OPINIÃO: As férias de uns e a ganância dos outros

Foto: José Correia

Sergio Ferreira Borges

Os portugueses que trabalham no estrangeiro estão a chegar a Portugal, para gozo de férias. Vão ser bem recebidos? Talvez sim, mas não tanto quanto mereciam.

No último fim-de-semana, ouvi num restaurante da Figueira da Foz um protesto justo. O cliente, vindo precisamente do Luxemburgo, protestava porque a sardinha assada custava 10 euros, apesar de na semana anterior custar apenas oito. O dono do restaurante não tinha muitos argumentos para rebater a reclamação, limitando-se a dizer, numa primeira fase, que “já se sabe, nesta altura os preços sobem um bocadinho. É verão!”.

O cliente não aceitou a desculpa e disse que ele próprio trabalhava pelo mesmo preço durante todo o ano, tanto no verão, como no inverno. Até que o comerciante se lembrou de uma razão que talvez fosse mais convincente: “Eu também estou a pagar a sardinha mais cara desde quinta-feira”.

Provavelmente, é verdade, mas não foi esse o primeiro argumento. Seja como for, a verdade é que as indústrias que vivem do turismo preparam-se para a chamada época alta, com um aumento dos preços que, nalguns casos, é muito mais significativo que este simples exemplo.

Mas é evidente que, tal como a sardinha, as sobremesas, os vinhos e por aí fora, tudo veste de acordo com a moda para este verão. E, no final, a factura tem um aumento apreciável.

Também o leitão da Bairrada subiu de preço, tal como os vinhos espumantes e frisantes que o acompanham. O mesmo se pode dizer das gasolineiras que, nas duas últimas semanas, já atualizaram em alta o preço dos combustíveis. Apesar de, no momento em que escrevo, o preço do barril de petróleo ainda estar abaixo dos 50 dólares.

No ano passado, também foi assim. A vergonha faz falta a muita gente, mas parece que, em Portugal, há falta dela. Com toda a sinceridade, acho que ninguém merece isto.

Mas à frente de toda a gente coloco os emigrantes que, depois de um ano de trabalho, regressam ao país para gozo de um direito, as férias. E, à sua espera, têm um sistema comercial, radicado na lei da oferta e da procura, pronto a extorquir-lhes o máximo que puder. Não é justo, nem é bonito.

No meio de tudo isto, fica a hipocrisia. Durante o ano, não faltam elogios àqueles que, mesmo longe, contribuem para a economia de Portugal, com as remessas, com o consumo e com investimentos, tudo conseguido à custa de um trabalho árduo. Mas no momento do regresso, há tanta gente a afiar a faca para lucrar, sem escrúpulos, com o dinheiro de quem justificava outro tipo de recepção.

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