síndrome de Asperger, sofre de "mutismo selectivo", o que ela encara como algo de benéfico: "eu só falo quando tenho algo de importante a dizer", resume. Uma adversária formidável para toda uma classe de políticos tão verborreicos quanto inúteis.

A jovem convenceu os seus pais a mudar o estilo de vida da família. Os Thunberg não comem carne nem lacticínios, não compram nada que não seja essencial, instalaram painéis solares, vão de bicicleta a todo o lado e só mantêm um carro eléctrico para alguma emergência. Mas só o exemplo pessoal não era suficiente – e assim Greta começou o seu protesto tornado global, faltando às aulas à sexta-feira para se manifestar nas escadas do parlamento sueco.

Hoje, seis meses depois, a jovem leva as suas perguntas inconvenientes aos conclaves dos poderosos. Em Estrasburgo, atirou aos deputados europeus: "perdemos 200 espécies extintas por dia, um ritmo 10000 vezes acima do normal; erosão do solo fértil, perda de vida selvagem, acidificação dos oceanos… provocamos todos estes fenómenos desastrosos".

O seu périplo europeu também a levou a Bruxelas, Roma – onde se encontrou com o papa –, Londres, Hamburgo. Sempre de comboio. A sua recusa em voar sublinha ainda outra grande verdade incómoda: os aviões são altamente poluentes e a aviação é responsável por uma enorme quota-parte de emissões de gases. Muito simplesmente, voar mata. E os verdadeiros custos de voar não são, nem por sombras, refletidos no que as companhias pagam para operar – nem no que os passageiros pagam pelos seus, nossos, bilhetes.

Sem tecnologias alternativas prestes a serem adotadas, a aviação de massas tem os dias contados. No futuro (próximo) voltará a ser exclusivo dos ultra-ricos; para todos os demais, a escolha será entre ficar em casa ou acompanhar Greta no comboio.