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Opinião. "Noites tropicais" abrasadoras
Opinião Sociedade 4 min. 04.08.2022
Clima

Opinião. "Noites tropicais" abrasadoras

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Opinião. "Noites tropicais" abrasadoras

Foto: Thomas Coex/AFP
Opinião Sociedade 4 min. 04.08.2022
Clima

Opinião. "Noites tropicais" abrasadoras

Raquel RIBEIRO
Raquel RIBEIRO
A forma como os media cobrem o clima demonstra a falha pelo reconhecimento da destruição traçada pelo capitalismo nas alterações climáticas.

"Vêm aí noites tropicais: temperaturas podem ultrapassar os 40º graus". Não foi apenas um meio de comunicação que noticiou a última onda de calor desta forma. Quase todos, do online, aos jornais à televisão, usaram a expressão "noites tropicais" para descrever noites "anormalmente quentes" com temperaturas superiores a 30ºC de madrugada.

Desconheço a origem da expressão: o próprio IPMA? (especulo) Uma noite tropical não é uma noite anormalmente quente, e quase nunca com temperaturas acima de 30º. A ideia de que uma noite em que plantas, animais e humanos não conseguem recuperar, em que as casas e os solos não refrescam e muitas pessoas passam mal não é uma descrição nem científica nem correcta de uma noite nos trópicos. As noites nos trópicos são, apesar de tudo, agradáveis, mesmo quando a humidade é alta.

Dizer que uma noite perigosamente quente em Portugal ou na Europa é uma experiência nos trópicos dá a ideia de que estamos nas Caraíbas, podemos relaxadamente beber mojitos enquanto o mundo arde, quando, de facto, estamos fechados em casa dentro de uma banheira com a pouca água que nos resta.

Quem não quer estar nos trópicos de biquíni a beber mojitos? Os trópicos são mais agradáveis e ainda vendemos a ideia de Portugal como paraíso tropical: a mina de ouro que faltava ao Turismo como modelo económico único dos últimos 20 anos que, qual olival intensivo, foi sugando tudo o que era recurso para desenvolvimento do país, desmantelando todo o sector produtivo, agora fonte única de rendimento, numa política de "terra queimada" de destruição de malhas urbanas e de faixas costeiras protegidas, de exploração laboral, salários indigentes: dependência e subdesenvolvimento.

Um cenário de fim de mundo com um filtro palm tree do Instagram. É assim que os media continuam a contar histórias das alterações climáticas: uma no cravo, outra na ferradura na cobertura dos fenómenos (seca, temperaturas extremas, fogos, furacões). Isto faz-se pela espectacularização, quando as televisões estão horas em directo em zonas de incêndio e filmam, sem pudor, pessoas e natureza em enorme exaustão, grandes labaredas ou carros carbonizados ainda fumegantes. 

Também se faz de forma irresponsável com imagens da malta na praia curtindo baldes de cocktails com gelo enquanto o resto do país derrete. Seja quando "vem aí o bom tempo" em pleno Janeiro com temperaturas acima dos 20ºC: dias de sol são sempre bons, a chuva é aquela chatice – e assim continuamos, conversando sobre "o tempo".

A linguagem é importante. Não é só o que se diz, mas como. Muitos media têm investido na cobertura do clima, da "transição energética" ou até da ecologia. Mas, pergunto-me, se muitas dessas preocupações de agenda não serão muitas vezes a mesmice da cobertura sem o reconhecimento, de facto, do rasto de destruição traçada pelo modelo capitalista extractivista de recursos no planeta?

O que muitos media fazem é uma espécie de greenwashing semelhante ao das empresas de combustíveis fósseis – cujos lucros trilionários dos últimos 24 meses são uma espécie foguetes de fim de festa, e que parecem não preocupar responsáveis políticos e económicos – quando anunciam que vão "desinvestir" no gás pela energia "verde".

A leitura mediática continua a centrar-se no "crescimento económico" (apesar das perdas, naturais ou humanas – danos colaterais deste modelo), ignorando o confronto com o poder e o sistema de acumulação e desigualdade. Lado a lado estão notícias em que o ónus continua sobre o indivíduo (se reciclar, deixar a cápsula, andar a pé, não comer carne) e as férias das celebridades na Comporta e na Quinta do Lago, os lucros milionários da Galp com investimentos no gás em Moçambique, ex-ministros que saltam de pastas do Ambiente ou Energia para consultoras e empresas dos mesmos sectores, lifestyle e glamour no novo resort com centenas de camas e sete piscinas numa zona em que a população tem consumo de água condicionado.

Reformulando a velha frase de Chico Mendes sobre ecologia, dizia o professor de Antropologia económica, Jason Hickel, no Twitter: "Ambientalismo sem luta de classes é usar palhinhas de papel enquanto os ricos apanham voos de 9 minutos nos seus aviões privados."

Mas mais grave, porque aqui reside a falha consistente e, afinal, tão óbvia do papel dos media na manutenção do status quo, do poder, desta ideologia e na destruição de alternativas políticas viáveis: "Todas as vezes que me sinto grato pelo pioneirismo do Guardian em reportar sobre o colapso climático, não posso deixar de lembrar como eles contribuíram para esmagar o único candidato político que realmente poderia teria feito algo a esse respeito": Jeremy Corbyn.

(Autora escreve de acordo com a antiga ortografia.)


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