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Opinião …E a montanha pariu uns corruptos

Opinião …E a montanha pariu uns corruptos

Foto: AFP
Editorial Sociedade 4 min. 30.05.2019

Opinião …E a montanha pariu uns corruptos

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
"O 'nacionalista' do ironicamente chamado ‘Partido da Liberdade’ mostra-se capaz de vender rapidamente todos os compatriotas ao dinheiro de Putin."

Meses de retórica musculada, ameaças veladas e homens de meia-idade posando para as câmaras como algo de novo e refrescante a vangloriarem-se que “uma nova era da política começou aqui”. Avanços eleitorais, país após país, acompanhados de avisos apocalípticos em como a extrema-direita ia tomar conta disto tudo e derrubar o sistema da velha Europa que todos, aparentemente, tanto odiavam, e que se ia finalmente vergar perante o poder dos ultranacionalismos anti-tudo, conquistada por uma maioria de radicais liderada por Salvini, Le Pen, Wilders e Órban.

Afinal, as eleições que decidem a composição do Parlamento Europeu para os próximos cinco anos aconteceram há poucos dias e… a onda nacional-populista que ia levar tudo à frente não apareceu. Os demagogos (ainda) não saquearam o poder, e as diferentes ideias democráticas a que se convencionou chamar “o centro” aguentaram bem o seu terreno, mesmo que agora mais fragmentadas (o que não é necessariamente mau). É verdade que – e isso seria impensável há duas décadas – a extrema-direita obteve votações altíssimas em alguns países. Itália; França; Dinamarca e Suécia; Polónia e Hungria. Apesar disso, a verdadeira história destas eleições é outra, bem diferente.

A Europa é um complexo puzzle de 28 enquadramentos diferentes, com situações específicas e códigos muito próprios a cada Estado-membro, pelo que é preciso cuidado com as generalizações. Ainda assim é possível afirmar que estas ameaças populistas acabaram por ter dois efeitos muito positivos: criar uma espécie de verdadeira oposição, com uma alternativa clara (que é fazer menos, ou nenhuma Europa) ao nível comunitário; e sobretudo mobilizar os (cada vez mais apáticos) eleitores moderados que se aperceberam da importância do que estava em jogo.

A participação superou os 50% pela primeira vez em muito tempo, a social-democracia e a democracia-cristã estancaram as perdas, e mesmo essas reverteram sobretudo para os liberais e os ecologistas, que não param de crescer. Entre os eleitores alemães com menos de 30 anos, os Verdes são já (e de longe) o partido mais votado, e até Portugal, ainda ecologicamente sonolento, elegeu um deputado pelo partido dos Animais e da Terra.

A extrema-direita falhou o seu assalto ao castelo, mas o pior que os europeístas poderiam fazer agora seria respirar de alívio e pensar, complacentemente, que o perigo passou. As "guerras culturais" em que vivemos vieram para durar. Muitos cidadãos, sobretudo nas economias flageladas do sul, têm imensas razões de queixa das germanizadas políticas europeias. Há linhas de fractura insanáveis entre progressistas e localistas, globalistas e identitários, pobres e ricos, anti- e pró-imigração; como diz o autor francês Christophe Guilluy, "os coletes amarelos são como os brexiteers – vieram para ficar 100 anos". São cidadãos que votam convencidos que os populistas "falam as verdades", "são como nós", "são anti-sistema", "vão acabar com a corrupção".

O mais assustador é isto: essas convicções erradíssimas são tão inabaláveis que se tornam impermeáveis à lógica e aos factos. O eleitorado de extrema-direita está de tal forma doutrinado que nem algo tão grave quanto chocante prejudica o(s) demagogo(s) apanhado(s) no escândalo; o "caso Ibiza" é revelador.

Foi divulgado um vídeo com mais de seis horas gravado numa vivenda luxuosa em Ibiza que mostra o líder da extrema-direita austríaca (no governo em coligação com os conservadores) a falar com uma mulher loura que ele acredita ser sobrinha de um oligarca russo. A mulher pergunta-lhe o que pode obter em troca de mais financiamento ilegal para o partido FPÖ; Strache, um político conhecido por usar terminologia nacional-socialista e gritar contra "a corrupção de Bruxelas", promete-lhe tudo de que se lembra: contratos de obras públicas já atribuídos a uma empresa austríaca; o controlo do mais popular jornal do país através de despedimentos e substituições, uma relação (ainda) mais amigável com Putin…

O "nacionalista" do ironicamente chamado "Partido da Liberdade”"mostra-se capaz de vender rapidamente todos os compatriotas ao dinheiro de Putin. Corrupção pura e dura, irrefutável, evidente; o exacto contrário do que estes demagogos apregoam. O governo austríaco não sobreviveu a uma moção de censura e caiu hoje, um dia depois das eleições europeias. As mesmas onde a extrema-direita quase nem perdeu votos (terminaram com 17,3%) e o próprio Strache… foi eleito deputado europeu, por voto preferencial (individual) dos austríacos!

Uma vez, Trump gabou-se de "poder matar alguém em Times Square que os meus votantes não se importariam com isso". Talvez seja verdade – os aprendizes europeus de Trump podem espalhar mentiras nos media e ser meras marionetas russas que mesmo assim (alguns) votos continuam a chegar. A Europa ainda não está a salvo.

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