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Opinião. Agora as boas notícias
Editorial Sociedade 3 min. 18.03.2020

Opinião. Agora as boas notícias

Opinião. Agora as boas notícias

Foto: Lusa
Editorial Sociedade 3 min. 18.03.2020

Opinião. Agora as boas notícias

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Ainda que se trate do maior e mais negro cúmulo-nimbo deste século, o Covid-19 não foge à regra e algumas das mudanças que, em poucos dias, já provocou e ainda vai provocar serão benéficas a longo prazo.

Como se reconhece um médico? É aquele que começa a conversa por "tenho boas e más notícias…" Nestes tempos sem precedentes que vivemos, os médicos são como os jornais – quase só dão más notícias. Mas mesmo os piores acontecimentos têm sempre pelo menos um lado bom, tal como afirma a expressão inglesa "todas as nuvens têm uma borda prateada". Ainda que se trate do maior e mais negro cúmulo-nimbo deste século, o Covid-19 não foge à regra e algumas das mudanças que, em poucos dias, já provocou e ainda vai provocar serão benéficas a longo prazo.

Comecemos pelas novas regras de funcionamento em sociedade. É um pouco paradoxal, mas um vírus que nos obriga à negação da própria natureza humana – isolando-nos nas nossas casas-cavernas e impedindo qualquer tipo de interacção física – vai, pelo efeito de privação, dar-nos um sentido de comunidade muitíssimo mais agudo, de como estamos interligados com os nossos semelhantes e como o nosso bem-estar é indissociável do bem-estar de todos aqueles que nos rodeiam. 

Sim, é verdade que ultimamente há demasiadas demonstrações dos piores defeitos que o bicho Homem tem para apresentar, do egoísta " cada um por si " das batalhas de supermercado, passando pela xenofobia do " vírus estrangeiro", até ao aproveitamento da desgraça para vender gel desinfectante ao preço do ouro. Mas também há muitos sinais de esperança: a ganância é ostracizada pela maioria, e por todo o lado começam a brotar gestos, pequenos ou grandes, que comovem e nos enchem de esperança para o futuro. As pessoas que se oferecem para ir às compras para os mais idosos do prédio. 

As doações privadas para compra de equipamento ou comida. A incrível dedicação do pessoal médico e todos aqueles que os apoiam, incluindo quem lhes empresta um local para viver e assim evitar o contágio das suas famílias. E acima de tudo, entre o choque e a angústia, a determinação colectiva em ultrapassar, juntos, o desafio mais exigente que já tivemos.


Editorial. O momento histórico que não queríamos viver
Quando isto passar muitas coisas vão ter que mudar, para não se repetir uma situação que criamos com a forma de explorar a Terra, que multiplica perigos e catástrofes.

Mas há outro efeito, quiçá mais palpável, que vai melhorar imenso a nossa vida a longo (talvez já médio) prazo: a pandemia vai varrer dos seus cargos muito demagogo, incapaz ou criminoso que chegou a posições de poder e liderança sem estar minimamente preparado(a) para tal. O vírus veio pôr a nu a impreparação de muitos para tomar decisões ou deter responsabilidades para gerir pessoas. Falo de muitas chefias de empresas, mas sobretudo de governantes; e entre esses alguns ministros da Saúde, certamente, mas essencialmente primeiros-ministros e presidentes. Para muitos (mesmo muitos) deles, os sinos vão tocar em breve e os seus governos cairão com estrondo, contaminados pelo vírus da incompetência. 

Há muitos políticos europeus a quem este critério se aplica, mas no topo da pirâmide, obviamente, está o espécime mais nocivo, o homem que apresenta a melhor combinação tóxica de instabilidade emocional, ego frágil e desmesurado, demagogia, instintos vingativos e uma ignorância que só é ultrapassada pela raiva mal disfarçada que tem ao conhecimento: Donald Trump. Era óbvio que eleger um antigo apresentador de telelixo com um historial de falências fraudulentas tinha tudo para terminar em catástrofe, e assim será. 

Não sem antes sermos brindados com o espectáculo patético das conferências de imprensa do milionário americano – ainda no dia em que escrevo, perante os números alarmantes que provam a progressão inexorável da infecção, a mensagem central de Trump foi "relax, está tudo a correr bem para nós, disfrutem de um belo jantar". Ontem tinha sido "os cientistas ficam todos impressionados em como eu sei tanto disto", enquanto os ditos cientistas olhavam para o chão, embaraçados.

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