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Opinião: Não, o Facebook não pode ser o único bode expiatório
Editorial Sociedade 6 min. 19.11.2018 Do nosso arquivo online

Opinião: Não, o Facebook não pode ser o único bode expiatório

Opinião: Não, o Facebook não pode ser o único bode expiatório

Foto: Joel Saget/AFP
Editorial Sociedade 6 min. 19.11.2018 Do nosso arquivo online

Opinião: Não, o Facebook não pode ser o único bode expiatório

Catarina OSÓRIO
Catarina OSÓRIO
(Antes de despejar toda a raiva a propósito do meu título por favor leia esta crónica até ao fim.) Longe de mim querer desculpabilizar a maior rede social do mundo e um dos mais populares jovens bilionários do mundo. Mas ao focarmo-nos demasiado no Facebook estamos a desviar os olhares de quem também tem culpa no cartório.

Num texto intitulado " O velho problema das fake news", Jackie Mansky, editor da revista Smithsonian, revisita momentos em que a criação de falsidades está largamente associada à imprensa partidária norte-americana. Muitas vezes, escreve Mansky,"estas histórias resumiam-se a uma diferença de opiniões, um dos dilemas de ter uma imprensa independente que existe desde os primórdios da política norte-americana". Sejam jornalistas, comentadores políticos, alguma entidade que simplesmente quisesse fazer passar um ponto de vista, os literati influenciam largamente a opinião pública, "são os cultivadores da mente humana".

Nos dias de hoje a internet está inundada de "cultivadores da mente humana". Só que desta vez já não há separação entre bons e maus, imprensa ou não imprensa, cultivadores ou "incultivadores". Questionamos se a verdade realmente existe. Ou se afinal é apenas meia-verdade ou meia-mentira. O sonho de Tim Berners-Lee - considerado o pai da internet - era bonito. Uma net livre, aberta, participativa e democrática. Ainda que parte deste sonho se tenha realizado, se lhe perguntar o que lhe sugere a palavra internet o que vem à cabeça do leitor? Facebook, redes sociais, fake news, desinformação, mentiras, Trump, etc.

O Facebook em primeiro lugar não é propositado. É a rede social mais utilizada no mundo, embora a sua utilização para o consumo de notícias esteja a baixar em países como EUA, Reino Unido e França, segundo o relatório anual da Reuters Institute, da Universidade de Oxford. Isto deveu-se sobretudo às mudanças recentes do algoritmo na plataforma que passou a dar supremacia ao conteúdo postado por utilizadores em vez do conteúdo feito por empresas nos feeds de notícias. Finalmente, boas notícias para o jornalismo?

Após as eleições americanas e o escândalo com a Cambridge Analytica (relembre-se, a empresa que usou indevidamente dados dos utilizadores de redes sociais para influenciar a decisão de voto nas eleições americanas e no referendo do Brexit), o Facebook, na pessoa do seu criador, Mark Zuckerberg, foi chamado à verdade, admitindo que nim, talvez soubesse mas devia ter feito mais. Desculpas não aceites, mas há algo que o leitor tem de saber. As fake news existem desde há alguns séculos. Um exemplo amplamente citado pelos investigadores é a mentira sobre a descoberta de vida na Lua, numa série de artigos publicados pelo New York Sun em 1835.

Centenas de anos depois, em 2007, a TV pública belga  RTBF interrompeu a emissão com a notícia (falsa) de que a parte flemish (falantes de flamengo) teria declarado independência. Apenas meia hora depois a mensagem "isto é ficção" apareceu nos ecrãs de alguns espectadores, provavelmente já em histeria. Na hora de refletir, os seus criadores argumentaram que queriam apenas incentivar os belgas para as profundas divisões entre as partes francófonas e flamengas do país. O evento contribuiu em parte para a adoção de um conselho de ética jornalística em 2009 e levou o conselho audiovisual do país a fazer uma reprimenda à RTBF por ter avisado demasiado tarde que a notícia era pura ficção. Portanto, e para desgosto de muitos jornalistas, as fake news existem muito antes da plataforma de Zuckerberg, e a brincar ou a sério, com boas ou más intenções também foram criadas por jornalistas. Mas sublinho, não com o objetivo de manipular ou desinformar a opinião pública. Certo é que, a par destas brincadeiras e charadas, fora do jornalismo há um exército de desinformadores a espalhar o medo, a mentira e a deturpação pelas ruas da net.

Vários estudos das Universidades de Oxford e Cambridge demonstram que as redes sociais são os veículos preferidos dos desinformadores, mentirosos e manipuladores. É, portanto, óbvio que os facebooks desta vida são os primeiros a ser descortinados pela imprensa. Porque deixam esta informação à solta? Porque estão a receber dinheiro sujo, ganho à custa de fake news? Certo... mas há algo que estamos a deixar fora do problema: a origem. Sabia que o uso de bots (programas informáticos que emitem informação falsa ou contraditória na internet como se fossem utilizadores, por exemplo tweets ou comentários em notícias) para espalhar propaganda política e desinformação foram utilizados em 48 países no mundo inteiro, 28 dos quais em 2017? Mais: estas campanhas são muitas vezes criadas e financiadas por partidos políticos que sabem exatamente aquilo que estão a fazer.

Mais. Ainda segundo a Universidade de Oxford, desde 2010 partidos políticos e governos mundiais já gastaram mais de mil milhões de dólares em campanhas de manipulação da opinião pública nas redes sociais, que incluem fake news e desinformação. O que me leva à pergunta essencial: quem se esconde por trás destes sites e destas notícias?

Soubemos recentemente pelo jornal brasileiro Folha de São Paulo que vários empresários brasileiros financiaram uma campanha de propaganda de desinformação na rede social WhatsApp contra o Partido dos Trabalhadores que em muito terão ajudado na ascensão de Bolsonaro a presidente do Brasil. Ou então a recente investigação do Diário de Notícias sobre os sites de desinformação que inundam as redes sociais de fake news em Portugal. O DN tentou chegar à origem do problema: quem está por detrás destes sites portugueses que têm mais de dois milhões de gostos no Facebook? E que divulgam imagens e informação falseada como o relógio de 20,9 milhões de euros de Catarina Martins  ou notícias de crime falsas e sensacionalistas a apelar ao clickbait. O jornal identificou vários sites em Portugal, por exemplo o Bombeiros 24 horas, que sobrevivem à custa de fake news. Um excelente exercício de jornalismo e serviço público.

Na semana passada, o jornal The New York Times chamou e bem mais uma vez o Facebook de Zuckerberg à razão, por não estar a fazer mais para travar o cancro da desinformação online. Quero acreditar que quando concebeu a plataforma, o agora bilionário não teria o intuito que este fosse um antro de fake news. Sendo que infelizmente elas já são uma realidade, o Facebook, o Twitter, o WhatsApp, o Instagram, o Google, entre outros, têm de se mexer. Mas não são os únicos. As fake news só provam que o Homem, na sua natureza, consegue ser falso, manipulador, mentiroso e desprovido de escrúpulos. Maquiavel escreveu "os que vencem, não importa como vençam, nunca conquistam a vergonha". Atrás dos Facebooks desta vida, está um exército de maquiavélicos e de "cultivadores da mente humana" que nós jornalistas temos de continuar a envergonhar.

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